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Artigo: A classe C desconfia do seu segmento, volte três casas

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Caso de contaminação dos produtos da Backer pode afastar consumidores que flertavam com a cerveja artesanal e reaproximá-los das marcas de massa

Por Paulo Darcie*

Além de editar o Guia, trabalho há oito anos fazendo pesquisas de comportamento do consumidor. Ao longo desse período, pude acompanhar o surgimento de tendências que chegaram silenciosas e assim foram se consolidando até se tornarem realidades; mas também vi outras despontando com força, se revelando “modinhas” e minguando logo em seguida. Definitivamente, a valorização do produto artesanal, da produção pequena e local, fazem parte primeiro grupo.

No início da década de 2010, quando o Brasil ainda surfava a onda do boom das commodities, do aumento do poder de compra e da inclusão social por meio do consumo, ainda soava estranho para a maior parte o público o consumo de marcas regionais, da pequena produção. A suposta ascensão da classe C (não gosto do conceito, mas ele é útil…) se consubstanciava justamente na possibilidade de comprar produtos e marcas já consagrados, sonhados e, até então, inalcançáveis – mesmo que considerados “de massa”, como um tênis com 12 molas, uma camisa com um jacarezinho ou um carro 1.0.

No mesmo período em que se comemorou o “milagre” do consumo, o acesso à informação iniciava um processo de reconfiguração interminável: a internet se popularizava e novos âmbitos para troca e consumo de informações (as redes sociais são um exemplo, mas não o único) tomavam forma e novas vozes passavam a ser ouvidas. O fluxo instantâneo de informações certamente tem sua parcela de responsabilidade na propagação de tendências de consumo que apontavam para a direção oposta.

Assim, a valorização do artesanal, do local e do exclusivo ganharam espaço dentre as classes mais abastadas no meio da década, adubadas por esse fluxo de dados e, até certo ponto, como uma forma de reação a uma dinâmica de consumo que não mais diferenciava classes por “si só”. O conceito de consumo de experiência veio para arrematar, escrevendo na pedra que o ato de comer um hambúrguer de R$ 30 feito em um food truck seria capaz de proporcionar uma satisfação existencial que um combo de fast food nunca ofereceria.

A cerveja artesanal fez parte dessa tendência, instalando-se no hábito da classe A, se expandindo rumo à classe B conforme se fez mais acessível. Nos últimos três anos, flertava com a classe C, impulsionada por fatores como a compra de marcas que se destacavam por grandes corporações e como o “despertar” das marcas menores para a importância da educação cervejeira na quebra de preconceitos.

Laboratório uberlandense
Estive na cidade mineira de Uberlândia na semana passada para estudar o consumo de TV paga por famílias da periferia. No entanto, não pude deixar de fazer uma sondagem paralela sobre a nova situação da cerveja artesanal em 2020. E nem se quisesse conseguiria evitar: lá, a contaminação das cervejas da Backer é o primeiro na fila de assuntos das pausas no trabalho, no restaurante, no Uber…  Todos têm e querem dar sua opinião – formada, muitas vezes, por desinformação. Em comum, no entanto, os discursos que ouvi culminam em um descrédito da “cerveja artesanal” como um todo:

“Esse negócio de artesanal sempre dá problema”

“Eu sou brahmeiro mesmo, pelo menos a gente sabe de onde vem”

“Prefiro ficar na minha Crystal de R$ 1,60”

Obviamente não há um rigor metodológico, muito menos valor estatístico nessas impressões coletadas. No entanto, o sentido para onde todas elas apontam é claro. Vinda de pessoas que tateiam, mas que não estão consolidadas como consumidoras de cervejas artesanais, essa postura preventivamente refratária é um péssimo sinal: voltamos três casas (três anos?) na árdua batalha pela popularização e democratização do segmento.

O caso veio como uma pá de cal para aqueles que estavam começando considerar (mesmo em um cenário de sufoco no orçamento familiar) o benefício de pagar mais por produtos diferenciados. De certa maneira, o impasse nos leva para uma situação análoga à do início dos anos 2010, mesmo que sob outra lógica e, talvez, apenas circunscrito ao universo das cervejas: para “as massas”, bom, confiável e viável é o produto dos grandes fabricantes, das marcas “famosas”.

Se o laboratório uberlandense pode sinalizar algum recado: para os próximos anos, o desafio do setor deixa de ser o de ampliar e passa a ser o de reconquistar seu espaço, credibilidade e atratividade perante a classe C. Para isso, as tão elogiadas união e cooperação entre cervejeiros brasileiros não pode se limitar a brindes em eventos bacanas. Muita mão na massa vai ser necessária.


*Paulo Darcie é editor do Guia da Cerveja e pesquisador de comportamento na Vox Pesquisas

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