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O caminho e os desafios para brasileiros estudarem ciência cervejeira na prestigiada KU Leuven

Ser aprovado na pós-graduação na área de cervejaria em uma das mais prestigiadas universidades europeias não é tarefa fácil para a maioria dos brasileiros. A barreira do idioma e o custo financeiro costumam ser um sarrafo alto para quem quer se especializar, mas a experiência de um mestre cervejeiro artesanal que está trilhando este caminho mostra como é possível colocar o sonho em prática. Ao falar de uma das universidades mais prestigiadas da Europa, estamos nos referindo à Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), considerada a instituição mais inovadora de ensino europeu. E ela fica nada mais nada menos que na Bélgica, o país em que a cultura cervejeira ostenta o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco.

Para o mestre cervejeiro Marcelo Crosta, essa imersão na herança belga aliada à ciência de ponta já é uma realidade diária. Com mais de quinze anos de dedicação ao setor, a sua trajetória teve início de forma bem tradicional, como um entusiasta que produzia cerveja em casa e frequentava as mesas do icônico bar FrangÓ, em São Paulo, reconhecido pelas cervejas artesanais. A partir das panelas caseiras, Crosta se tornou aprendiz, fundou a Cervejaria Landel junto com dois sócios e, antes de se mudar para a Bélgica, exercia o cargo de gerente industrial e responsável técnico na cervejaria paulistana Tarantino.

Transição profissional aos bancos acadêmicos

A chegada à KU Leuven ocorreu em setembro de 2025 para ingressar em um programa de dois semestres, que se estende até junho. A transição da intensa rotina profissional nas fábricas de volta para os bancos acadêmicos representou uma mudança gigantesca, explica Crosta, em entrevista ao Guia da Cerveja

Ele conta que o ritmo é bastante intenso e demanda um elevado nível de disciplina para dar conta do volume de aulas, trabalhos e avaliações. A carga horária é grande, correspondendo a cerca de 1.350 horas de estudo, mas o maior desafio, para Crosta, está na quantidade de estudo autônomo exigido fora do ambiente da sala de aula. Segundo ele, não dá para tratar o curso como uma atividade secundária, já que ele exige dedicação em tempo integral.

Formação focada em pensamento científico

Mas, vale a pena todo esse esforço? Para Crosta, sim. O esforço se paga nas descobertas vivenciadas ao longo da formação. “O curso não foca em receitas prontas, mas no pensamento científico. Ele nos ensina a metodologia para desenvolver processos, novos insumos e tecnologias”, diz.

E, para quem gosta, isso é quase a descrição do paraíso. Crosta relata viver “momentos de epifania” quase todas as semanas, ao desvendar as vias bioquímicas que regulam os sabores, os princípios científicos por trás da maquinaria moderna e os detalhes dos testes sensoriais. 

O ambiente acadêmico também é enriquecido por uma turma que ele descreve como um “caldeirão multidisciplinar”, reunindo desde cervejeiros profissionais a engenheiros mecânicos, químicos e cientistas agrônomos, refletindo perfeitamente a complexidade de uma operação cervejeira de larga escala.

Visitas técnicas em cervejarias históricas

Marcelo Crosta, brasileiro que está fazendo pós-graduação na KU Leuven, durante visita prática na Bélgica. (Foto: Arquivo Pessoal)

O rigor científico ganha ainda mais peso quando aliado ao acesso a locais emblemáticos da indústria. Longe de serem passeios turísticos, as visitas técnicas permitem aos alunos imersões educacionais profundas em cervejarias históricas. “Entrar na Boon, na Brasserie Dupont, na Stella Artois ou na Boortmalt com um olhar técnico, sendo recebido por lendas como o Frank Boon, é indescritível”, afirma. “Você alterna entre o foco total na ciência e a empolgação de quem sabe que está pisando no ‘solo sagrado’ da história cervejeira”, fala.

Quer estudar na KU Leuven? Foque em planejamento

Para os que desejam seguir o mesmo caminho, o planejamento rigoroso é a palavra de ordem. O brasileiro conta que começou as conversas com a secretaria da universidade em novembro de 2024 e enviou a sua candidatura oficial em fevereiro de 2025, num processo de preparação que durou cerca de dez meses até o embarque. 

O primeiro obstáculo inegociável é o idioma, sendo fundamental a aprovação em testes de proficiência, já que a profundidade das discussões e a complexidade do vocabulário técnico exigem um inglês “muito confortável”.

Financeiramente, além do custo de vida mensal na cidade de Leuven, que varia entre 800 e 1.000 euros segundo Crosta, o governo belga exige a criação de uma “Conta Bloqueada” com o total de recursos necessários para a estadia na Bélgica. Este mecanismo obriga o estudante a depositar uma quantia significativa de dinheiro de forma antecipada para comprovar as suas condições de subsistência. O valor é devolvido em parcelas mensais, mas requer uma elevada liquidez financeira inicial por parte do candidato. 

Para o ano letivo de 2026/2027 foram fixadas taxas de 6.950 euros, que incluem o transporte entre as diferentes unidades da KU Leuven, todas as visitas externas e todos os materiais necessários para as aulas práticas e os momentos de produção de cerveja. Convertendo para o real (considerando uma cotação de R$ 6), o valor daria quase R$ 42 mil.

Já a burocracia para o processo de emissão do visto junto à embaixada também exige bastante antecedência, paciência com os trâmites demorados e organização com os custos administrativos envolvidos.

Brasileiro Marcelo Crosta (com a garrafa) em visita a cervejarias belgas como parte da pós-graduação da KU Leuven. (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar dos custos e da burocracia, a vida de estudante em Leuven oferece compensações atrativas para equilibrar o orçamento, como o uso de bicicletas alugadas por valores muito baixos, ônibus locais amplamente subsidiados e cervejas belgas de classe mundial a preços estudantis nos chamados Bares das Faculdades, conta Crosta.

Com o diploma se aproximando, Crosta já delineia os seus próximos passos e deixa portas abertas, ressaltando que as possibilidades profissionais que o curso oferece são gigantescas no exterior. 

Ainda assim, o seu grande objetivo é retornar ao Brasil para aplicar essa precisão científica no desenvolvimento de produtos, continuando o trabalho de sempre, mas munido de uma base técnica muito mais forte e capaz de solucionar os complexos desafios de produção do nosso mercado. “Aplicar isso na realidade brasileira é totalmente viável e empolgante, justamente porque agora tenho a base científica para resolver desafios complexos de produção.”

Élida Oliveira
Élida Oliveira
Jornalista formada pela PUC-PR, escreve sobre economia, investimentos, educação, ciência e saúde. Tem passagens pelo Estadão, Folha de S.Paulo, g1, El País, UOL e InfoMoney. Sempre curiosa por aprender e informar.
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