Sara Araújo, a voz por trás do perfil de Instagram “Negra Sommelier”, é muito mais do que a figura central em um episódio de racismo e misoginia que chocou o setor cervejeiro em 2020. Sua trajetória marca como a educação é um importante motor de transformação e de resistência na luta incansável de uma mulher negra que desafiou estruturas de violência e exclusão. Sara é a soma de múltiplas camadas, que incluem a figura de mãe, acadêmica, servidora pública, sommelière e ativista.
Do quilombo urbano às mudanças de cidade
Sara de Jesus Araújo completa 48 anos em novembro. Ela nasceu em Salvador (BA) em 1977, e passou a primeira infância no bairro de Beiru — um quilombo urbano que se transformou em uma área periférica da capital baiana.
Sua mãe, Rita de Cássia, uma mulher preta e retinta segundo a própria Sara, teve uma vida de privações: foi forçada a ser trabalhadora doméstica aos 8 anos após perder a mãe em um incêndio. Trabalhou em casas de família até a juventude. Enfrentou a falta de responsabilidade dos companheiros de vida, que a abandonaram com as crianças — primeiro, foi o pai do irmão de Sara e, depois, o pai de Sara. Ela teve que construir a vida lidando sozinha com dificuldades, tendo apoio de uma irmã, que vendia doces de tabuleiro.
Sara cresceu observando a força das mulheres à sua volta, em um ambiente de extrema precarização que desvalorizava os saberes. Ela conta que enfrentou diversas violências, incluindo a falta de acesso à escola e à comida. “A fome foi minha companheira por muito tempo”, relembra.
Trabalho precoce e o poder da educação
As dificuldades moldaram a resiliência de Sara. Aos 8 anos, já morando em Paraguaçu, ela começou a trabalhar vendendo os doces tradicionais baianos — como bolo, banana-real e cavaquinho —, que eram feitos por sua mãe. “Eu andava aquela cidade inteira todos os dias vendendo os doces para poder levar dinheiro para casa”, diz.
Aos 12 anos, mudou-se para Bauru, no interior de São Paulo, e começou a trabalhar como empregada doméstica e babá. Foi na casa dos “patrões” que ela viu a educação como uma ferramenta primordial de ascensão e valorização pessoal. “Minha mãe não teve acesso à escola. Eu via os filhos das patroas crescendo pela educação, e percebi que a educação tinha um poder”, conta.
Aos 14 anos, Sara Araújo retomou os estudos na quarta série, fazendo supletivo à noite, enquanto “trabalhava e morava no serviço”, atuando como empregada doméstica.
Após a separação do pai de seu filho, Sara voltou a trabalhar como doméstica e prestou concurso. Foi aprovada na prefeitura de Bauru, onde trabalhou por quase 10 anos vendendo cartões de Área Azul, usados para estacionamento nas áreas delimitadas pela prefeitura.

Foi nesta época que ela desenvolveu uma militância ativa pela educação, reunindo amigos em sua garagem aos finais de semana para estudar para o vestibular. Era sua única via para ela, a educação era um “motor de transformação”.
Graduação e a luta contra o preconceito aos cotistas
O sonho de fazer faculdade se realizou em 2007, quando Sara Araújo foi aprovada em Direito por meio do ProUni (Programa Universidade Para Todos), que concede bolsa de estudo em faculdades particulares. Sara conseguiu o benefício de 100% em uma das faculdades mais elitizadas de Bauru.
Poderia ser o início de uma vivência baseada na construção do conhecimento e do respeito mútuo, enriquecido pela troca de ideias. Mas, o Brasil não é para amadores. A experiência foi violenta, com professores e colegas reproduzindo preconceitos. Sara conta que ouvia com bastante frequência que, já que ela havia entrado por cotas na universidade, seria barrada no exame de proficiência da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que não tinha políticas de inclusão na época.
Sara reagiu. Sua única arma era o estudo. Ela se formou em 2012 e provou que todos estavam errados quando passou na prova mais difícil dentro da OAB — direito tributário. “Optei por fazer Direito Tributário porque eu sabia que era o Direito mais difícil de alguém acertar e passar. E eu fiz, e eu passei. Só para mostrar para aquelas pessoas que elas estavam totalmente equivocadas e erradas”, pontua.
A graduação foi marcada por desafios. Ela, por vezes, tinha que levar o filho para as aulas quando não tinha com quem deixar. “Quando eu não tinha ninguém para ficar com meu filho, levava meu filho e dizia ao professor ‘eu preciso assistir essa aula’. Meu filho, uma criança de 10 anos, cansada, querendo dormir, e ficava ali comigo, firme, colorindo os cadernos”, relembra.
E, como se uma graduação em Direito já não fosse suficiente, Sara começou uma nova faculdade em 2016. Desta vez, com um gostinho especial. Entrou no curso de Ciências Sociais na UEM (Universidade Estadual de Maringá), a mesma universidade e no mesmo vestibular em que seu filho, Luiz Felipe, foi aprovado em Direito. Hoje ele tem 28 anos, está formado e já concluiu três pós-graduações.
Essa luta pela educação e mobilidade social rendeu-lhe o Prêmio Zumbi dos Palmares em 2017. Em 2023, publicou um artigo em co-autoria com o filho Luiz na antologia “Quando o racismo bate à porta”.
O olhar sociológico de Sara Araújo
A atuação profissional de Sara se estende à Defensoria Pública de Maringá, no Paraná, onde trabalha como servidora há quase 10 anos. Seu trabalho na área de Direito de Família exige conciliação e diálogo, o que desmente as críticas de ser “agressiva” no meio cervejeiro.
Mestranda em Ciências Sociais, Sara possui uma visão aprofundada do racismo estrutural, definindo-o como a “tecnologia do marcador da diferença no Brasil”.
O corpo preto no mundo da cerveja
Foi em meio à luta diária e aos trabalhos em bares aos finais de semana para complementar renda, que Sara Araújo se aproximou do universo cervejeiro.
Mas, em março de 2018, ao participar de um festival de cerveja em Maringá, ela foi muito maltratada, em um contexto em que ela identificou o racismo em pura forma.
LEIA TAMBÉM:
- Sommelière Sara Araujo sofre ataques racistas; Abracerva se posiciona
- Sara Araujo comenta ataques racistas: “Tenho medo de encontrar essas pessoas”
- Artigo da Sara: “Estou tentando me curar e lutando por justiça”
“Era um festival caro, o ingresso dava direito a uma pulseira e um copo. O resto, tudo tinha que comprar lá. E eu comprei dois ingressos, fui com meu filho [que nesta época já era maior de idade]”, conta.
“Em um dado momento, fui pegar uma cerveja para a gente. Pedi a carta, vi um nome legal, e falei pro rapaz: Ah, eu quero uma IPA [com a pronúncia em português, ípa]. Ele falou ‘não é IPA [em português], é I.P.A [na pronúncia em inglês, ‘ai pi ai’]. Eu perguntei: o que é ‘ai-pi-ai’? Ele não explicou. Super grosso, sabe? Ali já deu um desânimo gigante. Como nunca tinha tomado, eu pedi dois copos, para mim e meu filho. Nisso, chegou um casal branco e perguntou a mesma coisa. Ele começou a dar uma aula para a mulher, super gentil, super doce. Eu fiquei sem acreditar no que estava ouvindo e vendo”, relembra.
“A primeira leitura que fiz, foi que ele era ogro e machista. Mas, no momento em que foi simpático com a moça branca, eu entendi que não se trava de machismo, só. Ali, no meu caso, se trava de racismo.”
Ela relembra que ficou ruminando o episódio durante muito tempo. O filho dela, vendo aquela cena, sugeriu: “Mãe, você gosta de tomar cerveja, você gosta de cozinhar, você gosta de contar história, gosta de literatura. Por que você não faz no Instagram e mistura tudo isso? É sua cara”, falou.
O choque do que viveu no festival a motivou a abrir a página de Instagram e a fazer o curso de sommelier de cerveja. Para ela, o conhecimento era inegociável: “Entendi que o conhecimento é algo que ninguém tira de você. Comecei a fazer rifa para pagar o curso porque o custo era alto”.

Seu objetivo era que outras pessoas negras tivessem autonomia e dignidade, buscando que elas “tivessem autonomia para escolher, tivessem autonomia para chegar e pedir e que elas não fossem ridicularizadas”. “Não quero ninguém me negando informação por conta de que meu corpo é preto”, afirma.
Ela conta que sua luta é contra o epistemicídio e a invalidação do conhecimento negro. E lamenta que a sociedade avance pouco, vendo o movimento do Black Lives Matter, em que muitos mudaram seus ícones nas redes sociais por “tela preta” em 2020, como “puro hype”.
Saberes ancestrais
Sara também questiona a academia, afirmando que ela “deforma o conhecimento, quando há muito saber no terreiro, no quilombo, na periferia, onde a vida é mais dura”, o que não é valorizado pelas universidades, por exemplo.
Ela conta que, apesar de suas duas graduações, pós-graduação e mestrado, Sara era frequentemente convidada para palestras onde pediam “contação de caso”, retirando o valor de seu conhecimento teórico.
Ela também sofreu resistência por se posicionar. E lamenta que quando uma mulher negra se manifesta, sua voz “vira um corpo marcado” e ela é taxada de “autoritária”.
Diante de toda a violência, sua arma é o conhecimento. “A minha palavra, a minha arma são os livros, a minha arma é não me deixar cooptar por essa violência”.
Sara segue no mestrado e em sua luta diária contra o racismo, construindo um caminho único que enriquece o país.


