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Artigo: Por que levar ciência para o bar?

A ciência passa por uma crise de confiança. Mesmo com a pandemia de COVID-19, quando avanços científicos permitiram amenizar os impactos da doença, prever resultados e imunizar a população, nós da academia ainda encaramos muita descrença com relação à ciência.

Na mais recente versão da pesquisa “O que os jovens pensam da ciência e da tecnologia?”, observou-se que o interesse por pesquisa em saúde e medicina caiu de 2019 para 2024 de 74% para 66%, caiu de 80% para 77% nos temas ligados ao meio ambiente e manteve-se estável em 67% com relação à ciência e tecnologia. A ciência até é percebida como produtora de mais benefícios (67%) do que prejuízos (15%) para a humanidade, mas poucos jovens brasileiros sabem indicar um cientista (8%) ou uma instituição de pesquisa (19%).

As causas dessa desconfiança são variadas. A historiadora Naomi Oreskes relata em seu livro “Why trust Science” (Por que confiar na ciência, ainda não traduzido para o português) que a falta de compreensão sobre a forma como a ciência é produzida, sobre como o consenso científico é produzido e sobre como nós cientistas nos relacionamos com o público. Eu adicionaria aí a politização de todos os aspectos da vida hoje, do chinelo que você calça ao jornal que você lê, passando por como você se posiciona frente a debates científicos.

Deixemos a questão da politização de lado por enquanto. Tornar compreensível como se faz ciência, como chegamos a um consenso e, especialmente, nos relacionarmos melhor com a sociedade é fundamental e depende majoritariamente dos cientistas.

É aí que entra o bar.

Pint of Science

Nada melhor do que um espaço democrático, descontraído e livre de hierarquias (exceto o garçom, é claro. Ele claramente ocupa o mais alto status num bar) para permitir uma comunicação direta entre pessoas. Foi com isso em mente que o Festival Pint of Science surgiu. Com dez edições no Brasil, este festival surgido na Inglaterra reúne desde 2013 pesquisadores de ponta e curiosos ao redor de uma garrafa de cerveja para debater ciência.

O festival ocorre em todo o mundo nos mesmos três dias de maio e contará em 2026 com a participação de 28 países. Há vários anos o Brasil tem destaque por ser a maior sede do mundo. Ano passado tivemos 161 cidades participantes de um total mundial de 512 e atraímos 49 mil pessoas de um total de 130 mil no mundo todo.

Reunindo num bar o público e um cientista, o Pint of Science acredita estar oportunizando uma comunicação mais direta e clara entre as partes interessadas, na qual seja possível esclarecer como o conhecimento é produzido e qual a importância de colocá-lo a serviço da sociedade. Também esperamos com isso humanizar o cientista, aproximando-o do público das capitais às mais remotas cidades do Brasil. O ambiente do bar é perfeito para prover essa conexão e essa humanização, além de facilitar a comunicação.

Nós cientistas temos responsabilidade por parte da crise de credibilidade da ciência. É nosso papel dialogar com a sociedade, explicar nossa forma de produzir conhecimento e o que os cientistas pensam sobre o mundo hoje. Também é do nosso interesse nos despir da soberba acadêmica e dos nossos jalecos brancos e sairmos dos nossos laboratórios para ouvir o público e tomar uma cerveja também.


Eduardo Bessa é professor da Universidade de Brasília e coordenador nacional do Festival Pint of Science.


* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.

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