A produção de cerveja é um processo que demanda energia de forma intensiva, seja para manter os tanques de fermentação resfriados, para moer o malte ou para aquecer a água da brassagem. Para contornar os altos custos e buscar processos mais sustentáveis, o mercado cervejeiro tem diversificado suas matrizes energéticas. Hoje, especialistas em eficiência energética industrial apontam que não existe uma solução única, mas sim um conjunto de soluções que podem ser combinadas conforme o porte da fábrica. Entre as principais possibilidades para baratear a produção estão a migração para o Mercado Livre de Energia, a instalação de painéis solares fotovoltaicos, a modernização do maquinário e o uso de energia solar térmica (que gera calor pela luz do Sol e também é chamada de termossolar).
O aquecimento de água, em especial, é um dos maiores vilões da conta final. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), cerca de 80% do consumo de energia da indústria brasileira está associado à geração de calor. Para mostrar como a eficiência energética funciona na prática, um projeto nacional está substituindo as tradicionais caldeiras movidas a diesel ou gás liquefeito de petróleo (GLP) por placas termossolares. E a experiência já rendeu bons resultados em um corte de quase 40% no custo.
Quatro cervejarias apostam na energia solar térmica
Entre as cervejarias que estão apostando em soluções termossolares estão as cervejarias Turatti e Brewstone, no Ceará; a Tarantino, em São Paulo; e a Dumato, em Mato Grosso do Sul, que adotaram sistemas de captação de calor do Sol em suas fábricas.
O mecanismo da energia solar térmica utiliza o calor do Sol para aquecer a água utilizada na produção antes mesmo que ela entre nos tanques do processo cervejeiro. Os resultados do primeiro ano de operação foram expressivos: as fábricas registraram uma queda média de 30,5% no consumo de combustível, resultando em uma redução de até 37% nos custos energéticos.
Na ponta do lápis, cada unidade cervejeira economizou mais de R$ 10 mil por mês. E cada planta deixou de emitir cerca de 8,5 toneladas de CO₂ por ano.
O ganho operacional foi imediato. Com a água chegando previamente aquecida, o tempo de preparo da cerveja diminuiu consideravelmente. “A gente tinha bastante dificuldade com aquecimento de água, processo que levava em média 50 minutos. Hoje, é muito rápido, porque a água já entra quente no tanque. Ficou muito mais prático da gente trabalhar”, comemora Marcos Guerra, mestre cervejeiro da Turatti.
A adoção da inovação por essas quatro plantas de diferentes portes foi viabilizada por meio de um projeto conduzido pela 3e Soluções, em parceria com a Solis Solar e com recursos do Procel/ENBPar. O projeto rendeu à 3e Soluções a vaga de única representante do setor energético entre as finalistas na categoria Descarbonização da 9ª edição do Prêmio Nacional de Inovação.
Viabilidade técnica e financeira

Mas quanto custa a brincadeira? O valor total dos quatro sistemas somados, incluindo a instalação nas fábricas, ficou em R$ 1,1 milhão, segundo o diretor de Projetos Socioambientais da 3e Soluções, Odailton Arruda. Ele explica que os custos por cervejaria foram distintos, variando conforme o tamanho do sistema que atendeu à respectiva necessidade de produção.
O tempo de retorno do investimento é diretamente proporcional à produtividade de cada indústria. Ou seja, quanto mais litros de cerveja produzidos, mais cedo o sistema será pago.
Com as atuais produtividades, o retorno médio das cervejarias será de 4 anos, de acordo com Arruda. Ele ressalta que não existe um volume mínimo de produção exigido para adotar a tecnologia.
A solução busca se adequar à rotina de cada fábrica, aproveitando uma área estratética: os telhados. Cervejarias costumam ter uma area de cobertura abundante devido à necessidade de espaço para armazenamento.
Outro ponto de atração é a durabilidade. A vida útil dos sistemas ultrapassa os 20 anos, com garantia de até 10 anos para os coletores, segundo Arruda. Já a manutenção pode ser feita pela própria equipe da cervejaria, já que se resume à limpeza das placas solares.
E em dias nublados ou de chuva? Segundo Arruda, a primeira etapa do processo de produção de cerveja (a mostura) exige temperaturas em torno de 65°C. E o sistema termossolar atinge essa meta facilmente, mesmo com baixa incidência de sol. “Nessa fase, a indústria não usa nenhuma fonte externa para aquecimento da água. O processo de fabricação possui uma outra etapa, onde se deve ferver o produto, com temperatura em 100°C. É nesse processo que a indústria volta a utilizar as fontes de calor anteriores. Porém, partindo de uma temperatura bem maior, já pré-aquecida pelo sistema solar “.
Outras alternativas no radar cervejeiro
Enquanto a energia termossolar resolve de forma inteligente o problema do aquecimento da água (geração de calor), especialistas do setor elétrico e industrial indicam outras frentes fundamentais para que as cervejarias estanquem o desperdício de dinheiro e otimizem o consumo geral das fábricas.
Entenda as principais opções:
- Migração para o Mercado Livre de Energia: É um ambiente de negócios onde as empresas podem comprar energia elétrica diretamente de geradores ou comercializadoras, escolhendo preços, prazos e o tipo de fonte de energia. Historicamente restrito a grandes indústrias, o Mercado Livre passou por uma flexibilização recente no Brasil. O que permitiu que empresas de menor porte (conectadas em alta ou média tensão) também migrassem e negociassem suas faturas. O resultado foi uma maior garantia de reduções significativas na conta de luz tradicional.
- Instalação de painéis solares fotovoltaicos: Diferente do modelo termossolar (que foca no calor), a tecnologia fotovoltaica transforma a luz do Sol em eletricidade. É a solução ideal para abater os custos operacionais com a refrigeração dos tanques (chillers), bombas de transferência, linhas de envase e a climatização geral do galpão e do taproom.
- Substituição de maquinário por motores de alta eficiência: Especialistas recomendam fortemente o retrofit industrial. Equipamentos antigos, especialmente compressores de frio e bombas, consomem muito mais energia para realizar o mesmo trabalho. A troca por motores de alta eficiência (com inversores de frequência) ajusta o consumo à demanda real. E isso evita o desperdício de eletricidade quando as máquinas operam em cargas menores.
- Uso de iluminação LED com sensores: Pode parecer um detalhe simples frente aos grandes equipamentos cervejeiros, mas a iluminação de galpões industriais tem um peso na conta. A substituição total de lâmpadas antigas por tecnologia LED gera um alívio financeiro rápido e de baixíssimo custo de implementação. Além da instalação de sensores de presença em áreas de menor circulação (como estoques de insumos, barris vazios e câmaras frias).


