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Cultura

Consciência Negra: A cerveja e a obra crucial da filósofa Sueli Carneiro

Redação Guia da Cerveja
Por Redação Guia da Cerveja
20 de novembro de 2018
Atualizado em: 3 de dezembro de 2018
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    sueli carneiro
    sueli carneiro

    Uma das mais decisivas pensadoras brasileiras da atualidade receberá nesta terça-feira uma importante homenagem. E ela virá com notas de lúpulo africano. Para celebrar o Dia da Consciência Negra, a Goose Island Sisterhood – confraria feminina da tradicional norte-americana Goose Island – lançará uma bebida inspirada em Sueli Carneiro.

    A homenagem vem reforçar uma trajetória rica e de extrema abrangência histórica, social e política. Filósofa, escritora e uma das mais importantes ativistas do movimento social negro brasileiro, Sueli Carneiro é fundadora e atual coordenadora executiva do Geledés – Instituto da Mulher Negra.

    Fundado em abril de 1988, o Geledés luta em defesa de mulheres e negros e, também, contra as formas de desigualdade e discriminação que limitam a realização da plena cidadania, como a lesbofobia, a homofobia, os preconceitos regionais e de credo. Seu nome veio inspirado no termo Gèlède, uma forma de sociedade secreta feminina de caráter religioso existente nas sociedades tradicionais yorubás.

    Mas não é apenas com sua atuação no instituto que Sueli Carneiro conquistou espaço decisivo na sociedade brasileira. Ganhadora do Prêmio Itaú Cultural 30 Anos em 2017 e do Prêmio Trip Transformadores em 2018, a filósofa atuou decisivamente na construção do movimento negro e feminista do país. Tornou-se, assim, mesmo diante dos constantes e cada vez mais brutais ataques às minorias, uma das grandes referências na tentativa de formulação de uma nação menos exclusiva.

    “A Sueli é uma figura muito importante no Brasil para o movimento negro, para o movimento feminista e para o movimento de mulheres negras”, explica a escritora e pesquisadora Bianca Santana, que está trabalhando em uma biografia sobre a pensadora. “Escutei certa vez em uma entrevista sobre ela, de uma feminista das antigas, que o feminismo brasileiro hoje reconhece a diferença de raça e classe entre mulheres, o que é visto como um avanço internacionalmente. E isso se deve às feministas negras e especialmente à Sueli Carneiro.”

    Autora do importante livro Quando me Descobri Negra e uma das três representantes brasileiras na edição deste ano da Feira do Livro de Frankfurt, a mais importante festa literária do mundo, Bianca conta que Sueli sempre teve uma natural habilidade política, o que foi decisivo para o avanço institucional da luta contra o racismo.

    “A Sueli trabalhou pesado para colocar o combate ao racismo como pauta dos direitos humanos, e isso foi uma construção política que não foi fácil de se fazer. E, de fato, ela enegreceu o feminismo”, aponta a escritora. “Ela tem uma habilidade política extraordinária. Consegue compor com pessoas muito diferentes, seja com homem branco, seja com pessoas com concepções políticas realmente diferentes. Tem uma inteligência política enorme para fazer as composições necessárias.”

    Sueli também foi decisiva na construção de outras pautas fundamentais nas últimas décadas. É o caso, por exemplo, das cotas nas universidades públicas. “Não há nada do que ocorreu nos últimos 30 anos, seja no movimento negro ou de mulheres, que não passa necessariamente por ela. Você pega as cotas e ela foi essencial para que a pauta fosse colocada na agenda, para que o debate público acontecesse, para que as políticas fossem implementadas.”

    Além da habilidade política e da representatividade em temas fundamentais, Sueli tem uma concepção teórica muito aguçada, segundo Bianca. “Ela é brilhante, realmente muito inteligente, então é muito rápida, articulada, sensível, intuitiva”. Compreende, ainda, a importância da luta coletiva – e que a luta só pode ser travada no coletivo. “Mesmo com todas essas características, ela não se tornou um ícone, não se afastou das pessoas, não virou celebridade. Muito pelo contrário”.

    O Geledés, acrescenta a escritora, é um exemplo dessa capacidade de articulação coletiva. “O portal do Geledés tem uma importância gigante no combate ao racismo. Muitas vezes ele se juntou a outras organizações para travar a luta necessária”, complementa Bianca, antes de arrematar.

    “Então, ela é alguém brilhante individualmente e que consegue articular a luta coletiva. É generosa e, como formuladora teórica, é uma das pensadoras mais brilhantes que temos. Mas o Brasil tem isso: não reconhece quem produz aqui, e o mundo tampouco reconhece quem produz em português. Ainda assim, o pouco dela traduzido ao inglês roda bastante. Precisamos ter mais da produção dela circulando por aqui e lá fora, pois ela é muito brilhante, fora do padrão mesmo.”

    A cerveja de Sueli
    A homenagem à pensadora parece ter sido rigorosamente pensada pela Goose Island. O estilo que a brindará, afinal, será o African IPA, uma India Pale Ale com lúpulos africanos (african queen e southern passion no dry hopping). Tem coloração cobre clara, aromas frutados e cítricos e o amargor bem presente, com 5,5% de teor alcoólico e 55 IBUs. Por indicação de Sueli, o lucro da cerveja será doado ao Geledés.

    Sueli no processo de produção de sua cerveja

    “Fiquei muito contente com essa homenagem. Não estamos aqui apenas para falar sobre o lançamento de uma nova cerveja, mas para trazer essa discussão e reflexão para a realidade das pessoas. Uma mesa de bar também pode ser um ótimo lugar para debater diversos temas e novas ideias com seriedade”, garante Sueli.

    A escolha pela filósofa como homenageada, aliás, foi quase uma unanimidade na Goose Island Sisterhood. Surgiu quando Simone Gomes, Thami Dias e Stephanie Ribeiro, integrantes da confraria e representantes do movimento negro, buscavam uma referência no ativismo. Rapidamente, chegaram a ela.

    “Sueli Carneiro é uma mulher que precisa ser lembrada pela sua atuação na discussão sobre gênero e raça no Brasil. Falamos muito sobre feminismo hoje em dia em espaços que não conseguiríamos ter legitimidade. Não foi à toa que isso aconteceu. Isso é fruto do trabalho de inúmeras mulheres, inclusive da Sueli. Somos mulheres negras e, na nossa sociedade, as coisas não são fáceis e não são dadas para a gente”, aponta Stephanie.

    “Todas as cervejas da Confraria Sisterhood contam com a participação de diversas mulheres, já amantes e conhecedoras de cerveja ou até mesmo aquelas que querem saber um pouco mais sobre a confraria”, acrescenta Beatriz Ruiz, gerente de marketing da Goose Island e idealizadora do Sisterhood. “Em um mês marcado pelo Dia da Consciência Negra, buscamos uma pessoa que representasse bem o poder feminino e a cultura negra.”

    A Sueli será a oitava cerveja – os rótulos anteriores foram Carolina, Enedina, Nísia, Luz, Helô, Kitty e Giu – lançada pela Goose Island Sisterhood, grupo formado no ano passado por representantes de entidades, ativistas, cervejeiras e mulheres diversas. A confraria se reúne periodicamente para falar sobre universo cervejeiro e empoderamento feminino.

    O lançamento oficial da nova cerveja, que inicialmente será vendida apenas em chopp, será no dia 25 de novembro, a partir das 16h, no Brewhhouse de Goose Island, na Rua Baltazar Carrasco, Pinheiros, em São Paulo. Mas, nesta terça, algumas pessoas poderão prová-la no evento Desse Lado da Cor, no House of All, a partir das 14h.

     

    Leia, também, no Guia da Cerveja:

    Entrevista: A incrível raiz africana da Otim’Bé, a cerveja de Ya e Lumumba

    O abismo sublime: A turbulenta relação que une cerveja, álcool e literatura russa

    Elas passarão: Uma conversa com Titi Müller sobre o Mestre Cervejeiro

     

     

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