A 17ª edição do Festival Brasileiro da Cerveja (FBC) terminou no sábado (7) após quatro dias de muita degustação, encontros e entretenimento. O público presente foi de 21.566 pessoas, segundo a Prefeitura de Blumenau. Somente o Degusta Cervejas do Brasil, evento paralelo em modelo open bar, contou com 6 mil pessoas, de acordo com a Associação Blumenau Capital Brasileira da Cerveja (ABCBC), responsável pela organização. Esse total representa um crescimento em relação a 2025, quando foram anunciados 18 mil participantes.
No entanto, o maior indicador de sucesso não pode ser medido apenas em números, mas deve ser pesado pelas palavras de quem participou. A reportagem do Guia da Cerveja esteve presente, observou a evolução do evento e conversou com vários participantes e expositores, que relataram muitas experiências positivas e um clima mais otimista. É claro que ajustes também precisam ser feitos. Mas entre os cervejeiros e apreciadores, não faltou quem afirmasse também que “os bons tempos” estavam de volta.
Isso tudo valida e consolida o modelo lançado ano passado e aprimorado nessa edição, que divide o evento em dois: o Festival Brasileiro da Cerveja propriamente dito, organizado pela prefeitura por meio da Blumenau Eventos, com a experiência de anos de Oktoberfest; e o setor de experimentação livre, recém-batizado de Degusta Cervejas do Brasil, realizado pela ABCBC. Este, aliás, é o grande destaque do ano.
A solução foi implementada após o modelo anterior ter mostrado sinais de desgaste ao longo do tempo, principalmente após a Pandemia da covid-19. Mas o evento, que teve uma primeira edição em 2005 e foi retomado de maneira contínua em 2009, sempre foi uma ótima oportunidade para quem quer conhecer cervejas artesanais e um grande ponto de encontro da comunidade cervejeira brasileira.
Quem foi, gostou
Igor Cardoso, engenheiro de 42 anos do interior de São Paulo, relata que não participou do evento em 2025, mas que estava gostando do que tinha visto este ano. Ele elogiou o modelo de open bar que, para ele, não é sobre beber em volume. “É a melhor forma de degustar uma grande variedade de cervejas de forma mais livre, sem ficar pensando em pagar cada cerveja”, diz.
Elemar José Zoz, farmacêutico e sommelier de cervejas de 52 anos, residente em Blumenau e dono do perfil do Instagram @zoz_sommelier, participou do evento no sábado e avalia que foi um sucesso. “O Degusta foi muito além de um simples evento cervejeiro. Acabou mostrando a diversidade e a criatividade do mercado cervejeiro, o potencial que esse mercado tem e, acima de tudo, quantas experiências o público pode ter”, diz. “A simples liberdade de você explorar inúmeros estilos de cerveja e interagir com os cervejeiros acaba transformando um simples gole de cerveja numa viagem sensorial incrível”, completa.
De acordo com o presidente da ABCBC, André Grutzmacher, o saldo do evento é muito positivo. “Tivemos muitas evoluções do modelo do evento em relação à estreia dele, em 2025, e isso foi sentido pelos expositores e pelos visitantes. Encerramos o Degusta Cervejas do Brasil com o modelo consolidado, caminhos estruturados para os próximos anos e a certeza de que o encontro do mercado cervejeiro em Blumenau é único”, comenta.
Expositores felizes, mas com ressalvas

Muitos dos cervejeiros que expuseram no evento compartilham o otimismo do público. Gabriel Thiler Costa, sócio da Cervejaria Alpendorf, em Nova Friburgo (RJ), trouxe a cervejaria pelo segundo ano. “Em 2025 o evento já se mostrou revolucionário e isso se provou em 2026”, conta. “Blumenau não é o maior centro do país, mas é o maior centro cervejeiro do Brasil. É uma espécie de São Paulo Fashion Week da bebida: onde todos se encontram, as tendências se apresentam e se reforçam a partir da percepção do próprio mercado”, finaliza ele, que garante que já está confirmado em 2027.
Também já reforçando que estará na próxima edição, Josué Zonta representa a Cervejaria Sacramento, de Chapecó (SC). “É um evento que tem menos foco na competição pela venda, que foca no produto, nas possibilidades de inovação que ele pode oferecer para que o consumidor tenha experiências sensoriais diferentes”, conta. “Há uma clara evolução criativa e técnica das cervejas brasileiras que só eventos como o Degusta conseguem deixar tão evidente”, encerra.
Mas nem tudo funcionou bem para todos. Expositores que preferiram não se identificar relataram que o movimento foi aquém do esperado, principalmente na área do Festival Brasileiro da Cerveja. Mesmo no sábado, dia de maior público e do principal show do evento, com a banda Dazaranha, o setor estava com poucas pessoas até o final da tarde, disse um deles. Nesse dia os portões foram abertos às 11 horas. E atribuiu o baixo volume à divulgação feita “muito em cima da hora”. Mas espera que os problemas sejam resolvidos em uma próxima edição.
Degusta: um evento, muitas experiências

A reportagem esteve no local e pôde confirmar uma diferença expressiva de movimento entre as áreas do Festival e o Degusta nos quatro dias. A impressão é que faltaram atrativos capazes de atrair mais público para a área aberta, que ficou um pouco esvaziada diante do movimento no setor de experimentação livre.
Já o destaque positivo também recai sobre o Degusta Cervejas do Brasil, que representa uma ótima oportunidade de provar uma grande variedade de cervejas diferentes. Baseado no modelo do festival norte-americano Great American Beer Festival, contou com cerca de 200 expositores e 900 rótulos. A maior questão, no entanto, foi como filtrar e organizar o que se pretendia degustar. Um bom problema para ser resolvido. Foram tantas opções que é possível até dividir toda essa diversidade por diferentes circuitos internos com propostas diferentes. Ou seja, criar seu próprio evento dentro do evento.
Aqueles que saíram provando cervejas de maneira mais aleatória beberam mais Sours do que qualquer outro estilo. Houve um grande predomínio dos rótulos de acidez elevada, que estavam espalhados pela maioria dos estandes. Uma das melhores experiências para quem gosta do gênero foi fazer um circuito de cervejas ácidas de grande complexidade, que incluía nomes fortes dessa cena no Brasil, como Fermentaria Local (Jarinu – SP), Yarun Fermentados (Cássia dos Coqueiros – SP) e Cozalinda (Florianópolis – SC) — coincidentemente ou não, lado a lado no evento. Mas também merece menção especial o aniversário de dez anos da Catharina Sour. Criado em 2016 e considerado o primeiro estilo brasileiro de cervejas, que teve muitas versões disponíveis para degustação na área livre.

Em caso de cansaço das azedinhas, o público tinha diversas possibilidades à disposição. Entre elas, passar a noite provando apenas cervejas maltadas, desafio autoproposto pela equipe do Guia. Começamos com as Brown Ales das cervejarias Salvador (Caxias do Sul – RS) e Dasbier (Gaspar – SC) e terminamos com as mais intensas, como a Barley Wine da Indigo Brewing (Rio de Janeiro – RJ) ou Salted Caramel Peanut Cake, uma Pastry Stout com caramelo salgado da 5 Elementos (Fortaleza – CE).
Porém, um dos circuitos mais curiosos e saborosos talvez tenha sido o de bebidas sem álcool. Quem acha isso uma ironia – não alcoólicos num evento de bebidas alcoólicas – é porque não provou os excelentes chás gaseificados da Manifestea (Blumenau – SC) ou os cafés torrados pela Marek Cervejaria Artesanal (Charqueado – RS). Isso sem mencionar as cervejas sem álcool da Sim! Cerveja (Campinas – SP) e da Luci (São Paulo – SP), muitas delas premiadíssimas.
O evento foi de kombuchas até destilados diversos, mostrando que mais do que nunca o mercado está antenado às tendências internacionais, pensando a cerveja e para além dela.
Região Sul fica com 3 em cada 4 medalhas
Outro grande destaque foi a realização do 14º Concurso Brasileiro de Cervejas, que este ano contou com 2,7 mil rótulos inscritos em 175 categorias. As amostras foram avaliadas por cerca de 70 juízes entre sábado (28 de fevereiro) e terça-feira (3), quando foi divulgado o resultado. E um dos números marcantes do resultado da competição foi que os três estados do Sul juntos levaram para casa 77,95% das medalhas, o que equivale a mais de três em cada quatro premiações.
O maior vencedor foi o estado de Santa Catarina, que levou 154 medalhas ao todo, ou seja, 39,49% de todas as 390 medalhas da 14ª edição da competição. Em segundo lugar ficou o o Rio Grande do Sul, com 87 medalhas (22,31% do total), e o Paraná completou o pódio com 63 (16,15%).
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O desempenho é bastante superior, proporcionalmente, ao número de cervejarias de cada um desses estados. Santa Catarina, por exemplo, responde por 250 das 1.949 cervejarias do país, segundo números do Anuário da Cerveja 2025 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Ou seja, 12,8% do total, o que o coloca apenas como terceiro colocado em número de cervejarias no país. Rio Grande do Sul tem 349 fábricas (17,9%) e o Paraná 175 plantas fabris (9%). O Sul como um todo soma 774, o que equivale a 39,7% do total.
Além disso, as marcas de Santa Catarina ficaram com o primeiro e o segundo lugar no pódio de Melhores Cervejarias com as cervejarias Big Jack (Orleans), que faturou o ouro pelo segundo ano seguido, e Stannis (Jaraguá do Sul). A terceira colocação foi para a Brewine Leopoldina (Bento Gonçalves).
Para fechar o bom desempenho catarinense, o estado ainda ficou com prata entre as melhores cervejas da competição, com a cerveja Pina Colada – Catharina Sour com Abacaxi e Coco, da Faroeste Beer, de Itajaí (SC).
O primeiro lugar foi para o Paraná com a cerveja Patanegra Cacacu Wood, uma Sour em madeira brasileira da Cervejaria Patanegra, de Pinhais, e o terceiro para Alagoas, com a cerveja Alagoas Funky Wild, uma Manipuera da Caatinga Rocks, de Murici. Todas as melhores cervejas do concurso foram premiadas em estilos nacionais.



