A cerveja no Brasil pode ficar mais cara por conta da guerra no Irã, iniciada pelos Estados Unidos da América (EUA) há pouco mais de dez dias. Apesar do país do Oriente Médio não ser produtor da bebida nem de matérias-primas para ela. O impacto seria indireto, já que o conflito pode afetar o custo da energia, de combustíveis e fertilizantes no mundo. E isso se reflete em toda a cadeia logística, bem como no custo dos próprios grãos dos campos brasileiros e do exterior.
Todo isso porque o país controla a margem norte do Estreito de Ormuz, importante rota marítima do comércio da região em importações e exportações. A passagem, de apenas 33 quilômetros de largura em sua parte mais estreita, é responsável por escoar aproximadamente um quarto do petróleo mundial e um quinto do gás natural. Este último – essencial também para a indústria de hidrocarbonetos, entre eles os fertilizantes químicos como a ureia.
No fim de semana, a Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter “controle total” dessa conexão do Golfo Pérsico e do Golfo de Omã e disse ter atacado um petroleiro. O Irã como um todo atacou ao menos nove embarcações comerciais na semana passada. Na segunda-feira (9), o presidente dos EUA, Donald Trump, disse em sua conta na rede social Truth Social que vai atacar o Irã “vinte vezes mais forte” caso o país bloqueie o fluxo de petróleo na região.
Enquanto as tensões crescem, especialistas calculam os impactos, em especial caso o conflito se prolongue por muito tempo.
Guerra no Irã e o preço da logística
Também na segunda-feira, o preço do petróleo se aproximou de US$ 120 por barril (cerca de R$ 630) em razão dos temores provocados pelo conflito. E as bolsas de valores tiveram forte queda pelo mundo. O principal medo é de um prolongamento da guerra no Irã, que poderia inflacionar os preços em escala global.
Apesar dos Estados Unidos minimizarem a situação, analistas ouvidos pelo G1 dizem que um impacto severo na economia é possível. “O choque mais profundo está se espalhando pela cadeia produtiva”, disse Stephen Innes, da SPI Asset Management. Para ele, “o petróleo acima de 100 dólares não representa apenas uma alta das commodities. Torna-se um imposto sobre a economia global”.
Como muitos países do mundo ainda têm o petróleo, gás natural e derivados como principal fonte da matriz energética e de transportes, o impacto seria sentido por todos os cantos. No Brasil, o encarecimento do diesel, por exemplo, pode aumentar os preços em geral por impactar diretamente a logística.
Isso afetaria não só o custo das entregas da cerveja pronta, por exemplo, mas também toda a cadeia. Grande parte da matéria-prima da bebida é importada e os combustíveis dos navios também ficariam mais caros. Mesmo a parcela nacional sofreria, já que quase a totalidade é transportada por via rodoviária.
Fertilizantes nitrogenados
Outro ponto de atenção está na produção de fertilizantes nitrogenados, como a ureia, usados na agroindústria. Além de uma crise no setor afetar o preço de outros alimentos, também poderia impactar a produção de grãos nacionais, como a cevada e outros cereais usados para maltes ou adjuntos cervejeiros, como trigo, milho e arroz.
O impacto, no entanto, não se resumiria aos campos brasileiros. Lavouras de outros países que exportam as matérias-primas para a cerveja brasileira e mundial utilizam os mesmos tipos de fertilizantes.
A indústria de hidrocarbonetos obtém esses fertilizantes químicos a partir do gás natural. Elas processam o material para obter amônia e depois combinam com dióxido de carbono para obter a ureia. Além de grande parte do transporte ser por meio do Estreito de Ormuz, o próprio Irã é um dos principais produtores mundiais de gás e fertilizantes.
O país do Oriente Médio tem a segunda maior reserva de gás natural do mundo. Fica atrás apenas da Rússia – que, no momento, também está em guerra e sofrendo embargos sobre o gás natural em diversos países.
Em 2024, a produção de ureia do Irã atingiu cerca de 9 milhões de toneladas, com metade destinada à exportação. Um dos importadores é o agronegócio brasileiro, que obteve 184,7 mil toneladas em 2025, segundo dados do Comex Stat publicado no portal Times Brasil. O Brasil não é dependente desse fornecimento – o volume é considerado pequeno. Mesmo assim, é sensível aos preços internacionais do produto.


