A cerveja IPA ganhou tanta intimidade com o consumidor brasileiro que hoje aparece nas gôndolas dos supermercados, nos cardápios dos restaurantes, nas torneiras dos bares, nas prateleiras dos empórios, nos coolers com gelo e nas geladeiras de casa. Tem IPA para quem procura uma cerveja diferente, para quem já sabe exatamente o que quer e até para quem não faz a menor ideia do que significam aquelas três letras estampadas no rótulo.
E tem gente reclamando que estão fazendo IPA demais.
Li algumas coisas, ouvi outras, cada um com seu ranço. Continuei bebendo minhas IPAs, e outros estilos também. Afinal, não é todo dia que a gente vê uma cerveja sair de uma pequena bolha e ganhar espaço no supermercado e, pouco tempo depois, começar a incomodar quem ajudou a torná-la conhecida. Justamente seus bebedores! Mas aqui é uma provocação ao assunto mesmo.
Fiquei intrigada com o porquê de alguém estar cansado(a) de IPA. O que me fascina nisso tudo é essa facilidade com que uma cerveja deixa de ser novidade para se tornar um excesso de existência. Em algum momento, entre a primeira IPA que nos surpreendeu menos de 20 anos atrás e a décima que encontramos hoje na prateleira do mercado, alguma coisa nessa conversa parece que mudou, ou é coisa minha. E por isso seria interessante tentar entender quando (ou como) foi que isso aconteceu. Ficou complexo: eu fui lembrando das coisas, escrevendo, pedindo ao ChatGPT que buscasse pra mim algumas informações. É isso, IPA e IA demais têm suas questões!
Comecei procurando um pouco dessa história no Google Trends. Entre 2012 e 2018, as buscas pela expressão “cerveja IPA” cresceram de maneira impressionante no Brasil, alcançando seu ponto mais alto em dezembro de 2018. Nos anos seguintes, o interesse permaneceu elevado, embora tenha começado a oscilar e se acomodar.

Figura 1 — Interesse por buscas pelo termo “cerveja IPA” no Brasil, de 2004 a outubro de 2026. O gráfico mostra o crescimento expressivo das pesquisas a partir de 2013, com pico em 2018, seguido de oscilações e manutenção do interesse em patamares elevados. Os valores representam um índice relativo de popularidade das buscas, e não o volume absoluto de pesquisas ou de vendas de cerveja. Fonte: Google Trends. Consulta realizada em 12 de outubro de 2026.
Adianto onde cheguei, para quem quiser me acompanhar até o fim: a sensação de que existe cerveja IPA demais é real para quem vive no meio cervejeiro, mas não é a mesma coisa que o mercado estar cansado dela. A prateleira conta uma história; os dados contam, outra.
O tal IPA fatigue
Descobri que tem até nome para esse cansaço: IPA fatigue. E, pelo que andei lendo, não é uma reclamação tão recente assim: achei mais registros de 2016 para frente. O curioso é que nem todo mundo está reclamando da mesma coisa. Há quem ache que as cervejarias produzem IPAs demais e deixam outros estilos de lado. Há quem encontre pouca diferença entre tantas receitas lupuladas. E há quem simplesmente tenha bebido tanta IPA que agora queira experimentar outras coisas, o que me parece perfeitamente compreensível. Há ainda os rebeldes, que às vezes nos ajudam a sair do transe.
A conversa também não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, essas reclamações circulam há anos em comunidades cervejeiras. Em uma discussão publicada no Reddit em 2022, por exemplo, um consumidor dizia estar cansado de encontrar tantas IPAs e sentir falta de estilos como Brown Ale, Bitter e Porter. Centenas de pessoas participaram da conversa. E não é difícil encontrar manifestações semelhantes em outros países, especialmente quando o assunto é a predominância das Hazy IPAs nas torneiras e geladeiras.

Figura 2 — “Mais alguém está meio cansado das IPAs?” Em discussão publicada no Reddit em agosto de 2022, um consumidor norte-americano pergunta se outras pessoas também estão cansadas das IPAs. A publicação reuniu centenas de comentários e reações. Reprodução: Reddit, comunidade r/beer.
Curiosamente, o estilo que ajudou a ampliar a diversidade do mercado artesanal passou a ser acusado, por parte dos próprios consumidores, de limitar essa mesma diversidade.
Em julho de 2018, a jornalista Juliana Simon já escrevia sobre essa relação complicada com as IPAs no blog Siga o Copo, do UOL. Falava da obsessão, da rejeição, da quantidade de receitas e da qualidade nem sempre correspondente à oferta. E terminava com uma pergunta que continua boa: “Porém, tem culpa a IPA?”
No Brasil, essa conversa já fermentava dentro do nicho em 2016, quando o jornalista Roberto “Bob” Fonseca perguntou aos profissionais do mercado cervejeiro brasileiro se as IPAs haviam atingido um nível de saturação ou se ainda tinham espaço para crescer. A questão fazia parte do projeto Os Melhores do Ano na Cerveja Brasileira, uma iniciativa que, durante anos, reuniu diferentes vozes do setor e publicou suas respostas individualmente. Sempre admirei o caráter democrático desse trabalho e tive a satisfação de participar de várias edições.
Revisitar aquelas respostas, publicadas em 2017, é encontrar um mercado dividido entre o entusiasmo pelo crescimento das IPAs e a preocupação com a repetição de estilos e receitas. Havia quem questionasse a qualidade de tantas cervejas do estilo, quem sentisse falta de outras opções e quem lembrasse que grande parte dos consumidores brasileiros ainda estava começando a descobrir o universo das cervejas especiais.
A sommelière e professora Tatiana Spogis, por exemplo, defendia que o tema precisava ser analisado para além do universo dos consumidores especializados: “Mas na minha opinião, devemos analisá-lo pela ótica do consumo geral e não pelo nicho.” Já Aline Smaniotto, antropóloga e também sommelière, reconhecia o desequilíbrio na oferta, sem abandonar a possibilidade de inovação: “Apesar do crescimento desproporcional em relação a outros estilos, sempre há espaço para criação e irreverência.”
Não lembrava qual resposta eu tinha dado, e foi uma bem simples: “Se a cerveja for bem feita, estamos sempre à sua espera.” Quase dez anos depois, continuo gostando dessa ideia de busca pela qualidade. E continuo gostando de IPA. Olhando para aquelas respostas e para as prateleiras de hoje, acho interessante perceber que as perguntas do Bob e da Juliana não envelheceram.
Fui também pesquisar nos anuários do Ministério da Agricultura. Em 2023, o Brasil declarou a produção de pouco mais de 33 milhões de litros de cerveja IPA. Em 2024, foram 29,9 milhões e, em 2025, 29,7 milhões. Ou seja, enquanto seguimos discutindo se há IPA demais, a produção nacional declarada caiu cerca de 10% nesse intervalo. Vale lembrar que, apesar de toda a presença e do alvoroço que parece ter conquistado, a IPA ainda representa apenas cerca de 0,2% do volume total de cerveja produzido no país. Podemos fazer mais IPA por aqui, inclusive o pessoal já está até plantando o próprio lúpulo, com direito a terroir! “Vocês vão ter que me engolir!”, diria Zagallo (1997). E, pelo visto, a IPA nacional vem aí.
Talvez o excesso que percebemos nas prateleiras não seja exatamente o mesmo excesso que aparece nas estatísticas. A IPA pode parecer onipresente para quem frequenta o universo das cervejas especiais e, ao mesmo tempo, responder por uma fração muito pequena da produção cervejeira brasileira.

Figura 3 — Produção declarada de cervejas do estilo IPA no Brasil entre 2023 e 2025. O volume passou de 33,1 milhões para 29,7 milhões de litros, uma redução acumulada de aproximadamente 10,3%. Elaboração própria, com dados dos Anuários da Cerveja 2024, 2025 e 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Quando a cerveja IPA era uma raridade
É curioso pensar que hoje a gente discute se existe IPA demais quando, não faz tanto tempo assim, encontrar uma delas exigia alguma dedicação. Era preciso conhecer uma cervejaria, frequentar determinados bares, descobrir uma loja especializada ou contar com alguém que trouxesse uma garrafa de viagem. Não era exatamente o tipo de cerveja que aparecia na lista de compras do supermercado.
Mas a história da cerveja IPA no Brasil é bem mais antiga do que o movimento artesanal contemporâneo. E, para encontrá-la, precisamos voltar a um tempo em que o Rio de Janeiro recebia navios ingleses carregados de mercadorias, gente e hábitos de consumo que ajudariam a transformar a vida na cidade.
Em uma pesquisa publicada em 2022 no Guia da Cerveja, o historiador Sérgio Barra recuperou registros do comércio cervejeiro brasileiro no início do século XIX. Depois da abertura dos portos, em 1808, a presença inglesa se tornou especialmente importante. Entre os navios que chegaram ao Rio de Janeiro até setembro de 1822 e declararam cerveja em suas cargas, 92% eram ingleses. A bebida abastecia comerciantes, diplomatas e outros residentes britânicos, mas também circulava entre os grupos mais abastados da sociedade brasileira, interessados nas novidades que vinham da Europa.
As Porters inglesas tiveram grande presença nesse comércio e, posteriormente, as Pale Ales produzidas em Burton upon Trent também ganharam espaço. Sérgio levantava, então, uma possibilidade interessante: se essas cervejas chegavam ao Brasil, por que não chegariam também as India Pale Ales? Fica o questionamento.
A pista apareceria em uma pesquisa divulgada em julho de 2026 pelo jornalista Luís Celso Jr., também aqui no Guia da Cerveja. Durante o levantamento para um livro sobre a história da cerveja no Brasil, ele encontrou um anúncio de leilão publicado em 1852 no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, que mencionava expressamente India Pale Ale. É o registro mais antigo identificado até agora com esse nome na imprensa brasileira, o que não significa que aquela tenha sido a primeira IPA a desembarcar por aqui. No mesmo mês, a Cervejaria Nacional, em São Paulo, lançou a PioneirIPA, uma interpretação contemporânea da cerveja que poderia ter chegado ao Brasil naquele período.
É preciso dar outro salto considerável no tempo para encontrar o próximo capítulo dessa história. Na década de 1990, enquanto boa parte das pequenas cervejarias brasileiras se inspirava nas tradições alemãs, com suas Weissbiers, Dunkels e Lagers especiais, a Colorado Indica já oferecia uma experiência diferente. Produzida em Ribeirão Preto, a cerveja se tornaria uma referência pioneira da IPA nacional.

Figura 4 — Colorado Indica. Foto: Divulgação
Em 2014, Marcelo Carneiro, fundador da Colorado, dizia à Folha de S.Paulo: “Caiu por terra a história de que o sabor amargo afasta as mulheres da cerveja.” A frase chama atenção porque revela um preconceito que circulava no mercado: o de que o amargor seria uma barreira para determinados consumidores. O crescimento das IPAs ajudou a colocar essas certezas em discussão e hoje o debate é muito maior, mas isso é outro papo.
Na reportagem que publicou em março de 2015 na revista norte-americana BeerAdvocate, Bob Fonseca lembrava que, durante os primeiros anos do movimento artesanal brasileiro, a Indica era praticamente a única IPA com ampla disponibilidade no país. Ficou tão conhecida que a cervejaria acabaria comprada por uma gigante.
A transformação ganharia velocidade nos anos seguintes, e as importadoras tiveram um papel importante nessa história. Em 2009, Gilberto Tarantino, hoje presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), começou a estabelecer relações comerciais com cervejarias artesanais norte-americanas. Na mesma reportagem, contou ao Bob que, quando apresentou a ideia de trazer aquelas cervejas ao Brasil, ouviu de um representante da Brewers Association, a entidade das cervejarias independentes dos Estados Unidos, que talvez não funcionasse. Afinal, os brasileiros poderiam não gostar de cervejas tão amargas.
Anderson Valley, Rogue e Flying Dog estavam entre as primeiras cervejarias interessadas, embora a burocracia brasileira tornasse o processo bastante complicado. Em 2010, o jornalista César Adames já noticiava a chegada da Flying Dog e de novos rótulos da Rogue. Naquele mesmo período, também chegavam ao país cervejas como Brooklyn East India Pale Ale, BrewDog Punk IPA e Hardcore IPA. E havia a inglesa Fuller’s India Pale Ale, cuja presença no mercado brasileiro já estava documentada em 2008.
Havia consumidores esperando importações, acompanhando lançamentos, compartilhando degustações e descobrindo cervejas que até então conheciam apenas de nome. E havia jornalistas, importadores e comerciantes trabalhando para que tudo aquilo chegasse aos copos brasileiros.
Mas não eram apenas as garrafas que atravessavam fronteiras. As pessoas também circulavam, levando conhecimentos, receitas e ideias. O escritor e artista gráfico Randy Mosher veio ao Brasil diversas vezes com seus livros, ensinamentos e designs. Nos anos seguintes, Garrett Oliver, Greg Koch, Matt Brynildson e outros profissionais europeus e norte-americanos participaram de encontros e colaborações com cervejarias brasileiras. Greg Koch, da Stone, desenvolveu com a Bodebrown uma IPA com cacau. Matt Brynildson, da Firestone Walker, participou da criação da Colorado Vixnu Imperial IPA, com rapadura. E havia uma discussão de fundo nesse processo. O consultor e analista do mercado cervejeiro Carlos Lima, ouvido por Bob Fonseca em 2015, manifestava preocupação com a tendência de simplesmente reproduzir no Brasil o que os norte-americanos estavam fazendo.
A questão do frescor também já aparecia. Pete Slosberg, fundador da Pete’s Brewing Company e outro entrevistado por Bob, mencionava dificuldades de distribuição e a presença de cervejas velhas ou oxidadas no mercado. Não bastava produzir uma IPA intensamente lupulada. Era preciso fazer com que ela chegasse ao consumidor em boas condições. O estilo que poucos anos antes parecia amargo demais para o consumidor brasileiro já enfrentava concorrência suficiente para que a simples novidade deixasse de ser um diferencial. Ficou concorrida.
Enquanto isso, a distribuição também começava a mudar de escala. Em 2015, a Ambev adquiriu a Colorado. Naquele mesmo ano, a Heineken global comprou metade da norte-americana Lagunitas, assumindo seu controle integral em 2017. Em 2019, a Lagunitas IPA passou a ser produzida no Brasil, na fábrica da Eisenbahn, em Blumenau, e chegou às prateleiras dos supermercados nacionais com uma estrutura de distribuição bastante diferente e ampla.
Podemos encontrar mais cervejas IPA nos supermercados sem necessariamente encontrar mais cervejarias independentes nas prateleiras. O supermercado não apenas passou a vender IPA; ele ajudou a transformar a IPA em uma categoria de consumo cotidiano.
Antes, o consumidor precisava conhecer a cervejaria para chegar ao estilo. Hoje, pode procurar o estilo sem conhecer a cervejaria.
A IPA também carregava significados que iam além do sabor. Ao recuperar a trajetória da BrewDog e de sua Punk IPA, lançada em 2007, o historiador Gabriel Gurian mostra como uma cerveja pôde se tornar parte de uma identidade construída em oposição às grandes marcas industriais. Não era apenas uma questão de amargor ou de lúpulo, mas também de pertencimento a um movimento que se apresentava como alternativa ao mercado dominante.
No Brasil, essa dimensão cultural também ajuda a compreender o prestígio que as IPAs conquistaram entre os primeiros entusiastas das cervejas artesanais. Beber IPA podia significar descobrir novos sabores, mas também participar de um universo que valorizava conhecimento, experimentação e diferenciação. O famoso status de uma pequena bolha.
O sociólogo Georg Simmel já observava, ao estudar a moda, como certos hábitos podem funcionar simultaneamente como sinais de pertencimento e de distinção. E como essa distinção se transforma quando aquilo que era restrito passa a circular entre mais pessoas. Não sei se os primeiros apaixonados por IPA pensavam nesses termos, mas é curioso ver o caminho percorrido pelo estilo. Anos depois, encontrar uma IPA no supermercado já não exigiria fazer parte daquele universo.
Mil e uma IPAs
Se antes era preciso procurar uma cerveja IPA, hoje talvez seja mais difícil decidir qual delas beber. Tem IPA inglesa, americana, Session, Double, Triple, Black, Red, White, Rye, Brut, Hazy, New England, West Coast. Tem IPA com fruta, com ingredientes brasileiros, com álcool, sem álcool. Algumas são claras e amargas, outras turvas e tão aromáticas que parecem uma salada de frutas. Há quem olhe para tudo isso e enxergue diversidade. Há quem veja apenas mais IPA.
Eu entendo os dois lados, mas acho engraçado que uma família de cervejas tão variada seja frequentemente tratada como se todas fossem a mesma coisa. Não são. E não é preciso gostar de todas para reconhecer as diferenças. Aliás, talvez essa seja uma boa oportunidade para perguntar se estamos cansados de IPA ou de encontrar sempre a mesma interpretação de IPA.
Outro dia, enquanto pesquisava para escrever esta crônica, fui olhar o cardápio do Empório Alto dos Pinheiros, o EAP, no Untappd. Encontrei 21 classificações diferentes de IPA. Vinte e uma! E centenas de cervejas IPAs em lata, garrafa ou chope cadastradas no cardápio geral. Fiquei pensando no tempo em que encontrar uma única IPA já era motivo para comemorar. Agora precisamos de um mapa para escolher entre tantas possibilidades. Fadiga de escolher.
O próprio universo das classificações tenta acompanhar essa movimentação. O guia de estilos do Beer Judge Certification Program (BJCP), utilizado em concursos cervejeiros, contempla diferentes interpretações de IPA e reconhece a Hazy IPA como um estilo específico. Mas a velocidade com que aparecem novas receitas e denominações nem sempre acompanha a organização dos guias. A cerveja chega ao copo antes de alguém decidir exatamente em qual categoria ela se encaixa.
E, se a quantidade de versões já é suficiente para render uma boa conversa, as avaliações dos consumidores acrescentam outra camada.
Pense no Untappd.
A plataforma transformou a degustação de cerveja em uma atividade que também envolve registrar, fotografar, avaliar e comparar. Uma cerveja pode acumular milhares de check-ins porque é encontrada com facilidade, porque tem distribuição ampla ou porque muita gente gosta dela. Outra pode ter uma avaliação extraordinária, mas ser produzida em quantidades tão pequenas que poucas pessoas conseguem experimentá-la.

Figura 5 — Comparação do número acumulado de check-ins de três IPAs no Untappd. Lagunitas IPA, Bell’s Two Hearted e Sierra Nevada Torpedo Extra IPA apresentam, respectivamente, cerca de 2 milhões, 1,7 milhão e 800 mil registros na plataforma. Os números refletem a atividade acumulada dos usuários, não o volume de vendas ou a participação de mercado das cervejas. Fonte: Untappd. Dados aproximados, consultados em outubro de 2026.

Figura 6 — IPAs com as maiores avaliações identificadas no Untappd em outubro de 2026. Entre as principais subcategorias consultadas, destacam-se Pliny the Younger (Russian River), com nota 4,63; King JJJuliusss (Tree House), com 4,46; e LAX 2 JFK (Monkish/Other Half), com 4,45. As notas refletem avaliações dos usuários da plataforma e não representam um ranking absoluto de todas as IPAs existentes. Fonte: Untappd, rankings de Triple IPA e Double Hazy IPA. Consulta realizada em outubro de 2026.
A Pliny the Younger, da Russian River Brewing Company, é um bom exemplo dessa situação. A Triple IPA norte-americana se tornou uma espécie de acontecimento anual, com lançamento limitado e gente disposta a viajar para prová-la. Não é uma cerveja que se compra casualmente, entre o detergente e o pão de forma. A dificuldade de acesso, nesse caso, também faz parte da história que se conta sobre ela.

Figura 7 — Seleção de IPAs brasileiras com notas elevadas no Untappd. O levantamento reúne nove cervejas nacionais com avaliações entre 4,12 e 4,34 pontos, em uma escala de 0 a 5. Os dados foram consultados em outubro de 2026, com algumas referências históricas de 2022, identificadas por asterisco. A seleção é ilustrativa e não representa um ranking oficial das melhores IPAs brasileiras. Fontes: Untappd e levantamento histórico de 2022.
Universo paralelo
No Brasil, também existe esse outro universo. Cervejarias como Spartacus, Koala, Tarin, Croma e Everbrew ajudaram a formar um público que acompanha lançamentos, reconhece receitas pelo nome e procura experiências que nem sempre chegam às prateleiras convencionais. Em maio de 2025, por exemplo, Belo Horizonte recebeu o Festival ISO, dedicado às chamadas cervejas extremas, reunindo produtores que circulam nesse mercado mais especializado. O evento é um sucesso de vendas.
Aqui em Ribeirão Preto, o IPA Day Brasil, criado por Rafa Moschetta em 2012, transformou a devoção ao estilo em um festival inteiro, que hoje corre o país. Na edição de 2025, foram 41 rótulos de IPAs de 35 cervejarias, com versões que iam de uma IPA sem álcool a uma Quintuple Hazy IPA de 15% de teor alcoólico.
A IPA que alguém encontra na prateleira pode ser sua primeira experiência com um amargor mais pronunciado, com aromas de lúpulo ou com uma cerveja diferente daquelas que costuma beber. Para outra pessoa, pode ser apenas a opção mais prática de uma categoria que já conhece muito bem.
Mas o que exatamente estamos medindo quando chamamos uma IPA de importante? O número de avaliações? A nota que recebeu? A quantidade de garrafas vendidas? Sua influência sobre outras cervejarias? Ou o lugar que ocupa na memória de quem a bebeu? A cerveja mais icônica para os profissionais do setor é também aquela que o consumidor comum reconhece no supermercado?
Nem todo mundo se entusiasma com essa multiplicação de nomes e sabores amargamente correlatos. Diego Simão Rzatki, da Cozalinda, cervejaria de Florianópolis dedicada às fermentações selvagens e ácidas, já brincou com a quantidade de variações que parecem surgir a cada temporada. Em uma reportagem do Guia da Cerveja sobre cerveja decolonial, falou das IPAs que são “quase tudo igual (risos)”. Diego tem lá suas razões: prefere investigar outros caminhos de fermentação, território e sabor. E, convenhamos, depois de tantas versões de IPA, alguém precisava fazer essa provocação.
Amarga que nada
Fiquei obcecada em escrever sobre a cerveja IPA e talvez seja hora de confessar uma coisa: eu continuo gostando muito de IPA.
Gosto do amargor, dos aromas, das possibilidades que o lúpulo oferece e, principalmente, de encontrar uma cerveja que me surpreenda nas suas minúcias e detalhes, bem fresca. Não preciso que todas sejam extraordinárias, nem que cada garrafa inaugure uma nova categoria. Às vezes, quero apenas beber uma IPA bem feita. E isso, para mim, continua sendo uma ótima razão. A IPA pode ter deixado de ser uma descoberta para se tornar uma preferência de rotina.
Algumas cervejas acabam fazendo parte da nossa educação sentimental. A Colorado Indica tem um lugar particular nessa história, não apenas pelo que representa para o mercado brasileiro, mas porque é uma cerveja de Ribeirão Preto, cidade onde construí boa parte da minha vida profissional. A Bodebrown Perigosa também pertence àquele repertório de IPAs nacionais que ajudaram a formar referências, provocar conversas e ampliar o que esperávamos encontrar dentro de uma garrafa. Todo mundo do mercado (ou do [super]mercado) tem sua IPA afetiva.
E tem outra coisa que vem me animando bastante nesse universo das IPAs: as versões sem álcool (ou com até 0,5% de álcool). Quem diria que, depois de tantos anos discutindo amargor, intensidade, lúpulos e teor alcoólico, estaríamos encontrando algumas das novidades mais interessantes do estilo justamente nas cervejas que dispensam o álcool?
A Campinas IPA Zero já vinha mostrando que era possível fazer uma IPA sem álcool com personalidade, e colecionou prêmios em competições como o World Beer Awards, a Brasil Beer Cup e o Concurso Brasileiro de Cervejas. A SIM!, também do interior paulista, dedicada exclusivamente às cervejas sem álcool, foi ampliando suas interpretações do estilo, da IPA original à Amnésia e à Leve Session IPA. A Dama Bier também entrou nessa conversa com a Self Way IPA, e a Trilha resolveu fazer algo que achei particularmente interessante: criou uma versão sem álcool da Melonrise, uma de suas Juicy IPAs mais conhecidas.
E há quem esteja procurando outros caminhos. Por conta de um trabalho recente, conheci a recém-chegada ao mercado ÜBrew, de Erechim, no Rio Grande do Sul, que lançou uma IPA sem álcool, sem glúten e com 15 g de proteína vegetal, resultado de pesquisa e desenvolvimento que aproxima a cerveja de outras conversas sobre alimentação, tecnologia e hábitos de consumo.
Não sei se essas cervejas serão o próximo grande movimento do mercado. Mas gosto de perceber que, enquanto uma parte das pessoas reclama da quantidade de IPAs, outra continua procurando maneiras diferentes de fazê-las. E isso me parece uma boa notícia para quem gosta de cerveja.
Hoje, entre as minhas preferidas, estão as produzidas por Bragantina, Croma, Devaneio do Velhaco, Dilema, Dogma, Everbrew, Fermi, Juan Caloto, Koala, Los Forajidos, Maali, Molinarius, Peregrinos, Spartacus, Tarin, Tesla e Trilha. Sem ordem de preferência, porque não estou organizando um concurso. São cervejarias às quais gosto de voltar, cada uma por suas próprias razões.
E gosto também não é uma coisa fixa. Há quem adore o amargor seco de uma West Coast IPA, quem prefira o perfil frutado e a textura macia de uma Hazy, quem queira uma Session IPA para beber com mais leveza. Há quem goste de todas, dependendo do dia, da comida, da companhia, do calor. E há quem simplesmente não goste de nenhuma.
Não acho que precisamos gostar de todas as IPAs. Nem defender o estilo como se fosse um parente injustiçado. Algumas são ruins, outras são repetitivas, muitas são esquecíveis. Isso acontece com qualquer cerveja. O que me incomoda é a facilidade com que transformamos uma preferência pessoal em diagnóstico de mercado. Estar cansado de beber IPA não significa, necessariamente, que o mundo esteja cansado de produzi-la.
E se a cerveja IPA passou a fazer parte dessa rotina, não vejo por que estranhar. Entre tantas cervejas possíveis, cada um acaba encontrando as suas. Algumas ficam para uma ocasião especial. Outras entram na lista de compras do supermercado.
Saúde!
#apreciecomresponsabilidadesuaipa
Fontes e referências
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- ADAMES, César. A cerveja dos revolucionários. 15 ago. 2010. https://cesaradames.wordpress.com/2010/08/15/a-cerveja-dos-revolucionarios/
- ALMEIDA, Ludmyla; BOAVENTURA, Henrique. Mercado cervejeiro em 2025: o que esperar? Surra de Lúpulo, 2024. https://surradelupulo.com.br/mercado-cervejeiro-em-2025-o-que-esperar/
- AMORIM, Bia. Entrevista para Os Melhores de 2016 na Cerveja Brasileira. Roberto Fonseca, 1º fev. 2017. https://osmelhoresde2016.wordpress.com/2017/02/01/bia-amorim/
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Bia Amorim é sommelière, pesquisadora e palestrante. Atua na interseção entre gastronomia, cultura e bebidas brasileiras, com foco em comunicação, experiência, consumo consciente e hospitalidade.
* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.


