Os olhos do mundo vão estar voltados para o jogo da República Democrática do Congo (RD Congo) contra a Colômbia nesta terça-feira (23). Em campo, a seleção africana, que não participava de uma Copa do Mundo havia 52 anos, entra motivada pelo empate recente contra Portugal. Fora dele, o evento marca a estreia do torcedor-estátua Michel Nkuka Mboladinga no Mundial. Vestido com um terno nas cores da bandeira de seu país, ele permanece de pé durante praticamente os 90 minutos, com a mão levantada ao céu — uma reprodução da pose da estátua construída na capital, Kinshasa, em homenagem a Patrice Émery Lumumba, líder da independência do país que já trabalhou como vendedor de cerveja.
A imagem de Mboladinga ganhou destaque durante a Copa Africana de Nações (CAN) de 2025/2026, disputada no Marrocos, e repercutiu globalmente, tornando-se um símbolo da seleção da RD Congo. No entanto, a aguardada presença do personagem nos estádios da Copa do Mundo de 2026 quase foi inviabilizada por restrições sanitárias.
Devido a um surto de Ebola na RD Congo, que registra mais de 800 casos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o governo dos Estados Unidos restringiu a entrada de cidadãos do país. Mboladinga foi integrado à delegação oficial, mas desfalcou a torcida no primeiro jogo para cumprir os protocolos de quarentena.
Patrice Lumumba é amplamente considerado um dos maiores heróis anticoloniais e símbolos da resistência no continente africano. Ele foi líder nacionalista, intelectual e primeiro-ministro eleito da República Democrática do Congo após a independência da Bélgica, em junho de 1960. No entanto, seu governo durou apenas 12 semanas antes de ser derrubado, culminando em seu assassinato em janeiro de 1961.
Lumumba, a cerveja e a RD Congo
O último emprego de Lumumba antes de se dedicar integralmente à política foi como vendedor de cerveja na Bracongo, então a maior cervejaria do país. Ao longo dos 15 meses em que permaneceu na empresa, ele chegou a ocupar um cargo de gestão e afirmava que o período foi fundamental para observar de perto as práticas opressivas dos colonizadores belgas no Congo.
Lumumba nasceu em 1925 em uma família camponesa na aldeia de Onalua. Na época, o Congo estava sob o violento domínio colonial da Bélgica. Após receber educação básica de missionários católicos e protestantes, ele se mudou aos 18 anos para Stanleyville (atual Kisangani), onde trabalhou na companhia Symaf e, posteriormente, no serviço de correios. Nesse período, destacou-se como um dos évolués (africanos com educação ocidental), escrevendo para a imprensa local e iniciando sua militância ao presidir um sindicato de funcionários públicos.
Em 1956, após uma viagem acadêmica à Bélgica, foi preso sob acusações de fraude nos Correios, cumprindo um ano de pena. Ao ser libertado, mudou-se para a capital, Léopoldville. Foi nesse período que trabalhou na cervejaria Bracongo e consolidou sua formação como intelectual autodidata. Ao deixar a empresa, fundou o Movimento Nacional Congolês (MNC) em 1958, partido que, no ano seguinte, obteve uma vitória expressiva nas eleições locais.
Em maio de 1960, mesmo enfrentando divisões internas no partido, a ala liderada por Lumumba venceu as eleições parlamentares. Isso o consagrou como primeiro-ministro do Congo, dividindo o poder com o presidente Joseph Kasa-Vubu. Poucos dias após a declaração oficial da independência, em 30 de junho de 1960, o novo governo enfrentou uma profunda crise provocada por rebeliões militares e pela separação da província mineradora de Catanga, que contava com o apoio belga.
Em setembro de 1960, em meio a um impasse político e destituições mútuas entre o primeiro-ministro e o presidente, o coronel Joseph Mobutu liderou um golpe de Estado que destituiu Lumumba, colocando-o em prisão domiciliar. Ao tentar fugir em dezembro, Lumumba acaba capturado por tropas locais e transferido à força para a província rebelde de Catanga. Lá, em 17 de janeiro de 1961, ele foi torturado e executado por um pelotão de fuzilamento. Seu corpo nunca foi localizado.
Sessenta e cinco anos após a morte violenta de Lumumba, ao congelar-se na pose do líder nacionalista da RD Congo em plena Copa do Mundo de 2026, o torcedor-estátua Michel Mboladinga vai mais uma vez reforçar o símbolo nacional, como fez na CAN. E mostrar ao mundo que o legado dele permanece e se faz notar num dos maiores palcos do planeta.


