O dia 6 de agosto será lembrado como um marco negativo na relação entre Brasil e Estados Unidos daqui para frente. Foi nessa data que entrou em vigor o tarifaço de Trump contra nosso país, impondo uma taxa de 50% sobre produtos brasileiros importados para a terra do Tio Sam. Escaparam somente cerca de 694 itens, litados explicitamente na Ordem Executiva assinada pelo presidente americano Donald Trump no dia 30 de julho, como suco de laranja e aeronaves. A cerveja está submetida à sobretaxa norte-americana. No entanto, o impacto deve ser mínimo no mercado, já que o volume exportado para lá é pequeno e o valor relativamente baixo. Além disso, cervejarias nacionais já exploravam alternativas à exportação, que podem ser aprofundadas agora.
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Volume baixo de exportações
Os Estados Unidos recebem pouco volume de cervejas brasileiras. O país é apenas o oitavo colocado entre os maiores importadores, tendo comprado somente 460 mil litros da bebida em 2024, de acordo com números do Anuário da Cerveja 2025 — publicado pelo Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) e divulgado pelo Sidnicerv (Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja) no início de agosto. Apesar das exportações do Brasil terem crescido 43,4% em volume em geral, alcançando um total de mais de 330 milhões de litros, a fatia norte-americana é equivalente a 0,14% do total. Ou seja, o impacto deve ser mínimo.
O maior volume vai para países latino-americanos, com o Paraguai em primeiro (cerca de 220 milhões de litros ou 66,71%), seguido pela Bolívia (55 milhões ou 16.70%) e Uruguai (30 milhões ou 9.33%). As importações do Paraguai, em especial, cresceram 59,4% em volume em 2024, mostrando uma maior concentração das exportações para lá.
Outro fato curioso é que nove dos dez principais destinos da cerveja nacional são do continente americano, segundo o balanço do Mapa — e 97,7% do volume fica na América do Sul. A décima colocação fica com Países Baixos, que importou cerca de 100 mil litros no ano passado. Ao todo, a cerveja brasileira é exportada para 79 países no mundo.
Valores e balança comercial
Voltando ao caso americano, outro fator pelo qual o impacto do tarifaço de Trump deve ser reduzido na cerveja é o valor da mercadoria que vai para os Estados Unidos. Foram cerca de 370 mil dólares no total em 2024 (0,17% do total em dólares), o que resulta numa média de aproximadamente US$ 0,80 ou cerca de R$ 4,30.

Essa relação também aparece nas demais exportações para outros países. Apesar da balança comercial cervejeira do nosso país no ano passado ter apresentado o maior superávit desde 2011, com um montante de 195 milhões de dólares e crescimento de 32,5% em relação a 2023, o preço médio da cerveja brasileira foi de US$ 0,61 por litro (R$ 3,30).
Em geral, os valores de cargas importadas e exportadas já consideram também os custos de transporte. Portanto, pode-se deduzir que o produto exportado é de baixo valor agregado, possivelmente cervejas de estilos mais simples, como American Lager, de grandes cervejarias.
Após cinco anos de queda, as importações de cerveja, que já foram muito fortes no Brasil, cresceram timidamente em 2024. O aumento foi de apenas 5,1% em volume e 7,7% em valor, chegando a aproximadamente 7,5 milhões de litros e 9,3 milhões de dólares. A média foi de US$ 1,24 por litro (R$ 6,70), bem superior a das exportações.
Produção local como alternativa ao tarifaço de Trump
Outro fator a considerar é que as exportar cervejas para os Estados Unidos não é algo comum. O mercado norte-americano é o segundo maior do mundo, segundo o mais recente relatório da BarthHaas e, portanto, bem suprido de cervejas. Além disso, é mais variado que o brasileiro, tendo forte presença de cervejas artesanais, que correspondem a 13,3% do total de vendas de acordo com a Brewers Association (BA), a associação das microcervejarias dos EUA.
Mesmo assim, há espaço para produtos de outras origens por lá, principalmente os que tem diferenciais fortes. Só que eles nem sempre precisam ser importados.
Uma alternativa está na produção local de marcas brasileiras. Modelo já adotado pela Japas Cervejaria, de São Paulo (SP), desde 2019. “Optamos por produzir localmente porque facilita muito a logística, reduz custos de transporte e impostos, além de garantir que a cerveja chegue mais fresca e em melhores condições ao consumidor”, conta a sócio-proprietária e cervejeira Maíra Kimura.

Segundo Maíra, o modelo tem rodado muito bem por meio de um parceiro local. “Já estamos presentes em 18 estados e em Washington DC. A operação tem se mostrado consistente, com qualidade dentro do que esperamos, e nos permitiu alcançar consumidores e mercados que seriam mais difíceis de atingir exportando diretamente do Brasil”, diz.
Para quem está pensando em explorar o mesmo caminho, a cervejeira da Japas Cervejaria diz que o ponto-chave é despertar o interesse do parceiro local e contar com o apoio dele. “Isso torna o processo muito mais eficiente e sustentável, especialmente para marcas que têm uma proposta diferenciada e conseguem se destacar em um mercado competitivo”, completa.


