Os mestres cervejeiros costumam dizer que a produção da cerveja começa na produção do malte na maltaria. Porém, o mais correto mesmo seria falar que o início é no campo. O cultivo de cevada para cerveja é uma etapa crucial que pode determinar muito da qualidade da bebida que vai para o seu copo. Por isso, cuidar dela é essencial.
A pesquisa e desenvolvimento de novas variedades é parte disso. No fim de outubro, a Ambev lançou uma nova variedade de cevada nacional: ABI Valente. O novo cultivar tem até 16% mais rendimento e resistência aumentada contra doenças no campo.
A Ambev homologou a novidade para suas maltarias recentemente. A apresentação do novo cultivar foi no Dia de Campo da Ambev, evento anual com parceiros agrícolas realizado no dia 28 de outubro em Muitos Capões (RS). A reportagem do Guia da Cerveja esteve lá para coferir, à convite da Ambev.
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Para a ABI Valente nascer, foi realizado um processo científico longo e caro. Foram 12 anos de pesquisas, unindo ciência, tecnologia e conhecimento agronômico. O custo de desenvolvimento chega a aproximadamente 2 milhões de dólares, segundo o vice-presidente de Suprimentos e Sustentabilidade na Ambev, Felipe Baruque.
Foram mais de 3 mil linhagens, que geram mais de 4 mil dados agronômicos avaliados em todos os anos de testes. Só as melhores avançam. Além disso, são conduzidas mais de 10 mil parcelas experimentais em diferentes regiões de cultivo. Ao final do ciclo, uma cultivar de elite possui mais de 250 dados de qualidade validados. E, ao longo do processo de pesquisa, são produzidas mais de 40 toneladas de sementes — quivalente a mais de 13 caminhões pequenos cheios.
“A busca por mais produtividade e qualidade na agricultura passa, fundamentalmente, pela genética. Na cultura da cevada cervejeira, a ciência por trás da semente define não apenas o sucesso da lavoura, mas também a excelência da matéria-prima para a indústria”, afirma Adriana Favaretto, Gerente Regional (SAZ) de Pesquisa e Desenvolvimento.
Cevada para cerveja e para o agricultor

A cevada é uma gramínea que produz um cereal que foi, ao longo dos séculos, selecionado como o melhor para produção da cerveja. Isso por conta de suas propriedades únicas, como quantidade de amido, proteínas, proporção de cascas e outras. É uma planta de países frios, de climas temperados, com plantio no inverno.
No Brasil, pesquisadores adaptaram cultivares para as condições climáticas e de solo nacionais ao longo do tempo. Mas o rendimento ainda é inferior a de países que lidam tradicionalmente com essa cultura. Na Rússia, maior produtor mundial, a média nacional chega a 4,79 toneladas por hectare (t/ha), com algumas regiões atingindo a até 7 t/ha. Enquanto em nosso país a média foi de aproximadamente 3,5 t/ha em 2024, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Daí a importância do aumento da produtividade com a ABI Valente. Além disso, como explicou Felipe Baruque ao Guia da Cerveja, a inovação tem que ser boa para a Ambev, mas também para o agricultor, que precisa ter interesse em plantar. A cevada compete com o trigo como cultura de inverno no campo.
Outro item importe é a resistência a doenças, como a Giberela, também conhecida como Fusariose. Trata-se de uma doença provocada pelo fungo “fusarium graminearum”, que além de comprometer o rendimento produz microtoxinas. E elas causam problemas de malteação, podem gerar defeitos na cerveja e prejudicar a saúde humana e de animais.
Hoje a Ambev é a quarta maior empresa do agronegócio brasileiro, segundo ranking da revista Forbes. O programa de cultivo da companhia dá as sementes e auxilia os agricultores, do preparo do solo à colheita. No final, compra a produção quando as análises de qualidade aprovam os grãos nos critérios de uma boa cevada para cerveja.
Autossuficiência

O Brasil produz hoje mais de 15 bilhões de litros de cerveja por ano, segundo o Anuário da Cerveja 2025 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). No entanto, o país não produz nem malte e nem lúpulo suficiente para isso, resultando num saldo deficitário que precisa ser compensado com importações. E isso faz do custo da cerveja algo muito suscetível a variações cambias e do mercado externo.
Dados apresentados por Jeferson Caus, superintendente de Negócios da Cooperativa Agrária Agroindustrial, durante o painel “A Indústria da cerveja no Brasil: investimentos, tecnologias e o futuro pelo campo”, no Congresso “Do Grão ao Gole”, em setembro, dão a dimensão da necessidade.
Para dar conta da produção anual de cerveja, o Brasil precisaria de aproximadamente 2 milhões de toneladas de malte, mas só produz cerca de 1 milhão. De cevada, o país importou em 2024 aproximadamente 920 mil toneladas, o que corresponde a 77% da nossa necessidade. Ou seja, a produção nacional hoje é somente 23% do necessário.
No entanto, a produção de cevada brasileira vem crescendo. E deve bater recorde esse ano, chegando a 516,5 mil toneladas, segundo dados da Conab.
Somente a Ambev demanda 1,3 milhão de toneladas de malte por ano. As maltarias da companhia na América do Sul produzem cerca de 1 milhão. Outras 300 mil toneladas são compradas da Agrária.
Sustentabilidade

A cultura da cevada também precisa ser boa para o planeta. A companhia vem se empenhando nesse sentido. O objetivo é zerar as emissões de carbono na cadeia produtiva até 2040. Em 2021, a maltaria Passo Fundo, na cidade homônima no Rio Grade do Sul, se tornou a primeira do mundo considerada carbono neutro.
Cerca de 89% dessas emissões estão no campo e 65% especificamente no cultivo da cevada para cerveja. A etapa mais crítica é a fertilização do solo, já que os compostos usados podem emitir óxido nitroso (N₂O), um potente gás do efeito estufa (250 a 300 vezes mais poluente que o dióxido de carbono).
Para isso, além de variedades mais aptas aos desafios nacionais, o programa da Ambev para os agricultores conta com um time de agrônomos que indica melhores e mais sustentáveis as práticas de cultivo. O plantio direto, com mínimo revolvimento do solo, utilizando a cobertura de palha da safra anterior, é uma dessas iniciativas.


