A cerveja sem glúten no Brasil em 2025 cresceu 417,6% em relação a 2024, partindo de 71 milhões para 368 milhões de litros. O número final corresponde a aproximadamente 2,35% dos 15,69 bilhões de litros da bebida produzidos no país. Os dados são do recém-lançado Anuário da Cerveja 2026, publicação anual do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) com informações oficiais do setor.
O aumento mostra o tamanho do interesse do público por bebidas sem essa proteína, que é natural em cereais, alimentos e bebidas derivados deles, como a cerveja. “Nos balanços das cervejarias, a gente está vendo que são essas as cervejas que estão se destacando”, diz Márcio Maciel, presidente-executivo do Sindicerv.
“Isso é uma resposta não só ao consumidor, que está procurando esse tipo de produto — além de uma parcela da população que sofre com a doença celíaca —, mas também a regulação que está sendo ajustada justamente para permitir esse tipo de cerveja no Brasil”, completa.
Para o diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal (Dipov) do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Hugo Caruso, o aumento da cerveja sem glúten também destaca a agilidade do setor cervejeiro frente às tendências. “Eu vejo que o setor tem condições de responder rapidamente a isso, o que foi mostrado e provado agora. As empresas conseguem reverter essa intenção de consumo em produtos”.
Lançamentos recentes apontam nas cervejas sem glúten
Cervejas sem glúten foram originalmente desenvolvidas para atender pessoas celíacas (portadoras da doença celíaca, que é autoimune e crônica), intolerantes ou alérgicas ao glúten. No entanto, têm sido cada vez mais consumidas por quem julga que essa proteína não lhes faz bem, sendo hoje uma das principais características de cervejas funcionais, de performance ou bem-estar (wellness).
E o setor cervejeiro vem buscando atender à demanda cada vez maior por bebidas mais equilibradas. Um exemplo recente é o lançamento da Heinken Ultimate na segunda-feira (19) em São Paulo. A nova versão da marca principal do Grupo Heineken é sem glúten, tem 30% menos calorias e álcool (3,5%) que a versão regular.
Por sua vez, em março a Ambev lançou a embalagem de 600 ml da Stella Artois Pure Gold, versão de cerveja sem glúten da Stella Artois e com 17% menos de calorias. A marca foi uma das responsáveis pelos bons resultados da companhia no primeiro trimestre de 2026, tendo crescido 160%, segundo o balanço divulgado no início de maio.
Como é feita a cerveja sem glúten
A cerveja sem glúten tem dois métodos principais de fabricação que a diferenciam das cervejas regulares. Em um deles, o produto é feito com cereais que não têm essa proteína, como o sorgo. Essa era uma forma muito utilizada no passado, mas demandava um parque fabril que não fosse utilizado para cervejas regulares, para que não houvesse contaminação cruzada com outros cereais com glúten.
Atualmente, a maior parte das cervejas sem glúten são feitas por método enzimático. Ele consiste em acrescentar uma enzima na cerveja já pronta que quebra o glúten em moléculas menores. E isso engana o corpo, fazendo com que o glúten não seja identificado pelo organismo como tal.
No Brasil, uma cerveja pode ser considerada sem glúten se restarem menos de 20 ppm (partes por milhão) de glúten, uma margem muito segura para a maioria das pessoas com restrições alimentares desse tipo. Mesmo assim, antes de consumir produtos, é sempre recomendado se informar com o médico sobre a tolerância do organismo.
Doença celíaca no Brasil
Segundo a Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (Fenacelbra), cerca de 1% da população possui a doença celíaca, mas até 80% dessas pessoas não são diagnosticadas. Ainda não há um estudo brasileiro, mas estima-se que cerca de 2 milhões de pessoas sejam afetadas por essa condição no país.
A doença celíaca é autoimune grave na qual o corpo ataca o próprio revestimento do intestino delgado quando se consome glúten. Já a alergia ao trigo é uma reação imunológica rápida com sintomas respiratórios ou de pele. No caso da intolerância ou sensibilidade ao glúten, a reação é um desconforto digestivo, mas sem danos intestinais ou reações alérgicas.


