Novas políticas públicas podem trazer efeitos ruins para cevada
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Novas políticas públicas podem trazer efeitos nocivos para cevada nacional

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Segundo especialistas consultados pelo Guia, medidas sinalizadas pela ministra Tereza Cristina podem piorar condições da cevada brasileira

A previsão de dificuldades para a produção de cevada no Brasil em razão das mudanças climáticas se insere em um cenário de adoção de políticas públicas que parece seguir no rumo oposto ao das preocupações com os efeitos do aquecimento global. E isso pode afetar diretamente a produção agrícola nacional.

Iniciando o sexto mês à frente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina já liderou ações questionáveis na pasta do governo de Jair Bolsonaro. Em maio, por exemplo, o Brasil chegou aos 197 agrotóxicos liberados em 2019, em um ritmo de aprovação nunca antes visto no país.

Embora o uso de agrotóxicos seja visto como um “mal necessário” para melhorar mais rapidamente a produção agrícola brasileira em um espaço curto de tempo, a situação preocupa especialistas, que apontam efeitos danosos no médio prazo, ainda que o impacto inicial possa ser de aumento da safra, como destaca Rene Eugenio Seifert Junior, professor do Programa de Mestrado em Administração (PPGA) e do Departamento de Gestão e Economia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

“A política agrícola do novo governo eliminará limites outrora estabelecidos (como por exemplo para o avanço das fronteiras agrícolas sobre áreas indígenas e quilombolas), o maior uso de agrotóxicos favorecendo o aumento da produção de grãos em grande escala, com enormes prejuízos à natureza. Ainda que existam justificativa técnicas para esse tipo de ação, as consequências no médio prazo serão gravíssimas”, diz o professor, em entrevista ao Guia.

Acordo de Paris
Um freio para o aquecimento global e seus efeitos na produção agrícola poderia ser o cumprimento das metas firmadas no Acordo de Paris, do qual o Brasil era signatário. Mas há dúvidas sobre os esforços do governo Bolsonaro para cumpri-las, ainda mais pelas críticas feitas pelo próprio presidente e por figuras de relevo da sua gestão, o que coloca em risco a biodiversidade nacional.

“O Brasil é signatário do Acordo de Paris, que pretende limitar o aumento da temperatura global ao máximo de 2°C em relação a níveis pré-industriais. Para se conseguir isso, uma das medidas estabelecidas para o país é zerar o desmatamento ilegal até 2030 e aumentar a participação de bioenergia em sua matriz energética, entre outras. No entanto, o país investe pouco para implementar essas metas”, avalia Marina Lacôrte, engenheira agrônoma e especialista do Greenpeace em Agricultura e Alimentação.

“O que temos visto na prática é um verdadeiro sucateamento dos órgãos ambientais brasileiros. Além disso, há uma série de projetos de lei no Congresso Nacional que colocam o Brasil na contramão do cumprimento deste acordo e da preservação do meio ambiente. A flexibilização do licenciamento ambiental, a diminuição de áreas protegidas na Amazônia e o ‘Pacote do Veneno’ são alguns exemplos dos retrocessos que podem causar impactos diretos e indiretos nas mudanças climáticas”, acrescenta Marina.

Perda de espaço
Para a especialista do Greenpeace, nenhuma ação que vem sendo adotada por Tereza Cristina à frente do Ministério da Agricultura chega a ser surpresa, pois o atual posicionamento já era visto na legislatura anterior, quando ela era deputada federal. Marina afirma que isso traz riscos à população e ao meio-ambiente, além de ameaçar o setor agrícola, que pode até mesmo perder espaço em mercados mais exigentes.

“Em seu mandato como deputada federal, a ministra foi uma das maiores defensoras do Projeto de Lei nº 6.299/2012, conhecido como ‘Pacote do Veneno’, que pretende afrouxar o uso e a liberação de agrotóxicos no país, colocando ainda mais veneno na comida e bebida dos brasileiros. Tereza Cristina presidiu a comissão que analisava a matéria e que aprovou o projeto, ignorando as inúmeras manifestações contrárias da sociedade e de órgãos como Inca, Fiocruz, Ibama e ONU”, diz Marina.

Sobre o risco de perda de mercado, a especialista lembra que alguns países adotam critérios de preservação ambiental que podem até impedir a exportação pelo Brasil caso eles não sejam cumpridos. “Combater o desmatamento na Amazônia, por exemplo, é fundamental para as relações comerciais do país, afinal ninguém quer adquirir produtos manchados pela destruição florestal ou por violações de direitos”, comenta.

Tornando o cenário ainda mais nebuloso, o Brasil tem hoje um negacionista do aquecimento global como ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Não coincidentemente, no último mês, o país cancelou um evento da ONU em Salvador que discutiria temas relacionados ao aquecimento global em agosto, em preparação para a Conferência do Clima (COP-25), que ocorrerá no Chile em dezembro.

Assim, como demonstra a própria dificuldade enfrentada pela cevada no cenário nacional, parece ser preciso apostar em um modelo agrícola mais sustentável, que não agrida tanto o meio-ambiente, para que o Brasil possa se consolidar em um cenário de segurança alimentar e com produção agrícola de qualidade e na quantidade necessária.

“O modelo agrícola atual degrada o solo, contamina os recursos hídricos, destrói a biodiversidade (causando, por exemplo, a morte de polinizadores fundamentais para a produção de alimentos), além de contribuir enormemente para as emissões de gases de efeito estufa. Essa forma de produzir acabará inviabilizando a própria produção”, conclui a especialista do Greenpeace.


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