A sustentabilidade não é uma moda passageira. E diferente do que já se achou um dia, também não se trata de algo à parte, que somente gera custos. Sustentabilidade hoje faz parte das empresas socio-ambientalmente responsáveis de maneira tão indissociável que se torna o próprio negócio. Trata-se de um pilar central, um vetor de crescimento e um investimento estratégico.
Mas o que as empresas ganham de fato com isso? O Guia da Cereja foi atrás da resposta. E identificou que esse conceito moderno de sustentabilidade já está fortemente presente em grandes e pequenas empresas do setor — e tem tudo para crescer ainda mais.
Iniciativas da indústria cervejeira estão mostrando que é possível ter lucro e gerar impactos positivos ao mesmo tempo, extraindo ganhos diretos e assegurando a continuidade do próprio negócio. Elas vão desde caldeiras aptas a trabalhar com biomassa para produzir calor nas cervejarias até a descarbonização das fábricas ou mesmo de toda a cadeira produtiva.
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E tudo isso com impactos tão grandes quanto o próprio setor no Brasil. O país é hoje o terceiro maior produtor de cerveja do mundo, com mais de 15,3 bilhões de litros por ano. São mais de 1,9 mil cervejarias operando em 790 municípios, segundo o Anuário da Cerveja do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Trata-se de uma indústria que contribui com 2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e emprega 2,5 milhões de pessoas (entre empregos diretos, indiretos e induzidos).
Que tal conhecer algumas dessas iniciativas, seus ganhos e benefícios?
Maior eficiência e economia real na indústria cervejeira
Um mito persistente em torno da sustentabilidade é que ela representa um luxo caro, uma escolha ética que compromete o resultado financeiro. Para a indústria cervejeira, no entanto, o oposto está se mostrando verdadeiro: as iniciativas ecológicas estão gerando economias operacionais.
A Cervejaria Cerpa, de Belém (PA), é um exemplo. Ao tomar a decisão estratégica de substituir as caldeiras a combustíveis fósseis por sistemas de biomassa alimentados por um recurso abundante na região — os caroços de açaí —, a empresa não só reduziu sua pegada de carbono, como também cortou drasticamente seus custos.
Projetos como este, que combinam sustentabilidade e rentabilidade, demonstram que investir em soluções limpas é investir no futuro da Amazônia”
Alessandro Palheta, coordenador de Manutenção da Cervejaria Cerpa
“Além dos benefícios ambientais, o projeto nos proporcionou uma economia de mais de 60% em comparação com o combustível anterior. Projetos como este, que combinam sustentabilidade e rentabilidade, demonstram que investir em soluções limpas é investir no futuro da Amazônia”, diz Alessandro Palheta, coordenador de Manutenção da Cervejaria Cerpa.
Além disso, o sistema possibilita economia circular. Depois de serem queimados para geração de energia, as cinzas dos caroços de açaí da Cerpa são reutilizadas como fertilizante em plantações de açaí, fechando o ciclo e devolvendo nutrientes ao solo.
Recém-inaugurada, a fábrica da Heineken em Passos (MG) também conta com sistema de caldeiras abastecido por biomassa e deve usar, entre outros materiais, cavacos de madeira — restos descartados da indústria moveleira da região.
Gestão rigorosa de recursos naturais
A água é um dos principais ingredientes da cerveja, tornando sua conservação uma missão crucial para a indústria cervejeira. As cervejarias têm feito progressos surpreendentes na redução de sua pegada hídrica, atingindo níveis de eficiência que antes eram considerados impossíveis.
“Ao longo dos anos, reduzimos mais de 50% do consumo de água nas nossas cervejarias, nos tornando referência global em eficiência hídrica na indústria de bebidas. Superamos antecipadamente nossa meta para 2025, atingindo menos de 2,5 litros de água por litro de cerveja produzida, o que comprova que práticas sustentáveis geram resultados concretos e economia operacional”, diz Luiz Gustavo Talarico, head de Sustentabilidade da Ambev.
Nesse aspecto, a sustentabilidade rende também uma maior eficiência operacional, que se transforma em economia. Mas não só isso. “Reduz a dependência de recursos naturais e prepara o negócio para um futuro mais sustentável, beneficiando a companhia, o planeta e as comunidades onde estamos presentes”, afirma Talarico.
Também em entrevista dada ao Guia da Cerveja na inauguração da fábrica de Passos, Rafael Rizzi, diretor de Inovabilidade do Grupo Heineken, disse que o consumo de água na nova planta deve ser menor que 3 litros de água para cada litro de cerveja — embora ainda não exista um número oficial. “Daqui a um ano, provavelmente, com os processos mais maduros, a gente vai ter um número mais preciso”, diz. “Então, ela vai estar muito mais para um dois baixo do que dois alto”, completa.

Também é necessário se preocupar com a água descartada e a proteção da água no entorno das fábricas.
No primeiro caso, todo o efluente recebe o tratamento necessário para ser devolvida ao meio-ambiente, tanto no caso da fábrica de Passos quanto na Cerpa, em Belém. “Operamos, há mais de 20 anos, uma das estações de tratamento de efluentes mais modernas da região. A água com alto índice de pureza que utilizamos no nosso processo de fabricação de bebidas é inclusive doada diariamente para centenas de famílias que habitam nos entornos da fábrica”, diz Alessandro Palheta.
No segundo, a Ambev trabalha com o programa Bacias e Florestas, que já resultou no plantio de mais de 2 milhões de árvores nativas em áreas de bacias e nascentes, com acompanhamento para garantir que elas se desenvolvam. A iniciativa, que conta com parceiros como TNC, WWF-Brasil e organizações locais, também impulsiona benefícios sociais, como hortas comunitárias e projetos educacionais apoiados pelo uso de efluentes tratados.
A fábrica do Grupo Heineken no Sul de Minas tem projeto semelhante. Trata-se do Programa Produtor de Águas — Projeto Bocaina, voltado para a proteção de nascentes e recarga hídrica na região.
Valor de marca e compensação de carbono
“Sustentabilidade não é só uma tendência — é um fator real de escolha e confiança”, explica Mariana Nogueira, socio-proprietária e gestora de Marketing da Santos Cervejeiros, da cidade de Santos (SP). A fábrica se tornou a primeira cervejaria artesanal e ter o selo de carbono neutro no estado de São Paulo no final de outubro deste ano.
A certificação é resultado de um processo de auditoria conduzido pela AKVO ESG, startup especializada em medição e compensação de carbono, que confirmou a neutralização de aproximadamente 32 toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) geradas pela operação da cervejaria.

Para a gestora, a adoção da neutralidade de carbono pela cervejaria gerou valor de marca, fidelizou clientes e abriu novas parcerias. “Além disso, pesquisas da PwC (Voice of the Consumer 2024) mostram que mais de 80% dos consumidores priorizam marcas com práticas sustentáveis, e mais da metade afirma preferir produtos com menor impacto ambiental, mesmo em tempos de incerteza econômica”, completa.
Mas há economia também envolvida no carbono neutro? Nogueira garante que sim, ainda que indiretamente. “Quando você mede e compensa suas emissões, passa a olhar a operação com outros olhos — cada etapa começa a fazer mais sentido. Descobrimos que ser carbono neutro não é só compensar, é aprender a gerir melhor: transporte, consumo de energia, desperdício, embalagens. Tudo entra na conta. Com isso, vêm ganhos reais — mais eficiência, menos desperdício e decisões mais inteligentes”, explica.
O caso da Santos Cervejeiros mostra que investir em sustentabilidade é possível também na pequena cervejaria, na fábrica artesanal. Mas as grandes empresas da indústria cervejeira também estão trabalhando para isso. E na Ambev, os planos são ambiciosos. A companhia quer atingir Net Zero — nível de compensação total de carbono produzido — em toda a sua cadeia produtiva até 2040.
“A sustentabilidade não faz parte do nosso negócio, ela é o nosso negócio”
Luiz Gustavo Talarico, head de Sustentabilidade da Ambev.
“Graças ao uso crescente de fontes renováveis e a boas práticas de gestão energética, já reduzimos em 63% as emissões dos escopos 1 e 2 nos últimos 20 anos e operamos com 100% de energia elétrica renovável em nove países, incluindo o Brasil. Também avançamos na redução das emissões do Escopo 3, com iniciativas em agricultura sustentável e programas como o Eclipse, plataforma que avalia e apoia nossos fornecedores em suas jornadas de descarbonização, impactando toda a cadeia de valor”, explica Talarico.
E é justamente na agricultura que está boa parte dessas emissões de gases do efeito estufa da cadeira de produção da Ambev. Aproximadamente 20% delas vem do campo. Por isso, esse é um eixo central do trabalho da empresa. “Trabalhamos lado a lado com os produtores de cevada, implementando práticas de agricultura regenerativa, como rotação de culturas, manejo eficiente de água e nutrientes e cobertura permanente do solo. Todos os agricultores que fornecem cevada e milho recebem suporte técnico e capacitações desde o plantio até a colheita, garantindo que estejam preparados, conectados e financeiramente empoderados”, conclui.
Portanto, há, sim, vantagens reais em ser sustentável no meio cervejeiro. Seja em formato de benefícios diretos, como economia dentro da fábrica, quanto indiretos, como a percepção de valor de marca. E essas práticas levam ao crescimento com coerência, sem abdicar dos resultados financeiros. Tudo isso é fazer uma pequena parte, mas que faz toda a diferença, na construção de um futuro sustentável depende do compromisso coletivo de todo o ecossistema.


