Na quinta-feira (23) foram anunciados os vencedores da 4ª edição do Prêmio Lata Mais Bonita do Brasil, organizado pela Associação Brasileira da Lata de Alumínio (Abralatas). A lata de cerveja que conquistou o primeiro lugar foi da Massala Red, uma Red Ale com cardamomo da Go Brew, de Anápolis (GO). Além de um rótulo impactante, que traduz o conceito da bebida, a vencedora teve mais um fator determinante para o sucesso: foi feita por meio de impressão digital.
Trata-se de uma tecnologia relativamente nova que, diferente do dry-offset, pode ser feito em menor quantidade e com artes muito mais variadas, pois a impressão é feita diretamente na lata — sem necessidade de criação de lâminas de produção. E tudo isso em altíssima resolução em num valor acessível para pequenas empresas.
A lata da cerveja Massala Red foi produzida pela Ball Corporation, maior fabricante de latas de alumínio do país, que conta com uma máquina de impressão em Jacareí, no interior de São Paulo. Uma solução resolveu muitas das dores da Go Brew, contou Willian Santana Vilela, sócio-proprietário da cervejaria goiana, em entrevista exclusiva para o Guia da Cerveja logo após a premiação. Ele é ex-funcionário da Ambev e depois de dez anos de serviços prestados, resolveu apostar no sonho da cervejaria própria.
Confira a entrevista completa:
Como foi ganhar o título de lata de cerveja mais bonita do Brasil?
Foi muito emocionante. Somos uma cervejaria muito pequena, do interior de Goiás. E estar aqui em São Paulo, com pessoas tão bacanas, e ter a oportunidade de ganhar esse prêmio, é muito emocionante. Estou muito feliz, muito honrado por todo mundo que trabalha na Go Brew com a gente. E, poxa, ganhar é muito bom. O problema é que dá o gostinho e aí você quer ganhar sempre, né? Então já estou pensando na lata de cerveja do ano que vem.
E essa lata de cerveja tem uma história bem interessante, não é? É uma impressão digital. Como foi testar essa tecnologia e de onde veio a ideia?
Eu sou um ex-Ambev. Trabalhei dez anos na Companhia e montei uma cervejaria pelo sonho de ter uma fábrica própria que tinha desde a época da faculdade. De ter uma pequena empresa. Mas há muitas dificuldades. Então, como é que eu fazia uma lata? Eu importava a lata, que vinha crua, encomendava o sleeve numa gráfica — para quem não conhece, o sleeve é como se fosse a roupa da lata. Depois, cobria a lata e levava tudo para uma outra empresa com forno para o termoencolher o sleeve, que aí se ajustava à lata. Às vezes ficava meio tortinho. E só depois envasava o líquido. E isso é uma operação complexa, onerosa, que demandava tempo e afetava também a aparência da embalagem.
Há dois anos eu participei do Beverage Day, que é um evento da revista Engarrafador Moderno, da Sandra e do Carlos, proprietários da revista. E encontrei a Dani, uma ex-colega minha de Ambev, que hoje trabalha na Ball. E ela falou que a Ball tinha uma linha impressora específica para Craft ali em Jacareí, aonde eu poderia ter uma arte diferente.
Então, diferente de uma grande empresa que compra caminhões e caminhões com uma só arte, eu preciso colocar até oito, nove, 12 artes em 3,3 mil latas. Por quê? Porque a gente é pequeno. Aí entrei em contato com a Ball, falei da ideia, da nossa arte — que é complexa, bem elaborada, tem bastante cores.
E como foi a aceitação?
E a aceitação foi incrível. Tirou muita complexidade do nosso processo. Hoje a gente fez várias latas com a Ball. O público gostou e simplificou a operação. A conta para o pequeno empresário no Brasil tem que fechar. E fechou. Então, a gente está muito feliz e vamos continuar fazendo. O meu sonho é fazer mais e mais e mais, e poder crescer e levar para o público mais Go Brew com a essa experiência legal que estou tendo aqui hoje.
A arte realmente é muito legal. E tem uma questão quase fotográfica. A resolução dessa lata também é diferente, né?
É incrível. A máquina com a impressão digital que eles têm possui um nível de detalhe que só quem tá com a lata na mão pode perceber. É difícil a gente narrar aqui. Essa é uma cerveja que tem uma iguaria indiana, que é o cardamomo, que dá aquela sensação de picância. E a lata tem um desenho de uma mão indiana com uma tatuagem. Então, se eu não tivesse a qualidade para transpor a ideia para a lata, eu jamais conseguiria chegar no produto final que eu cheguei. Seria impossível fazer uma lata com esse nível de qualidade se não fosse a oportunidade de estar fazendo isso com impressão digital. Então agradeço o pessoal da Ball.
Também conta o fato de a gente ter um designer que é um amigo nosso, o Henrique West. Ele é de Santos (SP) e um cara muito bacana. Não só pelo talento de desenhar, como também pela capacidade de percepção das ideias do cervejeiro. O cervejeiro é meio maluco, né? Então, a gente tem ideias primeiro para o líquido e só depois sobre como passar essa mensagem do líquido através de um rótulo. E tem que casar com legislação, as regas do Mapa e da Anvisa. E o brainstorm com o Henrique é muito fácil. A gente fala do líquido, fala da ideia, ele manda um ou duas artes, a gente sempre chega no consenso. Já temos 90% dos rótulos feitos com a Ball e o Henrique desenhou todos.
Como surgiu a ideia de montar a Go Brew?
A Go Brew é uma microcervejaria que hoje tem três sócios: eu, Thiago Moraes e Talita Machado. Todos nós somos ex-Ambev. Trabalhamos na grande indústria, fizemos curso de cerveja fora do país e tivemos grandes funções nesse grande conglomerado. Então, depois por essa experiência, a gente queria fazer uma coisa diferente. E aí só montando a própria cervejaria. Saiu de um sonho de faculdade, de pessoas que trabalham com cerveja — apesar de eu ter 40 anos de idade, eu tenho 20 anos de cervejaria.
A gente começou fazendo em casa, ali com uma chama direta no fogão, como muitos cervejeiros. E depois criamos coragem. Mas começamos bem pequenos, com tanques de PP [Polipropileno] que é um tipo de plástico, e geladeira. Hoje a gente é uma cervejaria que produz 32 mil litros por mês, tem 12 SKUs, diferentes IPAs, Pilsner, Italian Pilsner, Sour, etc. A gente fica em Anápolis, interior de Goiás, que fica ali entre Goiânia e Brasília. Uma cidade pequena, com por volta de 300 mil habitantes.
A cervejaria tem um brewub, então você pode ali tomar da fonte, pode participar do processo de produção, comer uma carne, uma picanha de Goiás e provar as nossas cervejas. Destaco especialmente a Red Ale com Cardamomo, que é a nossa Massala, e temos também uma New England IPA que se chama La Bella Luna. E temos algumas Sours muito legais também, como a Sunflower e Maracaju.
E qual o principal desafio hoje?
Hoje nosso desafio é atender a demanda. A gente começou com três mil litros, mudou para sete, depois para 12, 20 e agora estamos em 32 mil litros. E não conseguimos mais crescer onde estamos. O principal problema é o espaço. Eu já estou crescendo verticalmente, botando um segundo andar para envasadora.
Qual que é a nossa missão? Eu quero fazer cerveja boa, mas eu quero fazer uma cerveja acessível, e ter capacidade de penetração em grandes centros como São Paulo. A gente ainda não tem centro de distribuição aqui na região, mas é possível encontrar nossas cervejas online. E na região Centro-Oeste, em vários pontos de venda em todos os estados.


