
De tanto ouvir falar em Copa do Mundo, resolvi fazer minha própria convocação de uma Seleção Brasileira de cervejas: onze estilos que, para mim, são craques do jogo. Até porque eu entendo mais de cerveja do que de futebol e, se tem algo pelo qual eu visto a camisa, é o mercado cervejeiro.
E como, neste espaço, a técnica, a juíza e a comentarista de botequim sou eu, está aberta a escalação da minha Seleção Brasileira cervejeira. Você pode pedir o VAR, discordar da convocação e até reclamar da ausência daquele estilo que merecia uma chance. Mas, se não concordar, vá ao BAR, vá proVAR e desmistificar você o seu próprio PALADAR.
Precisei fazer um esforço extra e pedir ajuda ao banco, com o especialista aqui em casa: qual seria o esquema tático para organizar esse time? Acabei escolhendo um 3-4-3, e explico.
Na defesa: o time de guarda da Seleção Brasileira
Escolhi Barley Wine, Imperial Stout e Manipueira.
Guardar uma cerveja nem precisa significar décadas de espera. Às vezes, um ano em uma cervejeira já é um exercício considerável de paciência e temperatura. Mas nem todo estilo sobrevive bem ao tempo. Algumas receitas pedem frescor, consumo rápido, espuma viva e um abridor sem muita cerimônia. Aqui, a defesa entra para proteger outra coisa: uma espera sem pressa ou uma estação mais fria, um brinde especial de ocasião ou não, uma visita inesperada. Uma garrafa nem sempre precisa pedir ocasião.
Nem só de geladeira se faz maturação. Algumas cervejas habitam bem fundos de guarda-roupa, cantos escuros e lugares de baixa umidade. Mas o tempo também pode ser vilão. Não vale segurar demais a ansiedade de beber bem, nem transformar toda e qualquer garrafa em relíquia. E, nessa escalação, também defende a nossa brasilidade, o fazer em casa, a dancinha simpática, mesmo que ácida, funk, de sabores que a gente cria por aqui.
No meio-campo: o time popular, que faz o jogo rolar
Escolhi Light Lager, IPA, Malzbier e Lagers escuras. E, como queridinha da técnica, a Juicy IPA: minha camisa 10 do momento.
O meio-campo é onde a partida acontece. É onde a bola circula, onde se constrói a jogada. Aqui entram os estilos que conversam com o público de formas muito diferentes e de forma muito ampla. Como aponta o Anuário do MAPA 2026, com referência aos dados de 2025, as cervejas puro malte têm espaço, mas quem domina o campo são as cervejas feitas também com outros grãos. Nem só de cevada é feito esse jogo e sempre foi assim e sempre será. E talvez seja importante olhar para isso menos como defeito e mais como parte da história da categoria no Brasil. Lager é regra. As outras, muitas vezes, vivem do tempo de acréscimo que o consumidor decide dar. O consumidor é o juiz.
No ataque: o time agressivo
Escolhi Gose, Catharina Sour e Quadrupel.
Vamos à acidez. Vamos ao frutado brasileiro. Vamos às notas de fermentação. Vamos ao salgado, ao maltado, ao clássico, ao tradicional e ao inovador. O importante é fazer gol. Esse ataque é para marcar sabor. E sabor, vale lembrar, não precisa atacar o paladar alheio. Quase controverso, eu sei. Mas o seu gol, quando você marca suas preferências, pode ser de cabeça, de calcanhar, com paradinha, de longe, sem querer ou até contra. O que vale é arriscar degustar. O sal e a acidez são como quem cruza uma bola inesperada. O malte é uma nota que pode trazer bastante complexidade. E o amargor, querendo ou não, traz equilíbrio, mesmo que muitas vezes não seja usado como destaque.
No gol: Saison
Por fim, no gol, a Saison.
Porque vai bem com muita coisa, é flexível. Porque carrega várias histórias que não serão contadas, não foram escritas, não foram cantadas, não foram desenhadas. Uma cerveja que vem da ideia do campo, do trabalho agrícola, de um tempero próprio e também do improviso, do imaginado, do invisível. Porque permite diferentes assinaturas de quem gosta de cerveja, de cozinha e de construção de sabor. É um estilo que parece feito com tijolos de referência: um pouco rústico, um pouco elegante, um pouco imprevisível.
A formação dessa Seleção Brasileira de cervejas foi pensada para disputar o paladar em diferentes ocasiões. Mais do que escolher “as melhores cervejas”, a ideia é montar um mapa de referências, preferências e combinações possíveis. Toda convocação é injusta. Toda lista deixa alguém de fora. E toda seleção cervejeira, felizmente, pode ser refeita no próximo copo.
Em algum momento você pensou que eu estava falando da Escola Cervejeira Brasileira? E que eu traria um monte de estilos nacionais? Mas que as receitas de estilos que eu citei são baseadas em outras nações? Espero que sim. Mas não ainda desta vez nesta Copa. Eu torço para que um dia tenhamos um Guia Brasileiro, recheado de nomes e léxicos bem nacionais, criativos e deliciosos.
Timaço.
Saúde!
Aprecie com moderação.
Bia Amorim é sommelière, pesquisadora e palestrante. Atua na interseção entre gastronomia, cultura e bebidas brasileiras, com foco em comunicação, experiência, consumo consciente e hospitalidade.
* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.


