A produção de cevada brasileira deve bater recorde esse ano com 516,5 mil toneladas, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Apesar disso, o Brasil ainda é muito deficitário quando se trata de cevada e malte para fazer cerveja. O país é o terceiro maior produtor da bebida do mundo e para sustentar tamanha produção, ainda dependemos fortemente da importação de insumos. Essa dependência sempre foi um dos grandes desafios do mercado cervejeiro nacional, mas os últimos anos mostram sinais de mudança.
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Dados apresentados por Jeferson Caus, superintendente de Negócios da Cooperativa Agrária Agroindustrial, durante o painel “A Indústria da cerveja no Brasil: investimentos, tecnologias e o futuro pelo campo”, no Congresso “Do Grão ao Gole”, dão a dimensão da necessidade. Para dar conta da produção anual de 157.276.363 hectolitros de cerveja, o Brasil precisaria de 1.933.950 toneladas de malte, e o que produzimos por aqui são 955 mil toneladas, ou seja, um deficit de 978,95 mil toneladas. De cevada, importamos no último ano 922,5 mil toneladas, correspondendo a 77,31% da nossa necessidade.
Embora o Brasil ainda esteja muito distante da autossuficiência, a produção de cevada e malte no país vem crescendo de forma consistente. Os dados do Conab dão conta de que em 2022 registramos um recorde histórico de produção de cevada: 498,1 mil toneladas. No ano seguinte, houve uma queda para 391 mil toneladas, mas em 2024 o volume voltou a subir, alcançando 438,4 mil toneladas. Para este ano, as projeções indicam um esse novo recorde de 516,5 mil toneladas.
Produção de cevada e malte no Sul
Esse avanço é puxado especialmente pelo Paraná, maior produtor de cevada do país e sede das principais maltarias brasileiras. Em junho de 2024, o estado ganhou um reforço de peso: a inauguração da Maltaria Campos Gerais, em Ponta Grossa. O empreendimento, fruto de um investimento de R$ 1,6 bilhão das cooperativas Agrária, Frísia, Castrolanda, Capal, Bom Jesus e Coopagrícola, tem capacidade para produzir 240 mil toneladas de malte por ano. A Agrária assumiu a operação da planta, enquanto as demais cooperativas atuam junto aos produtores rurais no cultivo da cevada que abastece a indústria.
A nova maltaria ampliou de forma significativa a capacidade de malteação no estado e hoje atende exclusivamente a Heineken e a Ambev. Na inauguração, o secretário da Fazenda do Paraná, Norberto Ortigara, destacou a importância do projeto. “Hoje gastamos muito dinheiro importando malte, porque o mercado cervejeiro do Brasil é gigante e está em crescimento. Por isso é importante esse investimento das cooperativas, que fizeram esse grande empreendimento para absorver parte importante desse mercado.”
Apesar de um projeto de expansão ter sido anunciado no lançamento, que poderia dobrar a capacidade da unidade, a Agrária esclareceu que este primeiro ano de funcionamento está sendo voltado à consolidação das operações. O foco atual é incentivar o cultivo da cevada por meio do trabalho técnico das cooperativas parceiras, orientadas pelas pesquisas da FAPA (Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária) e da Fundação ABC. O objetivo é identificar as cultivares mais adaptadas às condições locais e difundir boas práticas de manejo nas lavouras.
Desafios para seguir crescendo
Para que o Brasil avance ainda mais na produção de cevada, é preciso superar alguns obstáculos. Aloísio Vilarinho, agrônomo e pesquisador da Embrapa Trigo, lembra que questões climáticas e logísticas limitam atualmente uma maior expansão. “No Rio Grande do Sul, onde há terras disponíveis e agricultores interessados no cultivo, questões como o excesso de chuvas podem comprometer a qualidade do grão. Já no Cerrado, as condições climáticas são muito boas, mas as áreas já estão ocupadas por culturas mais rentáveis, como milho, cebola e cenoura”, explica.
“Aumentar a capacidade das maltarias gera riqueza e empregos aqui no país”
Aloísio Vilarinho, agrônomo e pesquisador da Embrapa Trigo
Além disso, a concentração das maltarias na região Sul dificulta a logística do cultivo em outras partes do país. “Uma produção pequena de cevada em outra região não viabilizaria a construção de uma maltaria próxima, e as que estão no Sul preferem importar de países vizinhos do que transportar de longe, com custos altos e menos controle sobre a produção”, observa o pesquisador. Esse fator ajuda a explicar por que grande parte da cevada importada pelo Brasil vem da Argentina.
Apesar do desafio de expandir a produção de cevada em solo nacional, o pesquisador destaca a importância do crescimento recente e, especialmente, a guinada na capacidade de produção nacional de malte. “A medida que os programas de melhoramento crescem, a tendência é de que as cultivares nacionais se tornem cada vez melhores e mais adaptadas, com mais qualidade para malteação. Além disso, aumentar a capacidade das maltarias gera riqueza e empregos aqui no país”, explica.


