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Às vezes me pergunto: será que a cerveja ficou “chata”?

Diante da reconfiguração estrutural profunda do mercado de cervejas artesanais no Brasil e no mundo, será que a categoria perdeu a graça? Confira a análise de Jayro Neto!

Francis Mallmann, chef argentino e talvez a maior referência viva sobre churrasco, parrilla e brasa, certa vez – em 2018, para ser mais preciso – disse: “Em 30 anos não estaremos mais comendo carne, simplesmente não haverá mais”, justifica o chef. “E tenho a sensação de que, se continuar só cozinhando carnes, em dez anos terei apenas velhos em meus restaurantes.” Troque “comendo” por “fabricando/bebendo” e “carne” por “cerveja”. Parece adequado para o cenário, não?

Juntando os fatos, o mercado de cervejas artesanais no Brasil e no Mundo atravessa uma reconfiguração estrutural profunda no cenário pós-pandemia, impulsionado pelas dinâmicas socioculturais das Gerações Z e Millenials, pela crise climática, pela onda “wellness”, pela questão econômica — eu não gosto de admitir, mas cerveja é supérfluo — o setor testemunha a consolidação talvez a materialização do conceito “beber menos, mas melhor”, mas de um jeito atravessado. A real intenção do mote acima, creio, é muito mais: beba menos (cervejas mainstream), beba melhor (artesanais). A questão do uso do termo “artesanal” para um processo claramente industrial, mesmo que em pouca escala, reforça esse sentido.

As novas gerações estão redefinindo a relação com o etanol, posicionando a saúde e o bem-estar como vetores de decisão de compra. A moderação deixou de ser um nicho de abstinência para se tornar um pilar de consumo consciente, elevando a exigência por bebidas de baixo ou nenhum teor alcoólico.

A pandemia consolidou o consumo off-trade e deixou um rastro de destruição nos ambientes sociais de encontro e reconfigurou o setor de eventos. Muitos deixaram de existir ou mudaram o formato para sobreviver: Brasil Brau agora é Brasil Brau & Beverages, SlowBrew praticamente deixou de existir, os festivais mais tradicionais se reinventaram (FBC, Mondial de la Bière etc.).

Eu particularmente já deixei de frequentar festivais de cerveja, como consumidor. Não me atraem tanto, tenho vários amigos no ramo, mas prefiro encontrá-los em outros momentos de confraternização. Acompanho avidamente esse mercado desde 2015, entrei na crista do “boom” e, voltando agora ao título da coluna, às vezes me pergunto se a cerveja não ficou chata.

Vejamos o perfil típico do consumidor de cerveja “artesanal”, frequentador de festivais: homem branco com barba que bebe bastante e gosta de rock & roll. É monotemático, não? O mercado de cervejas “artesanais” (me incluo) ainda não aprendeu a se comunicar com outros perfis. Em paralelo, podemos olhar para o mercado de vinhos, em especial os naturais: vinho servido sem pompa, de forma despretensiosa. Frequentado por uma divisão muito mais igualitária em relação ao gênero (nada de festa da salsicha rs), ainda que haja uma predominância de classe média branca. É um ambiente muito mais legal.

E aí, meu caro leitor? A cerveja ficou chata? Sim? E o que podemos fazer para mudar essa percepção? 

Saúde!


Jayro Neto é somelelê, CFO, auxiliar administrativo e sócio da Cozalinda. É sommelier de cervejas desde 2015, campeão do Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas de 2019. Também atua como diretor financeiro da Abracerva desde 2022, é juiz BJCP Certified e coautor do livro Guia da Sommelieria Brasileira.


* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.

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