Balcão Cervezas de America: É preciso uma classificação das artesanais?

Balcão Cervezas de America: É preciso classificar as artesanais?

É inegável que a indústria cervejeira está passando por um processo de mudança, onde as novas tendências não são mais marcadas por cervejas leves, limpas e refrescantes, mas por novos sabores e estilos que cativam novos consumidores e modificam padrões de consumo.

O Brasil fechou 2018 com 889 cervejarias (210 a mais do que em 2017), somando mais de 1.000 ao incluir as cervejarias ciganas (aquelas com marca, mas sem planta de produção própria). A Argentina possui um número similar de cervejarias, com uma penetração de mercado superior a 2,5% de cerveja artesanal (incluindo os números mais otimistas), somado a um movimento de cervejeiros artesanais muito forte e a muitos pontos de venda, uma moda que parece imparável.

Já o Chile alcança quase 2% de participação, com mais de 400 cervejarias e com um despertar de bares cervejeiros que prometem um aumento no consumo para alcançar um crescimento sustentável. Esse cenário de mudança é ainda mais intenso se incorporarmos o crescimento de cervejas importadas que participam da variedade e diversidade de sabores.

Nesse contexto de mudança, surge a necessidade de poder explicar essa nova tendência, que é popularmente chamada de cerveja “artesanal”, “craft” ou “cerveja de especialidade”.

Definir o que é artesanal vai muito além de identificar uma tendência. Tratam-se de novos e pequenos produtores, ou de alguns não tão novos ou tão pequenos? É sobre se diferenciar da cerveja industrial? É sobre maior igualdade na competição de mercado? Ou de favorecer pequenas e médias empresas?

Fazer uma classificação precisa das artesanais pode soar muito intuitivo para um cervejeiro, mas onde definimos o limite? Desenhar uma linha clara do que são e não são, inevitavelmente, deixará algumas pessoas incomodadas, porque sentem que são artesanais e seriam deixadas de fora.

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Na minha opinião, é importante ter uma definição clara e transparente, porque é um setor onde existem grandes potências econômicas, grandes empresas com grande poder comercial capazes de bloquear e controlar o mercado. Apesar do fato de que em muitos países existem instituições pró-competição, há muitas práticas anticompetitivas e concorrência desleal. É um mercado com grandes distribuidores, em que o negócio não é a elaboração, mas a distribuição de cerveja e outras bebidas e onde o varejo está concentrado em algumas cadeias que aproveitam seu poder de impor condições de pagamento e armazenamento, mesmo que isso danifique o produto que comercializam.

Por isso, é importante distinguir o que é e o que não é cerveja artesanal, porque a realidade comercial, produtiva e financeira enfrentada pelas empresas é diferente, e vai em detrimento dos pequenos produtores. É importante fazer uma classificação precisa porque queremos distinguir diferentes tipos de empresas nesta área, a fim de identificar suas características e começar a promover políticas, regulamentações e mudanças que permitam fortalecer as empresas que têm maior impacto sobre o consumo responsável, no emprego e no desenvolvimento de uma economia circular.

Sem dúvida, para poder defender uma definição, devemos considerar as diferentes realidades dos mercados. No entanto, deve-se sempre considerar o tamanho máximo de uma cervejaria, porque uma cerveja artesanal não pode dominar uma porcentagem muito alta do mercado, e de sua independência e interesse econômico, já que o negócio de uma cervejaria artesanal é a cerveja, não a distribuição; do sabor e qualidade, pois um cervejeiro artesanal trabalha para realçar e criar novos sabores e não tem uma filosofia de produção que visa reduzir custos, mas entregar maior valor.

Por fim, é necessário haver uma declaração de princípios e valores que devem governar a coexistência dos diferentes cervejeiros de cada país e região.


Daniel Trivelli é Diretor Executivo e Co-Fundador do Grupo Cervezas de América

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