Os movimentos de popularização das corridas de rua e a expansão da cultura cervejeira no Brasil encontraram um ponto de convergência: os eventos e as práticas esportivas que têm a apreciação da bebida como “atração” à parte. Afinal, corrida e cerveja não são opostos. Se correr já estimula a produção de endorfina e alivia o estresse, por que não socializar e turbinar o bem-estar com uma bebida gelada e bem feita?
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Quem adere à prática garante que o aparente descompasso entre o exercício físico e a ingestão de álcool pode ser driblado com o consumo consciente, beirando a degustação. Ou ainda com a substituição da cerveja tradicional por opções sem álcool.
“Beer evangelizador”
Quando se fala em corrida e cerveja no Brasil, fala-se também de Gilberto Tarantino, o Giba. O atual presidente da Abracerva (Associação Brasileira de Cerveja Artesanal) e sócio-proprietário da Cervejaria Tarantino já foi importador. E foi o responsável por trazer ao Brasil o Mikkeller Running Club, que se declara como “um clube de cervejas com o mau hábito de correr”.
Giba já corria desde 2000 e passou importar cervejas artesanais em 2008. Eram produtos norte-americanos, da Escócia, da Itália e a dinamarquesa Mikkeller. Os fundadores da cervejaria de Copenhague — Mikkel Borg Bjergsø e Kristian Klarup Keller, que também são corredores — criaram o clube para estimular o esporte e o consumo consciente de cerveja lá na Dinamarca.
Em 2011, Giba importou também a ideia do clube de corrida para o Brasil, que foi gerido ao lado do personal trainner Rodrigo Kimura. “Fui o ‘beer evangelizador’ de todos os meus amigos de corrida”, conta. “Sempre tive uma visão da cerveja acompanhada de um estilo de vida saudável. [A corrida com cerveja] É mais uma curtição, uma degustação pelo lado gastronômico da experiência da cerveja com aromas e sabores diferentes”, diz.
Atualmente, o Mikkeller Running Club está ativo no Brasil somente na cidade de Curitiba (PR). No último sábado (27), o grupo promoveu uma corrida com a cervejaria Xamã. Foi feito um circuito de seis quilômetros pelas ruas do bairro Boqueirão, com voucher de cerveja (“vale um final feliz”) ao fim do trajeto. E com direito a música ao vivo.

Legado de corrida e cerveja
Depois que a Importadora Tarantino deixou de trazer as cervejas da Mikkeler por conta do alto valor do dólar, o Mikkeller Running Club de São Paulo se desfez. Mas Rodrigo Kimura decidiu continuar e fundou o Beer Crew em 2017.
Kimura diz que vê a união da corrida e cerveja como uma forma de promover a qualidade de vida e o consumo consciente, valorizando a produção de cervejarias artesanais. O grupo já contou com cerca de 15 patrocinadores, a maioria de cervejarias artesanais nacionais. Mas já fez parcerias com marcas de fora, como Straffe Hendrik, da Bélgica, Fuller’s, da Inglaterra, e Pilsner Urquell, da República Checa.
Para Kimura, o objetivo não é “encher a cara”. Mas, sim, degustar a cerveja artesanal, valorizando a educação sobre os tipos e marcas, dando chance para as pessoas conhecerem cervejarias nacionais. “Eu quis construir esse meio-termo de trazer o pessoal da cerveja para a corrida, introduzir a qualidade de vida sem precisar encher a cara. No mundo da cerveja artesanal, a gente costuma dizer ‘beba pouco, mas beba melhor’”, diz Kimura.
Da rua ao evento fechado
Enquanto alguns grupos promovem a treinos e corridas de rua com degustação ao fim do percurso, há quem pratique em eventos fechados, com degustação de cerveja ao longo do trajeto.
Marcelo Naves, mestre cervejeiro e CEO da Cervejaria Quatro Poderes, de Brasília (DF), promove desde o ano passado seu próprio evento. A Quatro Poderes Beer Run é um circuito de corrida de seis quilômetros dentro do Parque da Cidade.
Segundo Naves, a ideia era aproveitar a cultura de corrida de Brasília, aliada à divulgação do novo produto da marca, a cerveja Esplanada Zero Carb. No evento, os pontos de hidratação do quilômetro dois e quatro oferecem a água e também uma cervejinha gelada e sem carboidratos. “Tem corrida, tem show, tem cerveja. Virou um grande evento, todo mundo já fica na expectativa para a próxima”, diz. Na última edição, o evento contou com 1 mil participantes.
Pelo Brasil
Outro exemplo é o Circuito Cervejeiro de Corrida, que tem expandido suas etapas para diversas cidades com forte apelo cervejeiro e turístico, principalmente no estado do Rio de Janeiro e em Minas Gerais.
Cidades como Petrópolis, Nova Friburgo, Penedo, Itaipava, Paraty (RJ) e Ouro Preto (MG) já sediaram o evento, integrando a corrida com o ambiente e o produto de cervejarias locais.
Outras iniciativas regionais têm surgido, como o Circuito Way Beer de Corrida (no Paraná). O que reforça a tendência de microcervejarias usarem a corrida como ferramenta de divulgação e engajamento comunitário.
Alguns desses eventos oferecem aos participantes um kit que inclui camisetas, medalhas (frequentemente em formato de abridor de garrafa) e vouchers para as degustações.
Assim, a corrida e cerveja formam um nicho no calendário esportivo brasileiro, unindo a busca por um estilo de vida mais ativo com socialização, apreciação cultural e gastronômica da cerveja. E isso valoriza o produto artesanal e a alegria da confraternização — sem exageros, afinal, o público que costuma frequentar esses eventos é todo 35+.


