
Olá, seguidores/as e leitores/as do Guia da Cerveja. Estou de volta ao balcão do Xirê Cervejeiro. E nosso diálogo versará mais uma vez sobre cerveja sem álcool.
Quem me acompanha por aqui sabe que venho falando assunto rotineiramente. Faz quase dois anos que, por questões médicas, aboli o álcool do meu repertório gastronômico.
A partir dessa nova relação com a cerveja — bebida por quem nutro mais que amor, uma verdadeira devoção —, passei a observar e a ouvir mais pessoas que também, por algum motivo, optaram pelas cervejas sem álcool. Seja por questões médicas como eu, por razões religiosas, familiares ou simplesmente por decisão pessoal.
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Na minha bolha, o número de jovens tem crescido absurdamente. Meu filho, um jovem recém-graduado em Direito que amava as festas universitárias e vivia em churrascos, almoços, aniversários e shows, foi a primeira pessoa em que notei a mudança. Cheguei em casa com alguns rótulos que ele gostava e, ao entregá-los, ouvi:
“Mãe, não estou tomando mais cervejas com álcool. Às vezes, quando saio com meus amigos e o lugar não tem cerveja sem álcool ou algum drink sem álcool, acabo bebendo água. Dependendo do evento, para não ficar deslocado, tomo uma cerveja alcoólica, mas, se houvesse a opção das sem álcool, teria aproveitado mais.”
Fiquei instigada com aquela declaração. Perguntei se os amigos também haviam parado de beber. Ele respondeu que sim, que muitos estão bebendo cada vez menos cervejas alcoólicas e ficam desapontados por não encontrar opções nos bares que frequentam.
Esse relato ecoa diversas conversas que tenho com amigas de diferentes idades, pessoas que também vêm optando, cada vez mais, pelas cervejas não alcoólicas.
Recentemente, a Revista Exame apontou que o Brasil se tornou, nos últimos cinco anos, o segundo maior consumidor de cervejas sem álcool do mundo, saltando de 140 milhões de litros em 2019 para 740 milhões em 2024, ficando atrás apenas da Alemanha. O Guia da Cerveja, em reportagem de agosto de 2025, também tratou do tema.
No Brasil, as cervejas sem álcool ainda se concentram mais no segmento “mainstream”, que são as cervejas de massa.
Apesar de existirem, encontrar cervejas artesanais sem álcool é quase como ganhar na loteria. Uma queixa recorrente entre pessoas apaixonadas por complexidade e sabor é a frustração de não encontrar diversidade de estilos não alcoólicos, algo tão presente nas artesanais alcoólicas.
Apesar do aumento sistêmico de apreciadores das não alcoólicas, o mercado ainda é tímido. Quando vamos aos bares, carregamos aquela sensação de depender da sorte: “Será que vamos encontrar algum rótulo não alcoólico, mesmo que mainstream?”
Há lugares em que levo minha própria cerveja, pois sei que não encontrarei opção sem álcool. Foi o que fiz recentemente em um encontro com amigos da época da graduação em Ciências Sociais: uma vez por mês ou a cada dois, nos reunimos para conversar, comer e beber. No último encontro, fomos a uma hamburgueria renomada. Todos pediram cerveja. Quando solicitei uma sem álcool, fui informada de que não havia. Ainda bem que tinha levado a minha e pude brindar com os amigos.
É muito comum não encontrarmos opções não alcoólicas, mesmo com o aumento de adeptos. Se antes a cerveja sem álcool era associada ao motorista da rodada, à gravidez ou lactância, ou a situações específicas, hoje observamos uma mudança mais profunda nos hábitos de consumo.
Dias atrás, fiz um post, estava feliz por ter encontrado um rótulo de Weiss sem álcool no supermercado próximo à minha casa. Dois seguidores comentaram sobre cervejarias brasileiras que já produzem artesanais não alcoólicas em diversos estilos.
A Sim! Cervejaria, que se apresenta como a primeira cervejaria sem álcool do Brasil, foi uma dessas indicações. Fiquei muito feliz em saber que ela existe e quero provar seus rótulos, mas ainda não estão disponíveis na região onde moro; não encontrei nos supermercados de Maringá.
A outra indicação foi a Luci, também especializada em cervejas sem álcool.
É sabido que produzir cerveja artesanal já é caro; produzir artesanal sem álcool é ainda mais, porque o processo é mais trabalhoso.
A legislação brasileira classifica como bebidas sem álcool aquelas com até 0,5% vol., conforme o Artigo 11 do Decreto-Lei 12.709/2025.
O que me motivou a escrever este texto não foi apenas o fato de estar inserida, há quase dois anos, no mundo das não alcoólicas, mas também por ouvir constantemente as queixas das pessoas sobre a dificuldade de encontrar opções sem álcool nos estabelecimentos.
Outro dia ouvi alguém dizer: “Como essas empresas deixam de ganhar dinheiro, né? Queríamos tanto tomar uma cerveja, mas não tem cerveja sem álcool. E quando tem, são sempre as mesmas.”
Termino por aqui, na expectativa de que, em breve, encontremos mais diversidade de cervejas sem álcool e estilos nos bares, nos supermercados e nos espaços de sociabilidade onde a cerveja se faz presente.
Cerveja é mais que uma bebida. É conexão, é encontro, é celebração — ainda mais quando vem num bom e elegante rótulo.
Sara Araujo é sommelière de cervejas e palestrante sobre relações raciais; consultora, formada em Direito (ITE de Bauru/2012) e em Ciências Sociais (UEM/2022), é também especialista em História da África e da Diáspora Atlântica (Instituto Pretos Novos/2025), além de mestranda em Ciências Sociais pela UEM.
* Este é um texto opinativo. As opiniões e informações contidas nele são de responsabilidade do colunista e não refletem necessariamente a opinião do Guia da Cerveja.


