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Eleita Melhor Cervejaria do Brasil, Big Jack planejou o próprio sucesso, cumpriu e dobrou a meta

Marca da pequena cidade de Orleans, no Sul de Santa Catarina, traçou a meta de ser a melhor do Brasil até 2027. Cumpriu o objetivo em 2025 e repetiu o feito em 2026 no Concurso Brasileiro da Cerveja de Blumenau

Pensei em começar falando que a Big Jack previu o próprio sucesso. Mas não seria totalmente correto nem justo. Na verdade, Marcelo Dalazen planejou o sucesso da sua cervejaria, localizada na pequena cidade de Orleans, na região Sul de Santa Catarina. Em 2023 deu entrevista ao Guia da Cerveja dizendo que a meta era ser a melhor cervejaria do Brasil até 2027. “E vamos conseguir isso”, cravou. Não só atingiu seu objetivo como o fez dois anos antes do prazo. “A Big”, como ele chama carinhosamente, foi eleita a Melhor Cervejaria do Brasil em 2025 pelo Concurso Brasileiro da Cerveja (CBC) de Blumenau (SC). E para ninguém dizer por aí que foi sorte ou alinhamento dos astros, dobrou a meta e repetiu o prêmio agora em 2026.

Estive na cerimônia de premiação e vi Marcelo subir no palco, segurando a bandeira de sua cidade e com toda a equipe da cervejaria que estava presente por lá. “Quando estabeleci essa meta, o ano era 2018. Fomos trabalhando e tínhamos até 2027 para cumpri-la. A gente já vinha aprimorando e trabalhando nossas receitas desde então. Foram [os prêmios de 2025 e 2026] conquistas muito comemoradas, ainda mais com o alto padrão das cervejarias que disputam o CBC com a gente”, diz o fundador e proprietário em uma nova entrevista ao Guia

Marcelo credita o sucesso ao time da Big Jack, que está sempre em busca de novos desafios, como ele diz. “Fazemos cervejas para nós mesmos, o que sobrar a gente vende”, confessa entre risos. E talvez aí também esteja uma parte da fórmula do sucesso: ele nunca deixou de ser um cervejeiro caseiro.

Da panelinha à melhor cervejaria do Brasil

Marcelo (ao centro, segurando o troféu) e equipe da Big Jack recebendo o prêmio de Melhor Cervejaria do Brasil (Crédito: Luís Celso Jr. / Guia da Cerveja)
Marcelo (ao centro, segurando o troféu) e equipe da Big Jack recebendo o prêmio de Melhor Cervejaria do Brasil (Crédito: Luís Celso Jr. / Guia da Cerveja)

Marcelo, que não gostava de cerveja, certo dia foi para Blumenau ser padrinho de casamento e acabou convencido por um garçom a provar uma cerveja artesanal. O ano era 2011. E ele gostou muito. Tinha sido mordido pelo bichinho e ficou com gana de saber mais. Mas quando voltou à sua cidade no dia seguinte, viu que não existia nada igual por lá. “Então, fui para a internet para comprar, vi uma propaganda de equipamentos e também adquiri. Comecei a fazer e a gostar do que fazia”, conta. 

Mas essa vida de cervejeiro caseiro não é fácil — quem já fez sabe bem. Dá trabalho. Marcelo então começa a estudar, desenvolve receitas e ganha até prêmios em concursos de homebrew. Para sair da panelinha, parte para a produção em escala industrial em 2016.

Esse ânimo, essa vontade de aprender, fazer, experimentar, errar, tentar novamente, é típico de quem acaba de descobrir o hobby. E é bonito de ver — mesmo que as cervejas nem sempre sejam boas de provar. É a motivação que faz as pessoas crescerem na brincadeira, aprenderem muito e, em alguns casos, se tornarem profissionais. Mas também é muito comum que a febre baixe, o tesão diminua e esse fervor todo até suma com o tempo.

Quando digo que Marcelo nunca deixou de ser caseiro, quero dizer que ele parece nunca ter perdido esse brilho nos olhos. Ele fala em aprimorar receitas, criar novas, fazer a cerveja que gostaria de beber e que “qualidade sempre é o que nos norteia”. Os prêmios, conquistados pela somatória de pontos das dezenas de medalhas que ganhou no concurso, mostram que não é só discurso. 

Nem só de paixão vive uma cervejaria

Big Jack já foi eleita a melhor cervejaria do Brasil em dois anos seguidos: 2025 e 2026 (Crédito: Divulgação / Big Jack)
Big Jack já foi eleita a melhor cervejaria do Brasil em dois anos seguidos: 2025 e 2026 (Crédito: Divulgação / Big Jack)

Outro fato curioso sobre Marcelo é que ele, como eu, é um empreteco. É assim que se tratam as ex-participantes que passaram pelo Empretec, programa de desenvolvimento de empreendedores criado pela ONU e aplicado exclusivamente pelo Sebrae no Brasil. É uma semana de curso, de muito trabalho, que foca em ensinar os comportamentos de um bom empreendedor. Algo que não se aprende nas faculdades de administração e é determinante para muitos negócios. 

Tendo estudado até o Ensino Médio, Marcelo se lançou no programa em 2017, traçou a meta de ser a melhor cervejaria do Brasil em dez anos e partiu para alcançá-la. Ele entendeu o que muitos caseiros que se tornam donos das próprias cervejarias muitas vezes não enxergam ou ignoram: é preciso saber também de gestão para ter um negócio. Não é só paixão.

Marcelo hoje tem uma empresa sólida. Produz entre 50 e 60 mil litros de cerveja por mês, distribui chope em todo o estado de Santa Catarina e vende suas latas pela internet e até no Nordeste, por meio de um distribuidor no Ceará. Em Orleans, cidade da qual fala com orgulho, são dois bares, “um com 30 e o outro com 19 torneiras”, o que motiva a criação de várias receitas diferentes para sempre ter novidade engatada.

“Não é só sobre cerveja”

Uma coisa de que muito se fala no meio cervejeiro dos Estados Unidos — o maior mercado de cervejas artesanais do mundo e no qual muitas cervejarias brasileiras se espelham — é a necessidade do envolvimento com as comunidades, que na maioria das vezes são locais. O segredo, segundo orientações repetidas à exaustão pela Brewers Association, entidade representativa do setor, é conseguir atuar dentro delas e com elas, para engajá-las com o negócio. É sobre estabelecer uma relação autêntica, de proximidade, confiança e até de orgulho em beber da cerejaria local.

A Big Jack faz isso há um bom tempo. “Também temos o lema de que não é só sobre cervejas. Quando você visita a Big Jack, vai ver que apoiamos causas sociais e culturais. Somos patrocinadores de tudo o que acontece no nosso entorno. Acreditamos que ao crescer junto, se cresce mais. Nos envolvemos com a comunidade”, diz Marcelo na entrevista concedida em 2023. 

Marcelo também construiu uma comunidade de cervejeiros caseiros, dando curso gratuito ao longo dos anos. Afirmou até que se tratava da cidade com maior concentração de hobbystas do Brasil. E a comunidade, por sua vez, retribui. “Quando você tem um negócio, você tem que dar razões para as pessoas irem ao seu estabelecimento. Eu olho para o pub da Big Jack e está sempre lotado. Alguns vão para conhecer, outros vão pela música, outros vão pela comida, e outros vão porque os ensinamos a fazer cerveja”. 

Outro exemplo desse retorno é que hotéis têm indicado a cervejaria como programa para se fazer na cidade. “Nossa cidade está crescendo para o turismo agora e nos orgulhamos de toda semana recebermos gente de diversos lugares do Brasil que se hospedam e vêm conhecer a região por causa da Big Jack”.

O futuro planejado da Melhor Cervejaria do Brasil

Big Jack produz hoje entre 50 e 60 mil litros por mês (Crédito: Divulgação / Big Jack)
Big Jack produz hoje entre 50 e 60 mil litros por mês (Crédito: Divulgação / Big Jack)

Marcelo também fala em trocar mais, ampliar a comunidade para além da cidade. Ele quer conversar com o meio cervejeiro em geral. “É muito bom ter a Big Jack como a melhor cervejaria do Brasil porque eu acredito que a gente tem muita coisa para servir de exemplo, muita coisa legal pra mostrar para esse mercado para ele se manter vivo, firme e forte”, diz. 

Por todos esses sinais é que seria falta de sensibilidade e até injustiça atribuir o sucesso da Big Jack à sorte, algo do acaso ou sobrenatural, como uma visão do futuro. O que vejo, em vez disso, é um caso de planejamento e execução, com paixão, mas também com muto pé-no-chão. E mais planos vêm por aí.

“Queremos abrir dois bares próprios ainda este ano, em cidades vizinhas, além de implantar uma unidade no Nordeste, contribuindo para o fortalecimento da cultura cervejeira na região”, conta ele. “Nosso objetivo é seguir figurando entre as melhores cervejarias do país. Nosso time evoluiu com cada conquista e se cobra diariamente para permanecer no topo”, completa.

O ano da meta, 2027, ainda nem chegou. Será que vai rolar um tricampeonato do prêmio de Melhor Cervejaria do Brasil? Alguém duvida?

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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