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CPL do Lúpulo mira produção nacional mais autossustentável

Apesar de o Brasil ocupar o terceiro lugar no ranking mundial de consumo e produção de cerveja, menos de 1% do lúpulo utilizado no país é cultivado em solo nacional. Mas um grupo de cervejeiros, empresários e pesquisadores está determinado a mudar esse cenário. Nessa sexta (1º de agosto) e sábado (2), eles se reuniram em Araraquara, na região central do estado de São Paulo, para a 3ª Festa da Colheita do Lúpulo. E o evento teve um motivo especial para comemorar este ano: o lançamento oficial da Cadeia Produtiva Local do Lúpulo (CPL do Lúpulo), projeto aprovado pelo programa SP Produz 2025, do Governo do Estado de São Paulo, que oferece apoio estratégico ao fortalecimento de cadeias produtivas locais.

Além de uma programação cheia de palestras com mestres cervejeiros, agrônomos e produtores, o evento também celebrou a inauguração de uma Unidade de Beneficiamento, com maquinário que será compartilhado por dezenas de produtores da região.

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À frente dessa potente iniciativa está a empreendedora e publicitária Luciana Andreia Pereira, da Lúpulo Guarani. Em entrevista ao Guia da Cerveja, ela explica como o projeto pode representar uma virada de chave na produção de lúpulo paulista e abrir novas perspectivas para o setor no Brasil.

Lançamento da CPL do Lúpulo (Cadeia Produtiva Local do Lúpulo): Luciana Andreia Pereira, da Lúpulo Guarani (esquerda) e o prefeito de Araraquara, Doutor Lapena (PL-SP), cortam a faixa inaugural da Unidade de Beneficiamento de lúpulo
Lançamento da CPL do Lúpulo (Cadeia Produtiva Local do Lúpulo): Luciana Andreia Pereira, da Lúpulo Guarani (esquerda) e o prefeito de Araraquara, Doutor Lapena (PL-SP), cortam a faixa inaugural da Unidade de Beneficiamento de lúpulo (Crédito: Divulgação / Lúpulo Guarani)

Qual é a importância da aprovação da CPL do Lúpulo para produtores de São Paulo? 

A CPL é um programa que trabalha em cinco frentes: institucional, produção, insumos, indústria e comercialização. É um ecossistema integrado. Atualmente somos um grupo grande, cerca de 50 CNPJs, que abriga instituições ligadas a produção e cultivo de lúpulo num raio de 100 quilômetros aqui de Araraquara. O objetivo da CPL é justamente criar elos institucionais, de produção, de insumo, de indústria, de comercialização, para a gente fortalecer essa cadeia produtiva, para que ela seja autossustentável. 

Qual foi o maior desafio no processo de elaboração do projeto e inscrição no edital da CPL?

Achamos que não conseguiríamos a aprovação porque o lúpulo ainda é muito incipiente, tem somente 1% de mercado [no Brasil]. Em contrapartida, o mercado das mudas, das pesquisas, do agro, ele também é muito forte. O Brasil é o terceiro maior país em consumo e produção de cerveja, então, existe muito potencial de crescimento. E isso ajudou muito.  

Qual foi o seu papel na construção da CPL do Lúpulo?

Meu movimento foi o de comunicação, de trazer pessoas engajadas, que “arregaçam as mangas”. Porque temos pessoas brilhantes nesta área. Todo mundo sabe do potencial cervejeiro brasileiro, com uma produção de lúpulo de 1%. E contamos com muita gente neste movimento: Sebrae, Governo do Estado de São Paulo, Unesp (Universidade Estadual Paulista), os secretários Guilherme Piai (de Agricultura e Abastecimento) e Jorge Lima (Desenvolvimento Econômico) e prefeitura de Araraquara. A gestão da CPL é da Aprojape (Associação dos Produtores Rurais do Vale do Rio Jacaré Pepira), o sindicato rural de Araraquara. Enfim, muita gente que apoiou e acreditou no projeto. Então, o que fiz foi ajudar a direcionar, colocar esse pessoal de forma estratégica. Mas não fui eu que montei essa estrutura da CPL, quem montou foi o Governo do Estado, de forma brilhante.

Como você avalia a produção do Lúpulo no Brasil atualmente?

Lançamento da CPL do Lúpulo ocorreu durante a 3ª Festa da Colheita de Lúpulo em Araraquara (Crédito: Luciana Andreia Pereira / Divulgação / Lúpulo Guarani)
Lançamento da CPL do Lúpulo ocorreu durante a 3ª Festa da Colheita de Lúpulo em Araraquara (Crédito: Luciana Andreia Pereira / Divulgação / Lúpulo Guarani)

A gente entende que hoje o cultivo já se estabeleceu, que é uma planta que pegou por aqui. Antes, entendia-se que era de clima temperado. “Ah, mas não vai crescer aqui”, diziam. Cresceu. De que maneira? Através da suplementação luminosa. “Ah, mas não vai dar produtividade”. Temos três colheitas por ano. “Ah, mas não vai entregar qualidade”, que é a teor de alfa-ácidos e óleos essenciais. Com a terra que a gente tem aqui, começamos a superar a qualidade em termos de alfa-ácido. A questão fitossanitária também é bem importante. Mas temos conosco o professor Éder Antônio de Piotti, que é um fitopatologista, que criou mudas 100% saudáveis há 20 anos e que montou um projeto de ecossistema integrado para a nossa cadeia produtiva. Então, isso também foi resolvido.

E o que falta para a produção vingar?

Os principais gargalos são o beneficiamento, comercialização, industrialização e divulgação, que é essa parceria com as cervejarias. Acho que com a criação da CPL do lúpulo conseguimos mapear todos esses desafios e agora é criar mecanismos para fazer essa cadeia acontecer de forma sustentável. 

Quando comecei neste ramo, entendi que o lúpulo cresceu nos Estados Unidos porque o governo fez essa intermediação. Porque a gente precisa de um background firme. Eu, por exemplo, perdi toda a minha primeira colheita de lúpulo em 2022 porque não tive um bom beneficiamento, não tive uma orientação de como conduzir.

O objetivo da CPL é aumentar o número de plantios, criar uma governança, dar suporte, trazer pesquisa para as cervejarias encontrarem um lúpulo de qualidade, fresco, com “terroir” genuíno. E para que a gente possa depois fazer a comercialização de uma forma vantajosa para todos os envolvidos. 

Qual o objetivo de eventos como a Festa da Colheita?

A gente recebe no evento as associações de cervejeiros e especialistas justamente para que esse diálogo entre todos os elos da cadeia se torne um hábito — as cervejarias artesanais, a indústria química, o comercial, o agro. É um momento para todo mundo trazer suas dores, para poder dialogar juntos, para que essas engrenagens que começamos a rodar com a CPL do Lúpulo sigam girando. 

De que forma a unidade de beneficiamento vai ajudar os produtores da região?

Unidade de beneficiamento vai processar o lúpulo colhido em flor, que será transformado em pellets (Crédito: Luciana Andreia Pereira / Divulgação / Lúpulo Guarani)

Essa unidade vai atender produtores num perímetro de 100 quilômetros aqui da região, tanto os lúpulos já produzidos quanto os que ainda serão plantados aqui. A gente vai criar um valor mais baixo para custear o operacional e dar uma grande competitividade para todos. E nós também vamos ajudar a construir uma nova CPL nas regiões do município de Fartura e no Vale do Ribeira. Tudo que tive de experiência nesse edital, vou passar para eles, porque é muito importante que os produtores não tenham mais problemas com o beneficiamento do lúpulo. Para que a gente consiga atender as cervejarias artesanais e, quem sabe, num futuro, até as grandes cervejarias.

Como você percebe a aceitação das cervejarias para o lúpulo nacional?

As cervejarias artesanais estão com grandes expectativas, porque essa produção nossa vai diminuir a necessidade deles pelo insumo importado, além de ser um lúpulo recém colhido, fresco. Teremos o nosso próprio “terroir”. Mas precisamos ainda criar uma divulgação muito efetiva para não haver dúvida de que o insumo esteja sendo produzido com uma base científica muito forte para entregar a eles um lúpulo no nível do importado, se não for melhor.

Debora Pivotto
Debora Pivotto
Formada na Cásper Líbero, foi repórter do Guia do Estadão, produtora na TV Globo SP, além de ter colaborado com veículos como Veja São Paulo, Superinteressante, Capricho, entre outras revistas. Apaixonada por autoconhecimento e comunicação, também atua como psicoterapeuta.
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