Em agosto, a Cervejaria Landel, de Campinas (SP), inscreveu uma cerveja no World Beer Awards (WBA), um dos concursos mundiais de cerveja mais conceituados. Uma só. A Atrás do Bloco, uma Hazy IPA nascida em 2023 como rótulo sazonal de Carnaval, voltou de Londres com três títulos — entre eles o de Melhor IPA do Mundo, uma das categorias mais disputadas da cerveja especial. “Por uma questão financeira e de confiança, a gente inscreveu só ela”, me disse Bruno Cardoso, sócio-fundador e cervejeiro da casa. Aproveitamento de 100%.
Rene Aduan Junior, coordenador do WBA no Brasil desde 2015, enxerga raridade nessa história — mas não onde parece. Para ele, o extraordinário não está no número de inscrições, e sim em quem levou o troféu. “O campeonato confronta cervejas do mundo todo e, às vezes, um ‘patinho feio’ — uma cervejaria de que nunca se ouviu falar internacionalmente, como a Landel — ganha o maior ícone cervejeiro”, explicou.
Patinho feio lá fora, combinado. Aqui dentro, não. Antes de embarcar para o Reino Unido, a Atrás do Bloco já somava nove prêmios em concursos nacionais: ouro no Concurso Brasileiro de Cervejas (CBC) em 2024 e em 2026, ouro na Brasil Beer Cup e na Copa Paulista de 2024, prata em outras três competições em 2025. Não foi um desconhecido que surpreendeu Londres, mas um rótulo premiado há dois anos aqui que finalmente chegou à mesa de quem decide o pódio.
E é aí que está o ponto que me interessa. O que mudou de dois anos para cá não foi a qualidade do que sai dos nossos tanques. Foi o preço do bilhete para os concursos mundiais.
Duas portas de concursos mundiais que ficaram mais baratas
A Landel ganhou ouro no CBC 2026, em Blumenau (SC), e com o ouro veio um desconto para inscrever a cerveja no concurso britânico. “Já era meu intuito mandar para o WBA, independentemente disso, mas o desconto ajudou muito”, contou Bruno. Repare no que ele faz e no que não faz: não mexe uma vírgula na receita, no dry hopping ou no tanque. Mexe na conta de risco de uma fábrica pequena — onde a decisão de competir de fato acontece.
Rene defende a seletiva nacional por dois motivos. O primeiro é o acesso: “É o caso da cervejaria pequena que entrou com uma amostra vinda do CBC e ganhou o prêmio máximo. Isso é fantástico e é o que o campeonato permite.” O segundo é técnico e joga a nosso favor: julgada em casa, a bebida chega fresca à mesa dos jurados — e cerveja artesanal não viaja bem.
A Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) fez o mesmo com o World Beer Cup (WBC), competição da Brewers Association americana: os vencedores da etapa final da Copa Cerveja Brasil recebem inscrição no mundial. O resultado de abril está aí. O Brasil foi o quinto país com mais amostras no WBC deste ano — 164, de 37 cervejarias — e trouxe cinco medalhas, três de ouro. Quatro delas saíram das inscrições distribuídas aos 18 campeões da Copa.
Gilberto Tarantino, presidente da Abracerva, lê o resultado pelo lado da reputação. A parceria com os americanos é, segundo ele, “uma maneira importante de levar ao conhecimento do mundo a qualidade da cerveja brasileira”.
Eu leio pelo lado do mérito. Quatro em cinco significa que o júri brasileiro apontou quase todos os nossos vencedores antes do júri internacional encostar a boca no copo. A seletiva daqui foi um ensaio geral que deu o mesmo resultado da estreia. Isso não é palpite de curadoria: é aferição de qualidade no mesmo padrão.
O que a medalha faz, e o que não faz
Preciso dizer o óbvio: concurso é negócio. Desconto e gratuidade são também estratégias de captação — os concursos mundiais querem mais amostras, as entidades daqui querem relevância. Mas isso não desmerece em nada o fato; põe o crédito no lugar certo. A parceria não fabrica qualidade. Fabrica oportunidade.
E medalha não é venda. Nenhuma taça conserta consumo em queda ou margem apertada. O que ela entrega é credencial — algo que se põe na mesa diante de um importador ou de um distribuidor do outro lado do mundo.
O topo, aliás, não ficou mais fácil. Com a Atrás do Bloco, o Brasil chega a cinco títulos de World’s Best no WBA e mantém, ao longo de dez anos, a média de um a cada biênio. Ou seja: lá em cima, o ritmo brasileiro é o mesmo de uma década atrás. O que mudou não foi a quantidade de troféus. Foi quem consegue disputá-los.
Uma inscrição, três títulos. Essa conta não diz que a Landel deu sorte, nem que a cerveja brasileira melhorou de repente. Diz que havia uma fila de rótulos prontos esperando o preço da entrada cair. Caiu um pouco. Deu nisso.
Luís Celso Jr. é diretor de conteúdo e editor do Guia da Cerveja.
* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.


