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A genialidade de Pelé em lances, no marketing e contra o racismo

Eram decorridos 46 minutos do segundo tempo quando Tostão lançou Pelé em profundidade. O Rei do Futebol nem precisou tocar na bola para ludibriar o goleiro uruguaio Mazurkiewicz e driblá-lo. Com uma ginga de corpo, deixou o adversário para trás. A finalização, na sequência, passou raspando a trave e saiu para fora.

Não fez falta. Afinal, a seleção brasileira já vencia o Uruguai por 3 a 1 e, assim, se classificou para a decisão da Copa do Mundo de 1970, além de ter expurgado o trauma da derrota de 1950 com aquela vitória. Mais do que isso: eternizou aquele lance, pouco importando que ele não tenha sido gol.

Leia também – Guia na Copa: Negro molda cultura do futebol desde Leônidas e chega à cerveja

Com Pelé, afinal, era assim. A revolução podia, muitas vezes, ser silenciosa: sem um gesto, um toque na bola, uma palavra. Foi desse modo em toda a Copa de 1970, quando a aliança entre preparação, talento e determinação abriu caminho para a consagração daquela considerada como a melhor seleção de todos os tempos. E, claro, do Rei do Futebol.

É óbvio que Pelé fez seus gols em 1970 – foram quatro –, dois deles antológicos, com o domínio perfeito da bola no peito antes da finalização contra a Checoslováquia, na estreia, e o cabeceio fulminante na final contra a Itália –, assim como deu assistências – seis –, mas a beleza da sua consagração passou, também, pelo não fazer.

Eles foram eternizados nos quase gols: o do drible de corpo em Mazurkiewicz, na finalização de bate-pronto após bola mal distribuída pelo mesmo uruguaio, no cabeceio defendido pelo inglês Banks, pelo gol que Pelé não fez – ou pelo lance que sua genialidade criou? – em finalização do meio-campo diante da Checoslováquia.

Rei do marketing
Também foi assim com o marketing esportivo. Em 1959, na sequência da conquista do primeiro título mundial da seleção, quando Pelé cumpriu a promessa feita a seu Dondinho em 1950, de dar o título que o Brasil havia perdido naquele ano, ele teve outra conversa com o seu pai.

Nela, Pelé recusou a oferta de uma empresa do interior paulista para dar seu nome a uma caninha, a popular cachaça, por entender que não seria uma boa ideia associar a sua imagem com uma marca de bebidas alcoólicas. Com isso, a “Caninha Pelé” não foi além de um lote de teste.

E seria assim nas seis décadas seguintes. Pelé manteve o afastamento da publicidade envolvendo bebidas alcoólicas, incluindo a cerveja. Nem por isso deixou de revolucionar o marketing esportivo. Se tornou uma marca. Exportou o café brasileiro para o mundo com o Café Pelé e teve contratos longevos, como com a Mastercard, e marcantes, como no caso da Pfizer.

Já nos últimos anos, se inseriu no mundo das redes sociais e protagonizou propagandas com estrelas atuais do futebol mundial, como Cristiano Ronaldo e Mbappé, craque em ascensão e que segue seus passos ao evitar fazer propagandas de bebidas alcoólicas.

Mesmo sem o dedo de Pelé, a indústria da cerveja também se inseriu no marketing esportivo ao longo de sua trajetória, pelo alcance do futebol, liderado pelo seu rei, a ponto de ser impossível, hoje, imaginar uma grande competição, como a Copa do Mundo, sem o apoio de uma marca global. Veio, inclusive, de uma delas, uma das últimas homenagens a Pelé.

Depois de premiar o melhor jogador de cada partida do Mundial no Catar com o troféu “Player of the Match”, em ação iniciada na Copa de 2002, a Budweiser homenageou Pelé com o troféu “Player of the History”, em ação de marketing que contou com a participação de Neymar.

“Se a cada partida existe a expectativa pelo melhor em campo, quando falamos da história dos Mundiais, não resta dúvida sobre quem é o Rei”, afirma Carolina Caracas Gargione, head de marketing da Budweiser. “Então, criamos esse troféu especial para celebrar toda a carreira e a trajetória do Pelé, e tudo o que ele representa para o mundo, não apenas o nosso país”, acrescenta.

Fora de campo
Em alguns momentos de sua trajetória, Pelé foi cobrado – muitas vezes por brancos – para se engajar mais na luta contra o racismo. Seu brilho dentro de campo, sua presença global como um vencedor e um exemplo de êxito esportivo e do Brasil, por si só, significaram um importante passo para a representatividade negra em uma sociedade racista.

“Ao seu modo, Pelé colocou o homem preto no topo do mundo. Ele faz até os racistas reconhecerem que o melhor jogador do mundo é um homem negro. Com isso, Pelé ajuda a dar visibilidade e mostra que o homem preto pode ser o melhor de todos”, afirma Gustavo Bandeira, autor do livro “Uma história do torcer no presente”.

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