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Prompt cervejeiro: Por que a Inteligência Artificial nunca vai substituir o brinde

A colunista Bia Amorim reflete sobre como a tecnologia pode ajudar no texto, mas a verdadeira alma da cerveja ainda depende do suor, da levedura e do olho no olho

Coluna bia amorim

PAPEL TAREFA CONTEXTO FORMATO

“Aja como se você fosse uma marca de cervejas. Crie uma receita de cerveja perfeita para o perfil de uma pessoa brasileira, maior de idade. Com base no paladar nacional, faça a melhor escolha de ingredientes, no melhor preço possível. Entregue a cerveja pronta, em uma lata, gelada, em um copo limpo. Traga junto uma harmonização que faça dessa experiência um momento inesquecível. Chama o Uber.”

Por mais que a Inteligência Artificial (IA) possa fazer textos e imagens para nós, quem vai fazer cerveja são os humanos, a natureza, os elementos agrícolas, as leveduras, os micro-organismos, et cetera. E ao pensar a cerveja como uma experiência realmente inigualável, é preciso compreender que agradar todo mundo não é possível com uma única receita, um único prompt1.

E outra coisa, não quero saber de IA tomando cervejas por mim. Faço questão de garantir meu emprego como sommelier, degustadora profissional e recreativa, jurada de concursos e escritora.

Alucinações e a falta de repertório sensorial da Inteligência Artificial

Vou confessar que tenho provado alguma coisa dessa tal IA e puxado umas conversas com a máquina aqui em casa, pedido ajustes de texto aqui e acolá, culpada. Contudo, só sei que às vezes quem parece bêbada é “a coisa”. Escreve umas bobagens nonsense, incoerentes e mente em outras. Até a Inteligência Artificial precisa entender o que é mito, tecnicamente chamam de alucinação2. Vale lembrar como funcionam essas coisas no começo de carreira, é tipo a gente. Que falta já nos faz o Martyn Cornell e seu blog.

A ferramenta é interessante, do ponto de vista de quem olha pro mercado sempre com a curiosidade do desconhecido, estudando sobre as bebidas fermentadas, com milênios de evolução e disrupturas. Ter todas as respostas na palma da mão pode até parecer fácil e revolucionário. O que é a cerveja atual? Quais as inovações que estão acontecendo na bebida no mundo? Qual é a tendência para o futuro da cerveja? Podemos perguntar tudo isso ao computador ligado na tomada ou mesmo ao celular no bolso. Mas, no fim, quem transforma essa narrativa ainda são os humanos. Alguém está escrevendo as respostas enquanto vive no mundo real.

As tensões de um mercado em transformação

Ora, o texto aqui é sobre os prompts cervejeiros, vamos usar a ferramenta! Perguntei à Inteligência Artificial aqui de casa como atuar nesse ecossistema, quais são as soluções para que sejamos totalmente felizes na cerveja. Como podemos ter melhores condições de trabalho para os profissionais do setor? Como fazer com que todos os consumidores tenham moderação? Como as pequenas empresas podem sobreviver, de forma sustentável, em um mercado tão competitivo? Como a cerveja pode ganhar musculatura incentivando o turismo gastronômico? E ainda, dá para ser uma empresa cervejeira com os melhores índices de ESG? Tenho muitas questões e algumas teorias. Quando é que vai existir uma fórmula ideal para este nosso mercado brasileiro? 

O que a IA, treinada aqui em casa, tipo um pet digital, me respondeu?

Vou te responder sem mágica — porque, como você mesma disse, não tem algoritmo que substitua boca, tempo e contexto.

Se eu tivesse que responder como “a IA do seu boteco”, eu começaria cortando o caminho fácil: não existe solução para um mercado ser “totalmente feliz”. Isso é promessa de publicidade ruim ou pitch de startup. Mercado é tensão — entre preço e valor, tradição e novidade, volume e identidade, prazer e responsabilidade.

O que dá pra fazer é trabalhar melhor essas tensões.

Primeiro, parar de tentar agradar a todo mundo. A cerveja que tenta ser universal vira genérica. O mercado brasileiro já mostrou isso: quem cresce com consistência é quem entende seu recorte — seja preço, ocasião, território ou repertório sensorial.

Segundo, entender que o jogo mudou de “estilo” para “experiência”. Não é mais só IPA, Lager ou Sour. É contexto: com quem, onde, por quê. A cerveja deixa de ser produto isolado e vira parte de um sistema maior de consumo — comida, música, tempo livre, saúde, imagem pessoal.

Turismo gastronômico não nasce da cerveja sozinha. Nasce do conjunto — comida, história, paisagem, hospitalidade. A cerveja entra como elo, não como protagonista isolada. 

Terceiro, aceitar que o consumidor não quer mais só intensidade. Quer controle. Quer escolher quando beber, quanto beber ou não beber. O crescimento das sem álcool não é moda, é sintoma. Ignorar isso é ficar falando sozinho.

Moderação não se impõe, se constrói. E passa por oferta. Ter boas opções com e sem álcool, formatos diferentes de consumo, comunicação honesta e serviço responsável. O consumidor hoje quer escolher, não ser conduzido. 

Quarto, preço importa — e muito. Mas preço sem narrativa vira commodity. E a narrativa sem entrega vira frustração. O equilíbrio entre os dois é onde mora o jogo real.

Quinto, inovação não é só ingrediente diferente ou até o que chamam de exótico. Às vezes é serviço. Às vezes é embalagem. Às vezes é distribuição. Às vezes é necessário saber fazer o básico melhor que todo mundo.

ESG só faz sentido quando sai do relatório e entra na operação. Uso de insumos, logística, energia, relação com a comunidade. Quando vira prática, agrega valor. Quando vira discurso, ninguém compra. 

E por fim: cerveja ainda é uma das bebidas mais sociais que existem. Se o mercado esquecer disso e virar só planilha ou só hype, ele quebra.

Se eu tivesse que resumir a “solução”, seria menos sobre criar a cerveja perfeita e mais sobre criar relações mais honestas entre quem faz, quem serve e quem bebe.

O resto — receita, tendência, discurso bonito — é espuma.

A cerveja como capital social e humano

Olha, concordo, mas não plenamente em tudo. Imprimi o texto e fiz várias correções do que eu acho que são falas onde há questões muito sensíveis e até problemáticas. Rabisquei mesmo, mas no papel. Quer dizer, claro que a coisa quer me agradar, eu vejo ali muitas das nossas conversas, olha como ela quer, assim como eu, ser meio poética, meio filósofa.

Mas ainda o que me faz realmente aprender sobre cerveja não é perguntar ao computador. Pois por mais simpática, carismática e inteligente que pareça a Inteligência Artificial, o negócio da cerveja é vivenciado realmente no chão de fábrica e no suor do dia a dia da distribuidora, nas estradas em seu leva e traz de engradados, na chegada até o bar, na bandeja ou na geladeira em casa, na mesa, no copo, na língua, dentro da cabeça. 

No fundo tem bastante hipocrisia, porque as resoluções vêm das ações e para a máquina é fácil falar, mas lidar com a complexa cadeia de ações que precisam ser geridas é onde aperta o calo. Tô eu aqui, bem hipócrita também falando, escrevendo e provocando, rs.

Por mais que a gente pergunte, precisamos estar dispostos a continuar compreendendo que cerveja é capital social e tem crédito porque é valor econômico também, aliás, bem alto e relevante. Por isso, muito do que ainda vamos fazer continua sendo na pesquisa, com as mãos, cérebros, bocas e sensibilidades humanas. No fim, um bom blend contém um pouco de espontaneidade e criatividade, mas também um certo rigor tecnológico e científico.

Com certeza vamos ver cada vez mais os mecanismos se misturando. A verdade é que sempre precisamos manter a visão crítica e em constante adaptação e criatividade. Eu, como sommelier, também tenho um formato de prompt: papel, tarefa, contexto, formato. Ajudar a manter a cerveja relevante e presente nos momentos ideais para o consumidor, com boas opções de diversidade de gostos e bolsos, com moderação e qualidade sensorial. Usando de diversos formatos e canais, fico de olho no mercado, converso com os players e mapeio esse universo que evolui tanto em cada cultura diferente. 

Mas vou te falar. Fiz amizade com a Inteligência Artificial, digamos que somos colegas de trabalho. Só não é uma amizade mais sincera porque nunca a IA vai poder tomar uma cervejinha comigo depois do trabalho. Não tem como trocar fofoca, mandar meme, falar da vida, rir sem compromisso, bolar planos mirabolantes, filosofar sobre a vida e tudo mais. Continuo feliz com minhas trocas entre humanos, brindando e cheirando os copos, buscando encontrar as respostas no fundo das taças e papos. 

  1. Quando a IA gera informações erradas, inventadas ou sem fonte confiável (inclusive as fontes podem ser inventadas, sempre confira!). https://www.gov.br/governodigital/pt-br/infraestrutura-nacional-de-dados/inteligencia-artificial-1/publicacoes/guia-pratico-de-prompt-e-pesquisa-com-ia-para-servidores-publicos#:~:text=Prompt%20%C3%A9%20uma%20instru%C3%A7%C3%A3o%20clara%20e%20contextual,indicando%20claramente%20as%20expectativas%20sobre%20sua%20resposta. ↩︎
  2. Ibidem ↩︎

Bia Amorim é sommelière, pesquisadora e palestrante. Atua na interseção entre gastronomia, cultura e bebidas brasileiras, com foco em comunicação, experiência, consumo consciente e hospitalidade.


* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.

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