Quem é o produtor de cerveja caseira no Brasil? Essa pergunta foi muitas vezes respondida com um palpite ou de maneira superficial desde que o movimento começou aqui no Brasil — a primeira Associação de Cervejeiros Caseiros (Acerva) foi fundada no Rio de Janeiro (RJ) em 2006. No entanto, agora é possível ter uma definição muito mais clara. E ele é mais engenheiro do que artista, revela a edição 2025 do Censo da Cerveja Caseira Brasileira, realizada pelo podcast Brassagem Forte, hoje parte da consultoria Pint.Network.
A pesquisa por si só é um feito inédito no país: teve a participação de 2.770 produtores de todos os 27 estados, a maior amostragem já realizada na história do hobby no Brasil. “Com a ajuda dos patrocinadores institucionais, chegamos a uma abrangência muito grande, superando pesquisas similares feitas por veículos maiores, como o Brulosophy”, explica Henrique Boaventura, sócio da Pint.Network e apresentador do Brassagem Forte.
LEIA TAMBÉM:
São Paulo liderou o percentual de respondentes, com 29,9% do total, seguido por Santa Catarina (12,1%) e Minas Gerais (10,1%). No entanto, se considerado o número de participantes por 100 mil habitantes — uma medida muito mais proporcional —, Santa Catarina lidera (4,39), seguida pelo Distrito Federal (2,8) e Rio Grande do Sul (2,47).
O volume de dados transforma percepções antigas em estatísticas palpáveis desse importante segmento para a cerveja artesanal brasileira. Muitos que hoje são cervejeiros profissionais, sócios de cervejarias e outros negócios na área começaram produzindo cerveja caseira. Além disso, cada cervejeiro é um entusiasta e um advogado da cerveja artesanal, divulgando sua paixão e ampliando o mercado.
Os dados mostram que a produção caseira é um setor consolidado, mas que, por outro lado, está quase estagnado. E revela um perfil muito técnico do produtor num meio com grandes barreiras de entrada.
Mais engenheiro do que artista

O Censo da Cerveja Caseira Brasileira traçou um retrato muito claro do produtor brasileiro. A maioria absoluta são homens (97%), brancos (76,4%), e tem entre 40 e 49 anos (42,2%), com formação superior completa ou pós-graduado (65,4%). A maior fatia dos cervejeiros (38,1%) ganha acima de R$ 10 mil mensais, cerca de três vezes mais que a renda média nacional de aproximadamente R$ 3,5 mil. Outros 32,5% ganham entre R$ 5 e R$ 10 mil.
Mas o que explica essa renda? A profissão. A Engenharia lidera (20,1%), seguida pela área de TI (15,2%). Juntas, elas têm mais participação na área do que a soma das outras oito profissões que figuram no top 10 do ranking — áreas da Saúde, Vendas, Educação, o próprio meio cervejeiro, Direito, Ciências, além de aposentados e empresários.
Isso mostra que o hobby atrai quem busca precisão, processos e controle. Diferente do que já se achou um dia, não se trata apenas de arte ou gastronomia. A alta escolaridade técnica transformou as garagens em pequenos laboratórios de engenharia doméstica.
Baixa renovação na cerveja caseira
Para além do perfil, um dado preocupante é que apenas 6,6% dos respondentes começou na cerveja caseira há menos de um ano, indicando uma taxa muito baixa de renovação. “Isso é um sinal de que o interesse pelo hobby diminuiu, o que acende um alerta para o setor”, diz Henrique Boaventura.
“A participação de somente 3% de mulheres não surpreende, mas é muito negativa. Ou existem mais mulheres no hobby que não conseguimos alcançar, o que é ruim, ou realmente a participação é tão baixa, o que é ainda pior”, completa.
Considerando o perfil, será que o hobby se tornou técnico demais ou criou uma espécie de barreira intelectual? Boaventura não entende dessa forma. “Não vemos exatamente como uma barreira intelectual, mas cultural. Entendemos que a comunicação de quem está no setor talvez esteja ‘viciada’, falando para o mesmo perfil. Isso se reflete não só na concentração de profissões, mas também de gênero, renda e outros fatores”, analisa Boaventura.
“Comparemos com a onda de pessoas fazendo pão na pandemia. Foi um hobby que tinha elementos mais emocionais vinculados, como o contato e manipulação dos ingredientes, criar e nutrir a levedura, produzir um alimento que pudesse ser desfrutado por amigos e familiares, e outras questões mais emocionais. Já a comunicação cervejeira fala muito em atributos técnicos e sensoriais, com argumentos bastante técnicos. Falhando, por vezes, em despertar um interesse mais emocional que poderia depois ser complementado com o conhecimento técnico”.
Eficiência na cerveja caseira
O Censo 2025 também trouxe muitas informações sobre a prática do hobby em si. Bem como sobre os motivos que levaram alguns a pensar em abandonar o lazer, ou desistir de fato. “O volume de respondentes que parou ou pensou em parar é bastante alto, em torno de 30%, o que também mostra um risco”, diz o podcaster.
A falta de tempo é o maior inimigo do hobby, citada por 34,6% dos respondentes como o principal motivo para pensar em parar. “Entre os que pensaram em parar ou pararam, a quantidade de moradores de apartamento é 10 pontos percentuais (25% contra 35%) maior do que de casas. O que confirma que espaço é uma questão muito relevante também”, explica Boaventura.
A resposta de alguns produtores para sobreviver nessas condições é investir em tecnologia. O uso de softwares na nuvem disparou. O Brewfather assumiu a liderança do mercado com 48,5% da preferência, superando programas antigos focados apenas em desktop, como BeerSmith.
Além disso, os equipamentos grandes de três panelas estão perdendo espaço para a praticidade. O método BIAB (Brew in a Bag) lidera com 31,9%, seguido de perto pelos sistemas Single Vessel / All-in-One (modelo de panelas elétricas automatizadas, as pipoqueiras) com 27,4%.
Tamanho e custo

Mas o que os produtores ganham de fato fazendo cerveja em casa? Mais satisfação técnica do que economia. Antigamente, muitos acreditavam que era significativamente mais barato produzir em casa. Mas não é bem assim. A maioria dos respondentes (35,39%) disse produzir lotes de 20 litros a um custo médio de R$ 9,80 por litro. Embora seja competitivo com a artesanal comercial, exige investimento inicial alto, tempo e espaço na maior parte das vezes.
Já produzir lotes de menos de 10 litros provou-se ineficiente. Custa quase o dobro (R$ 19,00/L). O que pode explicar a morte dos mini-equipamentos (1,7% dos respondentes). O ponto de melhor custo-benefício parece ser de 40 litros (R$ 6,20) ou mais (R$ 6,40) — tamanhos usados por 39,34% dos respondentes, somando ambas as faixas.
Isso leva a outra estatística interessante: o volume médio de produção aumenta conforme a experiência do cervejeiro. Quem está a menos de um ano no hobby produz 21,3 litros por lote. Já que está a mais de dez anos chega a 35,4 litros.
Estilos e investimento
“Um resultado que contrariou o que esperavam foi a concentração de maioria dos respondentes em estilos mais comuns, como APA/IPA (61,6%) e Ales genéricas (30,8%). Embora uma parcela dos cervejeiros caseiros goste de experimentar com estilos diferentes (22%), maioria repete os mesmos estilos. Somando isso ao fato da maioria seguir o BJCP (84,2%), vemos que consistência e evolução na qualidade é mais relevante para a maioria dos respondentes que variedade”, conta o apresentador do Brassagem Forte.
O levantamento mostra também um comportamento de “consumo duplo”. Cerca de dois terços dos respondentes (68,2%) disse gastar entre R$ 100 e R$ 300 por brassagem. Ao mesmo tempo, 44% diz gastar em média o mesmo valor comprando cervejas comerciais. Isso movimenta toda a cadeia, de lojas de insumos a importadoras.
A pesquisa completa pode ser acessada no site oficial. O podcast Brassagem forte pode ser ouvido nas plataformas de áudio como Spotify.


