Há exatos dez anos, em uma mesa de bar no Grajaú, no extremo sul da capital paulista, um grupo de educadores e artistas olhou para os próprios copos e se fez uma pergunta que mudaria suas vidas: “Por que o dinheiro da cerveja que a gente bebe vai só para fora e não fica aqui?”. Daquela inquietação nasceu a Graja Beer, uma marca que ousou desafiar a lógica de um mercado elitista, que ignora que o grande volume de consumo sempre morou nos botecos, no samba e nos campos de várzea, explica Leandro Sequelle, um dos fundadores da marca.
Ao longo de sua primeira década, a trajetória da Graja não foi linear, mas marcada por aberturas, fechamentos e reinvenções. Hoje, quem procura pelo bar da marca no Grajaú não o encontra aberto. O fechamento das portas há dois anos, no entanto, não é uma história de fracasso comercial pós-pandemia, mas sim um raro e corajoso relato de preservação da saúde mental no empreendedorismo periférico. Pressionado pelo acúmulo de dívidas e pela exaustão, Leandro Sequelle, decidiu pausar as atividades antes de adoecer, optando por um modelo de negócio que hoje ele define como tendo “raízes e asas”.

Livre das amarras, a Graja Beer voou. Estabeleceu parcerias com o poder público, fortaleceu sua conexão com o hip-hop e o samba e lançou recentemente uma cerveja em colaboração com Edi Rock, dos Racionais MC’s — um símbolo máximo de que a marca segue quebrando as barreiras da bolha da cerveja artesanal.
Para Sequelle, a bebida nunca foi o objetivo final, mas sim um meio. Nesta entrevista exclusiva ao Guia da Cerveja, ele reflete sobre os dez anos de existência e resistência da marca e expõe o quão passageira foi a onda da diversidade no mercado. E revela que, no fim das contas, a grande utopia da Graja Beer não é erguer uma cervejaria, mas sim construir uma escola de educação infantil de excelência para as crianças da periferia.
Você já falou que a Graja Beer tem vários aniversários. Em um deles, pelo menos, a marca está fazendo dez anos em 2026. Da concepção até hoje, como foi unir cerveja artesanal à periferia?
Celebrar e comemorar toda conquista e toda ação é fundamental para nós que viemos do impossível e do invisível. E a Graja tem muitos marcos em sua trajetória. O primeiro marco é a criação, é a existência dela num lugar de impossível mesmo. Quando a gente criou, era uma coisa tipo, “puxa, não tem ninguém de onde a gente veio, que vive o que a gente vive, fazendo cerveja, vivendo a cerveja”. Então, em 2016, dez anos atrás, eu e mais um grupo de amigos, educadores, professores, artistas do Grajaú, numa mesa de bar discutindo os problemas da sociedade, os problemas da comunidade do dia a dia, tivemos um insight que foi: “Por que que a gente bebe cerveja, fala sobre tudo isso e o dinheiro dessa cerveja vai só para fora, não vai para dentro?”.
Levamos quase 2 anos pesquisando, entendendo o que era cerveja, conversando com pessoas do mercado, para oficialmente, em 25 de janeiro de 2018, lançá-la no evento do Centro Cultural Grajaú. De lá para cá, tivemos o lançamento do primeiro bar, que fechou devido à pandemia. Na pandemia, abrimos o segundo bar, com a capacidade 50% maior que o primeiro e que durou três anos. Depois, nós abrimos o terceiro bar com três vezes a capacidade do segundo. Todos esses marcos são comemorados como celebrações, vitórias e símbolos de existência e resistência da Graja Beer.
A periferia bebe cerveja desde sempre. O butiquim, o samba, o futebol de várzea, a festa de aniversário, churrasco da laje, ele sempre teve a cerveja como seu meio de campo, como azeitear das ideias. O grande lance é que a cerveja artesanal decidiu que era elitista, que ela era branca, classista, que ela vinha da Europa e esqueceu que a gente é um povo de miscigenação, e que tem uma potência gigantesca.
O que a Graja Beer fez nada mais foi do que trazer o olhar de volta para quem inventou, produziu e desenvolveu a cerveja e, segundo, para quem consome em grande escala. Se você parar para pensar, as grandes corporações não fazem cerveja pensando no público classe A, e sim no consumo de massa. O que a Graja Beer fez foi olhar para quem consome a cerveja.
Atualmente a Graja não tem mais um local físico, certo? Como está sendo essa fase atual da marca? Como está funcionando a Graja Beer?
Pouquíssima gente do mercado sabe que a Graja Beer fechou seu bar físico há dois anos. E não fechou por não ter dado certo. Nós, sim, enfrentamos uma porrada de problemas igual quase todos os empreendedores no pós-pandemia, com acúmulo de dívidas, juros com bancos, contas pendentes com fornecedores. Apanhamos muito disso. Mas a gente conseguiu crescer o bar e ter eventos absurdamente incríveis, conseguimos criar uma rede autônoma e sustentável dentro da comunidade.
Só que existe uma coisa que pouca gente fala e olha: a saúde mental de quem desenvolve os seus trabalhos, principalmente os projetos de inovação. Eu cheguei num momento em que olhei para um lado, olhei para o outro e falei: “Está incrível! Mas eu estou ficando doente, estou ficando maluco e se eu não cuidar, tudo isso que eu estou fazendo vai acabar”. Então decidi pausar as atividades do bar e focar em estar bem e desenvolver a Graja num outro lugar. No lugar da marca.
A Graja não nasceu para ser somente territorial. Eu costumo dizer que ela tem raízes e asas. Ela é um modelo replicável. Uma coisa que eu fiz foi levar a palavra da Graja, o case, a inspiração e os resultados positivos para outros lugares. De lá para cá eu venho sendo convidado pela Prefeitura de São Paulo, pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, para realizar uma série de eventos. Juntos temos feito eventos, conexões e desenvolvido parcerias incríveis.
Recentemente, a Graja lançou uma cerveja com o Edi Rock. Como está sendo essa experiência de fazer um trabalho com um grande artista?
Quem veio da periferia não escapou de ser influenciado direto ou indiretamente pelo Racionais MC’s. Eles são uma das últimas experiências fenomenais de transformação e impacto social que mudaram e salvaram a vida de milhões de pessoas pelo Brasil afora. E eu sou uma dessas pessoas.
Em 1994, eu era novinho, adolescente, e estava ouvindo o começo do rap, que estava bombando nas rádios, ouvindo Racionais. E muitos anos depois, estou sendo convidado pela equipe do Edi Rock para desenvolver o retorno da cerveja dele. Para mim, ele é um marco e sinal de que estamos no caminho certo.
A Graja Beer sempre se propôs a falar com as periferias e mostrar que a cerveja pode ser feita por qualquer um. Qualquer um que goste de tomar cerveja e curta a história da cerveja pode fazer cerveja. Mas para isso a gente precisa apresentar para mais pessoas, apresentar e aproximar, né? Mostrar que aquilo não é só um monte de consoantes estranhas em um rótulo, e sim estar com o Edi Rock, né? E o Edi Rock tem um trabalho solo muito potente. É a prova de que sim, é possível, sim, estamos no caminho certo e sim, dá para falar com quem não está inserido dentro do mercado craft.
O momento do mercado cervejeiro hoje é outro: aquele frisson passou, as coisas estão mais difíceis, o crescimento desenfreado diminuiu. Como você encara essas mudanças para a Graja? Elas favorecem a descoberta da cerveja artesanal pela periferia ou prejudicam? Por quê?

O mercado cervejeiro artesanal, dito classista com uma cara de que é o europeu, com uma proposta de marco de status, ele sofre grande impacto quando a economia tem uma dificuldade. E aí a gente tem uma virada de geração que consome de outra forma. E, automaticamente, a venda diminui, as cervejarias fecham, as marcas somem, né? O que me parece que acontece é que ninguém se importa. O tanto de cervejaria que fechou e ninguém fez um ato, um manifesto, um festival para salvar cervejarias.
Em 2020 tivemos uma série de casos de racismo no mercado cervejeiro, onde isso foi parar na mídia e houve um frisson de “vamos nos salvar, não somos assim”. Mas isso passou porque, inclusive, responsabilidade social ela muito mais é um movimento de mercado do que de consciência. O ESG (Environmental, Social, and Governance) olhava para a negritude de uma forma muito forte até dois, três anos atrás. Mas também muito mais preocupado com o movimento de mercado do que necessariamente com as vidas que estão nas margens, né? Que estão historicamente desde 1.500 sofrendo e sendo invisibilizadas no dia a dia.
Tanto que após esse barulho todo, em que a Graja Beer se tornou uma das referências em discutir diversidade e inclusão, nós fomos invisibilizados. Invisibilizados não sendo mais convidados para nada, não aparecendo mais, não estando mais em diálogo com os eventos, com os festivais… muitas coisas aconteceram.
Enquanto na margem nós crescíamos e começávamos a desenvolver de forma autônoma, me parece que do outro lado as pessoas já não se importavam mais. E o importar e dar visibilidade é um movimento político. Quando você invisibiliza alguém, você está tendo um ato político de, além de silenciamento, negar a existência daquilo.
E sobre o mercado cervejeiro, eu desde que surgi, aponto que o consumo, o crescimento, os números, eles estão no volume. E o volume não está nos centros econômicos. O mercado precisa ter diálogo direto com quem consome. E o samba, a quebrada, o futebol de várzea, continuam consumindo muita cerveja.
Hoje se fala que as novas gerações pararam de beber, mas para onde estamos olhando? Para quem consome cerveja ou para quem está fazendo o seu exercício no Parque Ibirapuera tomando aquela bebida com pouca caloria? O grande lance é: nós continuamos, enquanto mercado, querendo ser um mercado classista, olhando para os hábitos classistas e reclamando que a conta não fecha. E realmente não fecha.
Desde a fundação da Graja, você se tornou uma das vozes mais proeminentes pela inclusão no meio cervejeiro. Como estão seus projetos nessa área hoje?
Uma voz proeminente para inclusão no mercado cervejeiro não tem a necessidade de ser inclusiva para o mercado cervejeiro. Para nós, a cerveja é um bem da humanidade criada por mulheres em um território africano. Isso daí é histórico, está registrado. O grande lance é que essa cultura foi apropriada pelos colonizadores e hoje nós temos apenas o papel de consumidores. Nós não nos vemos no lugar de produtores. A riqueza é gerada, mas ela não é compartilhada.
O trabalho da Graja Beer vai muito mais de encontro a ter a cerveja como ferramenta do que como fim. O que nós queremos é a emancipação econômica dos povos pretos e periféricos, das mulheres, dos LGBTs, das pessoas que estão no que se diz como margem social, mas que na verdade são as grandes potências.
A cerveja, um dos produtos mais consumidos na humanidade, pode e deve ser ferramenta de geração de emprego, renda, visibilidade, de empoderamento dessas camadas. Mas no lugar certo, que é como meio. A cerveja não é para ser discutida como fim — a não ser pelas pessoas profissionais e técnicas. Não importa, durante uma partida de futebol, se aquela água tem um pH, se ela tem a concentração maior de minerais… O que importa é se ela está contribuindo com a geração do emprego daquela senhora, com a visibilidade de um artista que fez o rótulo, se está gerando renda para um coletivo LGBT — que tem uma expectativa de vida de 30 anos de idade. Você tá me entendendo?
A classe média e média-alta não se importa com isso. Quem é que se importa? Nós. Então, que nós utilizemos a ferramenta a nosso favor.
Ser uma voz para inclusão do mercado cervejeiro é fazer uma ponte de diálogo para que possamos ambos utilizar as ferramentas, cada um do seu lado.
Quais os planos para o futuro da Graja?
Os planos são muitos, mas quem anda com pé-descalço sabe a importância de cada passo e o peso que ele tem. De futuro, de utopia, a Graja Beer quer construir uma escola de educação infantil que tenha os mesmos moldes de educação tidos para a galera de classes privilegiadas. Mas que seja para as pessoas da periferia. Para que tenham acesso à arte, à educação física, corporal, expressiva, à educação financeira, para toda a sensibilidade e as possibilidades humanas que muitas vezes não são oferecidas para nós — que somos vistos apenas como trabalhadores. A cerveja pode construir isso. Mas ainda está muito longe.
Para hoje, para agora, nós queremos continuar e expandir essa parceria com o hip-hop, com o samba, com o futebol de várzea e os movimentos sociais. Dialogando a cerveja como meio e não como fim. Colocando a cerveja como potencial de sorriso, de comemoração e de festejo.
Para esse ano, acreditamos que haverá mais alguns rótulos do Edi Rock sendo lançados e estamos em diálogo com outros artistas para outras cervejas. E algumas cervejas da Graja Beer virão nesse meio de campo.
O futuro é em linha reta, em frente, mesmo que haja muitas bifurcações no caminho. A gente acredita que o objetivo da Graja é compartilhar saberes e riquezas materiais ou imateriais com os nossos. E com “os nossos” quero dizer a humanidade como um todo. Então, o futuro da Graja Beer é continuar construindo materialidades e melhores dias para os nossos e para os que virão.


