
Como a cerveja nos guia? Trabalhar com cerveja na comunicação, na contínua construção da cultura, história da cerveja e a importância da bebida para a sociedade, é algo que me alegra muito. E tenho buscado cada vez mais formas de me educar com qualidade, indo buscar as informações, quando possível, em diferentes lugares, pessoas e formatos.
Uma coisa que eu sinto falta no Brasil, apesar de ter melhorado muito nos últimos anos, são as escritas que contam nossas histórias. Livros. Artigos. Blogs. Estamos em um momento do tempo onde muito do que é escrito está nas redes sociais e não mais em papel, ou em textos longos. A forma da escrita mudou, a comunicação sobre os fatos é diferente. Muitas vezes, nem escrevemos mais, fazemos um prompt e pedimos para que a chamada Inteligência Artificial escreva sobre aquele conceito. São as mudanças da nossa época. E isso, lá na frente, também vai contar sobre como vivemos nesse começo de século XXI e como bebemos nessa época. Como estamos bebendo nessa época, aqui e agora no Brasil? E como evoluímos por aqui, e como pesquisamos e criticamos? Como registrar toda essa complexidade, de diferentes pontos de vista e experiência?
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Uma jornada até Oxford
Para encontrar diferentes respostas e em diferentes formatos, fui até a cidade de Oxford, cerca de 80 quilômetros ao norte de Londres, no Reino Unido. Famosa pela sua arquitetura medieval e por abrigar a mais antiga universidade do país, além claro, de ter sido cenário para gravações dos filmes de Harry Potter. Lá, além da tradicional e famosíssima universidade que leva o nome de Oxford, tem a Brookes University que conta com 19 diferentes áreas de estudo e tem ótimo destaque para o setor de Hospitalidade. Andar ali é ouvir diferentes línguas, porque eles têm estudantes de muitos outros países, uma diversidade exposta na juventude que aprende em exercício a cultura do mundo.
A Brookes tem uma arquitetura bastante moderna. As instalações são bonitas, limpas e amplas. Ao chegar pela entrada da avenida principal, descemos uma escadaria que dá em um grande salão, um átrio, onde há bastante espaço para conexão, estudo ou descanso, além de um dos vários restaurantes, que atendem aos estudantes, bem iluminado, com paredes em vidro que dão vista para um jardim que conecta os diferentes prédios.

O tesouro da National Brewing Library e a história da cerveja
Descendo ou subindo as escadas você tem as bibliotecas. Sim, são algumas bibliotecas. A que nos mais interessa está descendo as escadas. Uma sala onde se guarda o tesouro de um tempo, o conhecimento e uma experiência que não temos como acessar se não lá, folheando as páginas dos antigos manuscritos cervejeiros. Vamos para a Special Colletions: The National Brewing Library.
A biblioteca é organizada em áreas claramente delimitadas, com aquelas estantes modernosas e automáticas, que abrem e fecham conforme o que você quer acessar, com os corredores que compactam os arquivos e geram mais espaços. As estantes são altas, metálicas, dispostas em corredores lounges e estreitos, com livros e caixas arquivísticas identificadas por códigos e etiquetas. Há carrinhos de transporte para as obras solicitadas, e uma grande mesa, para o manuseio de materiais, com uma iluminação direta e uniforme e ainda um controle cuidadoso do ambiente com temperatura e umidade.

Parte do acervo fica em uma área de acesso restrito, com os documentos protegidos por papel neutro (tipo seda) e caixas, e são manuseados com o apoio da equipe técnica. O espaço prioriza preservação e consulta, funcionando como um local de trabalho contínuo voltado à pesquisa, leitura e organização do conhecimento. A equipe toda é muito solícita, nos receberam muito bem, e dá para ver que gostam do que fazem. Compartilharmos um pouco da energia caótica brasileira em momentos de animação com tantos achados incríveis, foi muito legal conhecer quem cuida desse tesouro.
O acervo vai muito além do aspecto técnico. São mais de 8,5 mil volumes que documentam a formação da indústria cervejeira e a própria história da cerveja ao longo de mais de dois séculos. Muitos são edições originais ou raras, preservadas em condições controladas, com encadernações frágeis, papel envelhecido e marcas claras de uso histórico.
O escopo da NBL deixa claro que a cerveja é tratada como um campo de conhecimento amplo e interligado. O acervo reúne obras históricas, técnicas e científicas sobre matérias-primas, fermentação, microbiologia, engenharia de produção, qualidade e análise sensorial, mas avança também sobre temas econômicos, regulatórios e sociais. Estão documentadas questões como tributação, comércio, histórias de empresas, funcionamento do mercado e o papel do licensed trade, incluindo pubs, guias e a simbologia das placas de estabelecimentos. Não se trata apenas de como a cerveja é feita, mas de como ela circula, é regulada, consumida e compreendida ao longo do tempo. Esse recorte confirma a cerveja como um sistema complexo, sustentado por múltiplas camadas de conhecimento que se conectam entre si.

A importância da fonte primária
O uso da referência bibliográfica, mas como fonte primária, permite acompanhar como o conhecimento foi construído, debatido e aplicado em seu tempo, antes de ser simplificado ou reinterpretado. Para o mercado cervejeiro, isso significa acesso direto às bases técnicas, científicas e regulatórias que moldaram a nossa atividade. O acervo ajuda a contextualizar práticas atuais, compreender a origem de padrões de qualidade, debates sobre tributação, saúde pública e consumo, além da evolução da relação entre cerveja, Estado e sociedade. Para pesquisadores, produtores e profissionais do setor, esse tipo de material evita leituras superficiais ou anacrônicas e oferece base histórica sólida para decisões contemporâneas. Além de uma experiência sensorial, entre folhear livros antigos que já estiveram nas mãos de tantas pessoas que também são apaixonadas por cerveja!
Um dado especialmente relevante é que cerca de um quarto desse material é único, não disponível nos catálogos de outras grandes instituições. A coleção segue em crescimento, por meio de doações do próprio setor e de um programa contínuo de aquisições, acompanhando as transformações da indústria ao longo do tempo. Tenho o orgulho de registrar que o livro que organizei, O Guia da Sommelieria de Cervejas, publicado pela editora Krater junto a mais de 25 autores, hoje também integra esse acervo. Faz parte dessa história. Sim, emocionei.

Folhear os livros de Pasteur foi especialmente emocionante, as edições antigas, traduções e notas críticas acumuladas ao longo de décadas, deixa claro como algumas “verdades” que hoje circulam de forma simplificada nasceram de processos longos, cheios de dúvida, revisão e contradição.
No quesito conhecer pessoas legais em lugares legais, estava por lá fazendo uma pesquisa no acervo de Michael Jackson, o Thomas, pesquisador da Fundação Carlsberg e conversamos um bocado sobre a história da cerveja. Tenho algumas cartas na manga, quer dizer, textos na manga, para compartilhar sobre esse recorte cervejeiro histórico, contar que a pesquisa direta mostra que Pasteur não salvou a cerveja de uma vez, nem trabalhou isolado da prática cervejeira de seu tempo; suas conclusões foram sendo construídas a partir de observações concretas, erros, debates e ajustes sucessivos e mais importante ainda, coletivos.
Falando nisso, a minha primeira ambição era mesmo conhecer o acervo que o Michael Jackson deixou e que hoje está nessa biblioteca. Fomos, eu e a Pri Colares, mergulhar nas centenas de documentos que contam um pouco mais a história deste grande escritor cervejeiro. Mas também é o caso de outro texto, cheio de novidades e curiosidades sobre a história, mais próxima do nosso tempo.
Contra o “telefone sem fio” digital
Esse contato com os textos originais funciona como um antídoto ao telefone sem fio digital: lembramos que ciência não é só para postar frases de efeito. Compreendemos que esse grande mistério, que ainda é a cerveja, exige mais do que repetir conceitos prontos, e é preciso sair dos resumos apressados, dos textos curtos e dos caminhos preguiçosos. Pesquisar é fermentar curiosidade, é compreender conceitos, olhar para o que já falhou, o preço que já se pagou. E seguir, acertando e buscando.

Contar essa história, falar sobre esse lugar, essa biblioteca tão longe de nós, é uma provocação ao mercado. Como um todo. Perguntar: como vamos tratar o que estamos construindo, o que estamos deixando para o futuro e como estamos contando essa história no agora?
A National Brewing Library não funciona de forma isolada pois ela está integrada a uma rede ampla de outras bibliotecas, mais arquivos acadêmicos, diferentes associações profissionais e organizações do setor de bebidas alcoólicas no Reino Unido e em outros países. Esse ecossistema inclui desde coleções técnicas universitárias e arquivos históricos de cervejarias até entidades de mercado, institutos de pesquisa, sociedades de história e associações de escritores especializados.
O que essa rede deixa claro é que o conhecimento sobre cerveja é construído a partir de múltiplas fontes, com pesos diferentes: documentos primários, registros institucionais, pesquisas científicas e interpretações jornalísticas. A biblioteca atua como ponto de referência nesse sistema, indicando caminhos, conexões e limites, e reforçando a ideia de que pesquisar cerveja de forma responsável exige mais do que consultar um único site ou repetir informações amplamente difundidas. O saber cervejeiro é fragmentado por natureza, e a biblioteca atua como ponto de articulação.
Um sistema integrado
Voltei da viagem pensando muito sobre como a cerveja não se apoia em um único tipo de conhecimento. Ela se organiza como um sistema integrado, uma mandala, na qual diferentes dimensões se conectam e se sustentam mutuamente. A base envolve agricultura, tecnologia, ciência, insumos, processos, microbiologia. Sobre elas se apoiam camadas históricas, econômicas e regulatórias, que moldam práticas produtivas, mercados, leis e políticas públicas. Em torno disso tudo estão as dimensões cultural, gastronômica e de serviços, onde a cerveja se relaciona com o consumo, a hospitalidade, a escrita especializada e a vida social. Cada instituição preserva uma parte desse conjunto. Nenhuma fonte isolada explica a cerveja por completo. É a leitura articulada dessas camadas da história da cerveja que permite compreendê-la de forma mais ampla e menos simplificada.
Vamos ler, vamos escrever, vamos beber, vamos produzir. Saúde e um ótimo 2026, cheio de motivos para contar!
Bia Amorim é sommelière, pesquisadora e palestrante. Atua na interseção entre gastronomia, cultura e bebidas brasileiras, com foco em comunicação, experiência, consumo consciente e hospitalidade.
* Este é um texto opinativo. As opiniões e informações contidas nele são de responsabilidade do colunista e não refletem necessariamente a opinião do Guia da Cerveja.


