Num salão de 400 lugares em Bengaluru, no Sul da Índia, o cliente escolhe um dos mais de 200 discos do acervo, põe na vitrola e pede uma cerveja IPA feita ali mesmo. A 33&Brew, microcervejaria aberta em 2025 pelo empresário Karthik Chandrasekaran, passou a dar lucro neste ano e chegou a faturar perto de 10 milhões de rúpias por mês, ou cerca de US$ 105 mil, segundo a cotação da moeda indiana na sexta-feira (30).
A casa pega carona numa onda mais ampla, que cobre Karnataka, o estado de Bengaluru, a cerca de 1,7 mil quilômetros ao sul de Nova Délhi, a capital do país. De julho a setembro, a região vendeu 49,7% mais cerveja que um ano antes, segundo o departamento estadual de impostos sobre bebidas. No país inteiro, o consumo subiu 14,6% em 2024, a maior alta entre os 25 maiores mercados do mundo, pelo levantamento mais recente da cervejaria japonesa Kirin.
A Índia é o caso extremo de uma mudança no mapa da cerveja. Se ele fosse de temperatura, estaria esfriando nos países onde a bebida é tradição e esquentando nos emergentes, onde ela ainda é novidade.
Frio nos Estados Unidos e na Alemanha e calor na Índia e na África
O lado frio do mapa é o dos mercados maduros. Em 2025, a produção mundial caiu 0,7%, para 1,9 bilhão de hectolitros, segundo o relatório anual da BarthHaas, fornecedora alemã de lúpulo que acompanha o setor. Os Estados Unidos produziram 5,2% menos. A Alemanha, terra da Oktoberfest, recuou 5,6% e ficou pela primeira vez abaixo de 80 milhões de hectolitros. Nos mercados tradicionais, diz o diretor-geral da empresa, Thomas Raiser, o consumo de cerveja “estagna ou cai, enquanto bebidas sem álcool e de baixo teor alcoólico ganham importância”.
O lado quente fica nos emergentes. A Índia produziu quase 7% mais, chegando a 35,1 milhões de hectolitros. O continente africano foi o único em alta, com 2,6%, puxado por África do Sul, Nigéria e Etiópia. México e América do Sul também cresceram.
Para 2026, a BarthHaas não vê mudança de rota. “O crescimento na África, na Ásia e nas Américas Central e do Sul deve ser compensado pela retração na Europa e na América do Norte”, afirma Raiser.
Como todo mapa desenhado em grandes manchas, este tem exceções, e não há uma explicação única para elas. A China, maior mercado do mundo, perdeu 2,3 milhões de hectolitros e arrastou a Ásia para baixo, ao lado de Vietnã, Japão, Coreia do Sul e Mianmar. No consumo medido pela Kirin, a Europa subiu 1,4% em 2024, graças à Rússia e ao Reino Unido. E, no Brasil, os números de 2025 se contradizem: a BarthHaas estima alta, e o governo brasileiro registra queda, como o Guia da Cerveja mostrou em julho.
Por que trocar o uísque pela cerveja na Índia
Na Índia, foram os governos dos estados que mexeram na etiqueta de preço. Lá, álcool é assunto estadual: é como se São Paulo e Minas Gerais pudessem decidir, cada um, quanto custam o uísque e a cerveja em seu território. Estados como Maharashtra usaram esse poder para aumentar o tributo sobre o destilado produzido no país, de uísque a rum, e deixaram a cerveja de fora da conta.
Por lá, em junho de 2025, o imposto sobre os destilados de massa passou de três para quatro vezes e meia o custo de fabricação (de 300% para 450%), segundo a agência Reuters, citada pelo site especializado Vino Joy News.
Karnataka foi por outro caminho e pôs o álcool na balança. Desde 11 de maio, é pioneiro na Índia em cobrar o imposto pelo teor alcoólico, e não mais pelo volume: quanto mais fraca a bebida, menor a conta. A cerveja, mais leve que o uísque, ficou mais barata, de acordo com o jornal Deccan Herald. O tempo ajudou: a monção, a estação de chuvas, veio abaixo da média, e o calor se estendeu.
O efeito aparece nos balanços de quem fabrica. A United Breweries, maior cervejaria do país e controlada pela Heineken, vendeu aos distribuidores 16% mais cerveja na Índia de julho a setembro, e 38% mais nas marcas premium, como mostra o balanço divulgado em 27 de outubro. Na mesma semana, a Heineken citou a Índia entre os motores de sua alta na Ásia-Pacífico, e a AB InBev, dona da Ambev, bateu ali seu recorde para um terceiro trimestre.
E isso tudo com o copo do indiano ainda quase vazio. Cada habitante bebe, em média, 2,4 litros de cerveja por ano na Índia, o que deixa o país em 102º lugar no ranking da Kirin. O brasileiro bebe 70,3 litros, quase 30 vezes mais. “Agora é só segurar esse embalo, e pode ser um dos melhores crescimentos anuais que a categoria viu em muito tempo”, disse em setembro o presidente da AB InBev na Índia, Kartikeya Sharma, em declaração reproduzida pelo Vino Joy News.
Da vitrola ao barril compartilhado

É nesse copo por encher que a 33&Brew quer crescer. A casa segue o modelo dos bares de audição, em que a música é a atração principal, e faz a própria bebida: o cardápio é assinado por um chef conceituado por lá, Sabyasachi Gorai, e as IPAs, Session Ales (de teor alcoólico mais baixo) e sazonais ficam a cargo do cervejeiro Stephen Nelsen, da terceira geração de uma família do ofício.
O lucro animou a Optimistic Capital, gestora que investiu nela em janeiro, a apostar em mais duas cervejarias na cidade. A Brewden é um taproom (bar de cervejaria) enxuto, voltado ao público jovem e pensado para se multiplicar rápido. A 33&Craft é a versão premium, perto da MG Road, no centro de Bengaluru.
O próximo plano lembra um condomínio. Em vez de cada casa montar sua própria linha de engarrafamento e de enchimento de barril, a gestora estuda investir nessas etapas para que as cervejarias da carteira dividam conhecimento, marketing e, possivelmente, a estrutura física.
A onda, porém, foi provocada em grande parte por decreto. É uma linha tênue, já que o que separa hoje o preço da cerveja do valor do uísque é uma alíquota que cada estado pode rever na temporada seguinte.


