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Cultura

Entrevista: “Mercado está mais atento, mas a inclusão plena em Libras caminha a passos lentos”

Élida Oliveira
Por Élida Oliveira
3 de dezembro de 2025
Atualizado em: 10 de dezembro de 2025
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    A imagem traz duas fotos do Marcos Roberto de Oliveira, idealizador do projeto Cerveja Artesanal em Libras: à esquerda, ele está de camiseta azul em uma mesa levantando uma taça de cerveja e olhando para ela; à direito, olha para a câmera segudando o emblema do concursos Brussels Beer Chalenge.
    Para Marcos Roberto de Oliveira, idealizador do projeto Cerveja Artesanal em Libras, mercado cervejeiro está mais atento à inclusão, mas "caminha a passos lentos" (Crédito: Arquivo Pessoal)

    O mundo das cervejas artesanais costuma atrair apaixonados pela degustação da bebida e pelos diferentes estilos. Mas o desconhecimento para lidar com a diversidade pode colocar uma barreira no público que está consumindo e produzindo bebidas – entre eles, o público Surdo. 

    A acessibilidade na Língua Brasileira de Sinais (Libras) ainda é uma barreira que vem sendo combatida por Marcos Roberto de Oliveira, idealizador do projeto Cerveja Artesanal em Libras, que conta com um canal de vídeos no YouTube e uma conta no Instagram para tornar a informação sobre os tipos de cervejas e os processos de fabricação mais acessíveis.

    Oliveira é pioneiro na iniciativa, e assumiu a missão de traduzir o complexo universo de maltes, lúpulos e técnicas de produção para Libras – às vezes até pesquisando em outros idiomas o vocabulário necessário para traduzir conceitos. 

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    Com mais de 20 anos de atuação profissional como tradutor e intérprete de Libras, há 13 Oliveira exerce essa função na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o que permitiu uma imersão diária na comunidade Surda, e contato com Surdos de diversas regiões do país. 

    (Este texto, inclusive, vai adotar a redação da palavra Surdo em maiúscula e em detrimento da expressão “deficiente auditivo”. A escolha é baseada em estudos acadêmicos que reforçam a experiência visual do indivíduo, em vez de uma condição de ausência de algo.)

    “É para esse ‘sujeito da experiência visual’ que produzimos conteúdos, e não para um ‘paciente’”, esclarece Oliveira em entrevista ao Guia da Cerveja. “O projeto Cerveja Artesanal em Libras é a materialização prática da tese ‘Surdos produzindo saberes complexos sobre cerveja’. No entanto, há um abismo perturbador entre a capacidade comprovada desses sujeitos e o reconhecimento público que recebem”, afirma.

    “A exclusão no universo cervejeiro vai muito além do balcão do bar; é uma sonegação de oportunidades profissionais”, diz Oliveira, devido à falta de acessibilidade nos cursos profissionalizantes. “A cerveja é universal, mas o acesso a ela precisa deixar de ser um privilégio ouvintista”, avalia.

    Em 2021, Oliveira concedeu entrevista ao Guia da Cerveja para falar sobre inclusão. Passados quatro anos, nesse Dia Internacional das Pessoas com Deficiência (3 de dezembro), voltamos a procurá-lo para saber se o setor tem avançado ou se ainda há muitos desafios pela frente.

    Para quem está conhecendo seu trabalho agora, como surgiu a ideia inicial do “Cerveja Artesanal em Libras”? Houve algum momento específico que te fez perceber que precisava criar esse conteúdo?

    A gênese do projeto ocorreu de forma despretensiosa, quando comecei a compartilhar nas redes sociais os processos das minhas brassagens, traduzindo técnicas para a Libras. 

    No entanto, o “momento de virada” foi por volta de 2020, quando um cervejeiro Surdo do Sul do país me procurou e contou uma trajetória que ilustra a cruel barreira invisível do nosso mercado. 

    Ele e dois sócios, também Surdos, já produziam em casa e queriam transformar o hobby em negócio. Ao buscarem um curso técnico dentro de uma cervejaria, depararam-se com a total ausência de acessibilidade: sem intérpretes ou material adaptado, a absorção do conteúdo foi inferior a 50%. O sonho do negócio morreu antes de nascer devido a essa barreira linguística. Ali compreendi que a exclusão no universo cervejeiro vai muito além do balcão do bar; é uma sonegação de oportunidades profissionais.

    Não estamos falando do ato de beber uma cerveja, mas sobre o direito de produzi-la, de entendê-la cientificamente e de gerar renda a partir dela. A partir daquele momento, decidi mergulhar no setor, não apenas como um entusiasta, mas como profissional e com a missão clara de identificar e “tentar” desmantelar essas barreiras. Se o mercado não estava preparado para dialogar com a comunidade Surda, era preciso criar as ferramentas para forçar esse diálogo, provando que a cerveja é universal, mas o acesso a ela precisa deixar de ser um privilégio ouvintista.

    Desde nossa última conversa em 2021, o que mudou na estrutura do Cerveja Artesanal em Libras? Você introduziu novos formatos e como tem sido a resposta da audiência?

    O período de 2023 a 2025 marcou nossa transição definitiva: deixamos de ser um canal apenas de conteúdo para nos tornarmos uma força ativa dentro do setor, ocupando o chão de fábrica. A parceria com a Cervejaria Captain Brew foi fundamental, estampando nossa marca em 7 rótulos colaborativos. Ativamos um ciclo virtuoso: o rótulo desperta a curiosidade, leva o consumidor ao canal e o confronta com a realidade da exclusão. O resultado é uma corrente do bem, onde o público deixa de ser apenas consumidor para se tornar aliado da causa. 

    Mas o ápice foi agora, na Bélgica, durante o Brussels Beer Challenge 2025. Ao dividirmos a mesa com a elite cervejeira mundial, expusemos a lacuna do setor e apresentamos a solução. Grandes personalidades internacionais atestaram a excelência dos sommeliers Surdos. Ficou demonstrado que a barreira nunca foi técnica: os Surdos possuem plena capacidade para liderar qualquer processo, da produção ao julgamento.

    Quem é o seu público no Canal? São pessoas Surdas que buscam saber mais da cerveja ou há ouvinte que usam o conteúdo para estudar Libras?

    Observamos uma heterogeneidade enriquecedora no público do Cerveja Artesanal em Libras. Atendemos tanto à comunidade Surda, ávida por letramento cervejeiro em sua primeira língua, quanto a um público ouvinte acadêmico, profissionais e apreciadores que utilizam nossos conteúdos como material de estudo da Língua Brasileira de Sinais. Um exemplo real é que hoje, na Alemanha, há uma grande profissional e influente do setor cervejeiro aprendendo a Língua Brasileira de Sinais, e isso é incrível. Transformamos o vocabulário técnico da cerveja em uma ponte educacional.

    No entanto, é crucial destacar que o sucesso do projeto não se mede por algoritmos. Sou guiado pelo pragmatismo e pela busca incessante por resultados tangíveis no mundo real. Quero sair do discurso da inclusão. O engajamento qualitativo e a profundidade das interações valem muito mais do que o alcance superficial. Sinceramente? Se eu encerrasse o projeto hoje, sentiria uma plenitude absoluta. O fato de ter transformado efetivamente a trajetória profissional e pessoal de dois Surdos — tirando-os da invisibilidade para o protagonismo — é um resultado que transcende qualquer estatística digital.

    O universo da cerveja é cheio de termos técnicos complexos. Como tem sido o processo de criar ou adaptar esses sinais para a Libras no seu trabalho?

    Lidamos com um vazio terminológico. A Libras não é universal e possui regras próprias. Em vez de inventarmos sinais do zero, recorremos ao empréstimo linguístico dos berços cervejeiros. 

    Por exemplo, para o termo Trapista, adotamos o sinal da Língua de Sinais Flamenga (VGT) da Bélgica. Para o estilo Pilsen, buscamos o sinal na Língua de Sinais Tcheca, o mesmo usado pelos Surdos da cidade de Plzeň. Termos de processos como fermentação e ingredientes são facilitados pela natureza visual da língua, mas exigem domínio técnico. Nosso grande objetivo atual é catalogar e validar tudo isso em um Glossário de Cerveja em Libras, projeto para o qual ainda buscamos patrocínio.

    Passados alguns anos desde que criou o projeto, você sente que o setor de cerveja artesanal está realmente mais inclusivo ou as ações ainda são pontuais?

    Sendo honesto: o mercado está mais atento, mas a inclusão plena ainda caminha a passos lentos. Ainda vemos muitas ações de marketing pontuais apenas para cumprir tabela em datas comemorativas, sem nenhuma mudança estrutural no dia a dia.

    Porém, o Cerveja Artesanal em Libras provou que é possível fazer diferente. Na Captain Brew, fizemos o Primeiro Encontro de Surdos Cervejeiros recebendo mais de 250 Surdos de todas as regiões do Brasil, do Norte ao Sul. Isso só foi possível pelo trabalho do Fernando e do Gabriel, do Surdommeliers, com nosso apoio e da Captain.

    Mas o segredo não foi apenas abrir as portas; foi preparar a casa com um treinamento intensivo — do pessoal da cozinha e recepção até o staff do pub. O resultado foi impactante. Os consumidores Surdos comentavam, emocionados, que parecia um sonho: pela primeira vez, podiam pedir sua comida e sua cerveja diretamente ao garçom, em sua própria língua, sem intermediários. Ali, mostramos que a verdadeira inclusão não é um evento isolado, mas a criação de um ambiente onde o Surdo se sente, finalmente, em casa.

    A inclusão, contudo, não se limita ao balcão. Ela avançou para a esfera do conhecimento técnico de alto nível. Quando um sommelier Surdo manifestou interesse em participar do prestigiado congresso Do Grão ao Gole, organizado pela AMBEV – Academia da Cerveja em São Paulo, entramos em contato com a coordenação que prontamente atendeu à solicitação e assim, todo o congresso foi tornado acessível em Libras.

    Esses dois exemplos — a inclusão no serviço (Captain Brew) e a inclusão no conhecimento (Academia da Cerveja) — demonstram que a barreira é atitudinal, não técnica. O compromisso ético transcende a mera obrigação legal.

    Você tem notado um aumento no número de pessoas Surdas trabalhando dentro das cervejarias?

    Temos notado um singelo movimento de aumento, mas em dois universos distintos. No setor industrial, grandes corporações como Heineken, Ambev e Grupo Petrópolis têm contratado colaboradores Surdos, muitas vezes impulsionadas pela Lei de Cotas. Embora seja um cumprimento legal, isso já tira esses profissionais do anonimato. No entanto, no setor artesanal, nas micro e nano cervejarias, a inclusão ainda é uma incógnita. Sem um mapeamento formal, deduzimos que a barreira de entrada nesse nicho permanece alta. É nessa área, onde o conhecimento técnico é mais valorizado, que precisamos intensificar a atuação.

    Para um consumidor Surdo, o que ainda é o maior obstáculo ao chegar em uma taproom ou bar especializado hoje?

    É uma conjunção perversa: atendimento despreparado, falta de cardápios visuais e preconceito. O pior obstáculo é o medo do atendente, que muitas vezes trava ou ignora o cliente Surdo.

    A solução exige mudar a mentalidade de gasto para investimento. Um cardápio digital acessível via QR Code e um treinamento básico não são luxo, são ferramentas de fidelização. O cliente Surdo que se sente respeitado, volta.

    Que recado prático você daria para um dono de cervejaria ou bar que quer começar a ser inclusivo hoje, mas não sabe por onde começar?

    Não complique. A inclusão começa na atitude. Primeiro, tenha um cardápio visual com fotos das cervejas, ícones de sabor (fruta, café chocolate) e indicação clara de preços e teor alcoólico. Segundo, treine o básico: ensine sua equipe a dizer “Bom dia” e “Cerveja” em Libras, pois o acolhimento gera pertencimento. Terceiro, use a tecnologia: um QR Code na mesa levando para um vídeo simples explicando o menu resolve 90% da comunicação. 

    A inclusão é um convite para um brinde onde ninguém fica de copo vazio.

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      Élida Oliveira
      Élida Oliveira
      Jornalista formada pela PUC-PR, escreve sobre economia, investimentos, educação, ciência e saúde. Tem passagens pelo Estadão, Folha de S.Paulo, g1, El País, UOL e InfoMoney. Sempre curiosa por aprender e informar.
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