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Produtor de cerveja caseira no Brasil é mais engenheiro do que artista, revela pesquisa

Luís Celso Jr.
Por Luís Celso Jr.
9 de janeiro de 2026
Atualizado em: 9 de janeiro de 2026
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    Produtor de cerveja caseira no Brasil é mais engenheiro do que artista, mostra o Censo da Cerveja Caseira Brasileira (Crédito: Canva.com)
    Produtor de cerveja caseira no Brasil é mais engenheiro do que artista, mostra o Censo da Cerveja Caseira Brasileira (Crédito: Canva.com)

    Quem é o produtor de cerveja caseira no Brasil? Essa pergunta foi muitas vezes respondida com um palpite ou de maneira superficial desde que o movimento começou aqui no Brasil — a primeira Associação de Cervejeiros Caseiros (Acerva) foi fundada no Rio de Janeiro (RJ) em 2006. No entanto, agora é possível ter uma definição muito mais clara. E ele é mais engenheiro do que artista, revela a edição 2025 do Censo da Cerveja Caseira Brasileira, realizada pelo podcast Brassagem Forte, hoje parte da consultoria Pint.Network.

    A pesquisa por si só é um feito inédito no país: teve a participação de 2.770 produtores de todos os 27 estados, a maior amostragem já realizada na história do hobby no Brasil. “Com a ajuda dos patrocinadores institucionais, chegamos a uma abrangência muito grande, superando pesquisas similares feitas por veículos maiores, como o Brulosophy”, explica Henrique Boaventura, sócio da Pint.Network e apresentador do Brassagem Forte.

    LEIA TAMBÉM:

    Balcão do Advogado: Ao cervejeiro caseiro, com carinho

    São Paulo liderou o percentual de respondentes, com 29,9% do total, seguido por Santa Catarina (12,1%) e Minas Gerais (10,1%). No entanto, se considerado o número de participantes por 100 mil habitantes — uma medida muito mais proporcional —, Santa Catarina lidera (4,39), seguida pelo Distrito Federal (2,8) e Rio Grande do Sul (2,47).

    O volume de dados transforma percepções antigas em estatísticas palpáveis desse importante segmento para a cerveja artesanal brasileira. Muitos que hoje são cervejeiros profissionais, sócios de cervejarias e outros negócios na área começaram produzindo cerveja caseira. Além disso, cada cervejeiro é um entusiasta e um advogado da cerveja artesanal, divulgando sua paixão e ampliando o mercado.

    Os dados mostram que a produção caseira é um setor consolidado, mas que, por outro lado, está quase estagnado. E revela um perfil muito técnico do produtor num meio com grandes barreiras de entrada.

    Mais engenheiro do que artista

    Ranking das 10 profissões mais predominantes entre os produtores de cerveja caseira (Reprodução / site oficial)
    Ranking das 10 profissões mais predominantes entre os produtores de cerveja caseira (Reprodução / site oficial)

    O Censo da Cerveja Caseira Brasileira traçou um retrato muito claro do produtor brasileiro. A maioria absoluta são homens (97%), brancos (76,4%), e tem entre 40 e 49 anos (42,2%), com formação superior completa ou pós-graduado (65,4%). A maior fatia dos cervejeiros (38,1%) ganha acima de R$ 10 mil mensais, cerca de três vezes mais que a renda média nacional de aproximadamente R$ 3,5 mil. Outros 32,5% ganham entre R$ 5 e R$ 10 mil.

    Mas o que explica essa renda? A profissão. A Engenharia lidera (20,1%), seguida pela área de TI (15,2%). Juntas, elas têm mais participação na área do que a soma das outras oito profissões que figuram no top 10 do ranking — áreas da Saúde, Vendas, Educação, o próprio meio cervejeiro, Direito, Ciências, além de aposentados e empresários.

    Isso mostra que o hobby atrai quem busca precisão, processos e controle. Diferente do que já se achou um dia, não se trata apenas de arte ou gastronomia. A alta escolaridade técnica transformou as garagens em pequenos laboratórios de engenharia doméstica.

    Baixa renovação na cerveja caseira

    Para além do perfil, um dado preocupante é que apenas 6,6% dos respondentes começou na cerveja caseira há menos de um ano, indicando uma taxa muito baixa de renovação. “Isso é um sinal de que o interesse pelo hobby diminuiu, o que acende um alerta para o setor”, diz Henrique Boaventura.

    “A participação de somente 3% de mulheres não surpreende, mas é muito negativa. Ou existem mais mulheres no hobby que não conseguimos alcançar, o que é ruim, ou realmente a participação é tão baixa, o que é ainda pior”, completa.

    Considerando o perfil, será que o hobby se tornou técnico demais ou criou uma espécie de barreira intelectual? Boaventura não entende dessa forma. “Não vemos exatamente como uma barreira intelectual, mas cultural. Entendemos que a comunicação de quem está no setor talvez esteja ‘viciada’, falando para o mesmo perfil. Isso se reflete não só na concentração de profissões, mas também de gênero, renda e outros fatores”, analisa Boaventura.

    “Comparemos com a onda de pessoas fazendo pão na pandemia. Foi um hobby que tinha elementos mais emocionais vinculados, como o contato e manipulação dos ingredientes, criar e nutrir a levedura, produzir um alimento que pudesse ser desfrutado por amigos e familiares, e outras questões mais emocionais. Já a comunicação cervejeira fala muito em atributos técnicos e sensoriais, com argumentos bastante técnicos. Falhando, por vezes, em despertar um interesse mais emocional que poderia depois ser complementado com o conhecimento técnico”.

    Eficiência na cerveja caseira

    O Censo 2025 também trouxe muitas informações sobre a prática do hobby em si. Bem como sobre os motivos que levaram alguns a pensar em abandonar o lazer, ou desistir de fato. “O volume de respondentes que parou ou pensou em parar é bastante alto, em torno de 30%, o que também mostra um risco”, diz o podcaster.

    A falta de tempo é o maior inimigo do hobby, citada por 34,6% dos respondentes como o principal motivo para pensar em parar. “Entre os que pensaram em parar ou pararam, a quantidade de moradores de apartamento é 10 pontos percentuais (25% contra 35%) maior do que de casas. O que confirma que espaço é uma questão muito relevante também”, explica Boaventura.

    A resposta de alguns produtores para sobreviver nessas condições é investir em tecnologia. O uso de softwares na nuvem disparou. O Brewfather assumiu a liderança do mercado com 48,5% da preferência, superando programas antigos focados apenas em desktop, como BeerSmith.

    Além disso, os equipamentos grandes de três panelas estão perdendo espaço para a praticidade. O método BIAB (Brew in a Bag) lidera com 31,9%, seguido de perto pelos sistemas Single Vessel / All-in-One (modelo de panelas elétricas automatizadas, as pipoqueiras) com 27,4%.

    Tamanho e custo

    Relação entre tamanho dos lotes e custos de produção (Reprodução / Site oficial)
    Relação entre tamanho dos lotes e custos de produção (Reprodução / Site oficial)

    Mas o que os produtores ganham de fato fazendo cerveja em casa? Mais satisfação técnica do que economia. Antigamente, muitos acreditavam que era significativamente mais barato produzir em casa. Mas não é bem assim. A maioria dos respondentes (35,39%) disse produzir lotes de 20 litros a um custo médio de R$ 9,80 por litro. Embora seja competitivo com a artesanal comercial, exige investimento inicial alto, tempo e espaço na maior parte das vezes.

    Já produzir lotes de menos de 10 litros provou-se ineficiente. Custa quase o dobro (R$ 19,00/L). O que pode explicar a morte dos mini-equipamentos (1,7% dos respondentes). O ponto de melhor custo-benefício parece ser de 40 litros (R$ 6,20) ou mais (R$ 6,40) — tamanhos usados por 39,34% dos respondentes, somando ambas as faixas.

    Isso leva a outra estatística interessante: o volume médio de produção aumenta conforme a experiência do cervejeiro. Quem está a menos de um ano no hobby produz 21,3 litros por lote. Já que está a mais de dez anos chega a 35,4 litros.

    Estilos e investimento

    “Um resultado que contrariou o que esperavam foi a concentração de maioria dos respondentes em estilos mais comuns, como APA/IPA (61,6%) e Ales genéricas (30,8%). Embora uma parcela dos cervejeiros caseiros goste de experimentar com estilos diferentes (22%), maioria repete os mesmos estilos. Somando isso ao fato da maioria seguir o BJCP (84,2%), vemos que consistência e evolução na qualidade é mais relevante para a maioria dos respondentes que variedade”, conta o apresentador do Brassagem Forte.

    O levantamento mostra também um comportamento de “consumo duplo”. Cerca de dois terços dos respondentes (68,2%) disse gastar entre R$ 100 e R$ 300 por brassagem. Ao mesmo tempo, 44% diz gastar em média o mesmo valor comprando cervejas comerciais. Isso movimenta toda a cadeia, de lojas de insumos a importadoras.

    A pesquisa completa pode ser acessada no site oficial. O podcast Brassagem forte pode ser ouvido nas plataformas de áudio como Spotify.

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      Luís Celso Jr.
      Luís Celso Jr.
      É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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