
É tempo de Copa do Mundo! Já fui muito fã de futebol, mas ao longo dos anos fui perdendo o interesse e hoje em dia me considero um “corinthiano não-praticante”. Mas a Copa sempre me fascinou. Se estiver passando Bósnia e Catar no meio da tarde (24/06 às 16:00) e eu puder, vou assistir. Espero não perder o encanto com as Copas, apesar de que é de baixa bebabilidade – a quantidade de anúncios de Bets.
E jogo de Copa do Mundo sempre vem acompanhado de cerveja, em quantidades às vezes proibitivas, para comemorar ou para esquecer. E eis que volta em meia, surge em discussão nos grupos de whatsapp da vida o que é bebabilidade. Sempre que posso, prefiro usar um termo em português em detrimento de outras línguas, mas esse neologismo adaptado do inglês drinkability não me soa bem aos ouvidos.
Bebabilidade, drinkability e Copa do Mundo 2026
Pois bem. Geralmente se associa drinkability a altos volumes de cerveja e, no meu modesto entendimento, é uma associação rasa. É certo que cervejas leves, secas, ligeiramente amargas ou ácidas tendem a ter alta drinkability. Cervejas com alto corpo e açúcar residual tendem a ter baixo drinkability. Mas não é só isso.
Em primeiro lugar, drinkability está intimamente associada ao prazer (hedônico) ao degustar certa cerveja. Portanto, trata-se de um conceito extremamente subjetivo, ou seja, depende da pessoa que está degustando. Por exemplo, eu sou um apaixonado por cervejas defumadas. Elas me levam para um lugar quase ancestral de fogo, carne e fumaça. Já minha companheira odeia “beber bacon”. Ela acha que satura demais. Por outro lado, eu não sou fã de Hazys IPAs, Smothies Sours e Pastry Stouts pelo mesmo motivo — são cervejas que eventualmente degusto por ofício da profissão, mas que me saturam demais aos primeiros goles.
Em segundo lugar, drinkability também pode variar com o clima, em especial com as estações do ano. E se você for um bebedor de Imperial Stouts e vier me dizer que basta ligar o ar-condicionado, não, não é disso que estou falando. Nosso corpo pede para se refrescar em climas mais quentes e pede para se aquecer em climas mais frios.
Em terceiro lugar, drinkability está associada ao nosso humor e à nossa “bateria social”. Somos seres sociais e consequentemente somos influenciados pelo meio em que estamos.
Em quarto lugar, há aspectos técnicos também que podem ser considerados. Uma Imperial Stout com bom balanço de maltes, fermentação adequada, bom equilíbrio de amargor (de lúpulo e tosta) e dulçor, álcool bem integrado no conjunto pode ter alta drinkability. Ela é enjoativa? Não. O retrogosto é agradável? Sim. Ela te convida para o próximo gole? Sim.
“Geralmente se associa drinkability a altos volumes de cerveja e, no meu modesto entendimento, é uma associação rasa”
Hoje (escrevo essa coluna no dia 24/06) tem jogo do Brasil. Contra a Escócia. Confesso que esse time atual não me empolga muito e, consequentemente, afeta negativamente minha percepção e humor. E ainda por cima, está chovendo e faz frio. Tenho à minha disposição na geladeira desde lagers clássicas, passando por cervejas ácidas e até Stouts envelhecidas. Estou torcendo aqui para que, nessa Copa do Mundo, o Brasil aumente a minha drinkability!
Saúde!
Jayro Neto é somelelê, CFO, auxiliar administrativo e sócio da Cozalinda. É sommelier de cervejas desde 2015, campeão do Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas de 2019. Também atua como diretor financeiro da Abracerva desde 2022, é juiz BJCP Certified e coautor do livro Guia da Sommelieria Brasileira.
* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.


