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Você pagaria R$ 92 o litro? Cerveja da Oktoberfest de Munique já custa 5 vezes mais que em 1985

Poucos produtos ficaram tão mais caros na Alemanha nas últimas quatro décadas quanto a cerveja da Oktoberfest de Munique. Neste ano, a caneca de 1 litro do maior festival popular do mundo custa em média €15,61 — cerca de R$ 92,70 pela cotação atual do euro —, valor que passa a valer já na abertura da edição deste sábado (19).

Segundo uma análise de Andreas Rees, economista-chefe do UniCredit na Alemanha, publicada pela emissora pública alemã Deutsche Welle (DW), com base em dados do escritório de estatística de Munique, o preço da caneca — batizada de Mass, a tradicional caneca de vidro com capacidade de 1 litro — subiu cerca de 400% desde 1985. É mais do que o triplo da inflação acumulada na Alemanha no mesmo período, de aproximadamente 120%.

Em 1985, a Mass custava 6,25 marcos alemães, equivalentes a €3,20 pela taxa fixa de conversão adotada quando o euro substituiu a moeda alemã — algo em torno de R$ 19,00 se convertidos pela cotação de hoje (sem qualquer correção pela inflação do período).

Confira o preço da caneca em cada uma das cervejarias da festa no site oficial.

O que explica o preço na Oktoberfest de Munique?

Oktoberfest alemã comemora 191 edições em 2026 (Crédito Apesar do preço alto da cerveja na Oktoberfest de Munique, correção do último ano foi uma das menores da série histórica: apenas 2,4% (Crédito: Divulgação / muenchen.de)
Oktoberfest alemã comemora 191 edições em 2026 (Crédito Apesar do preço alto da cerveja na Oktoberfest de Munique, correção do último ano foi uma das menores da série histórica: apenas 2,4% (Crédito: Divulgação / muenchen.de)

O dado mais chamativo da edição deste ano da Oktoberfest de Munique, porém, vai na contramão da série histórica: o reajuste foi um dos mais brandos já registrados. A alta de 2,4% em relação a 2025 ficou abaixo da inflação alemã prevista para o ano, perto de 3%, e é a menor variação em duas décadas.

“O preço da cerveja na Oktoberfest de Munique depende de uma combinação peculiar de safras, preços de energia, salários, custo das tendas, segurança e da disposição de milhões de visitantes em gastar generosamente”, disse Rees à DW.

Segundo o economista, o recuo no preço do lúpulo e a estabilização da cevada maltada — as duas principais matérias-primas da cerveja, além da água e do fermento — ajudam a explicar por que o reajuste deste ano ficou tão contido.

Uma festa que atrai milhões

A Oktoberfest não é apenas a maior festa de cerveja do mundo — é também um retrato vivo da tradição bávara, remontando a 1810. Já são 191 edições. O nome popular do evento, Wiesn, é uma abreviação no dialeto bávaro para Theresienwiese, o terreno em Munique batizado em homenagem à princesa-herdeira Therese von Sachsen-Hildburghausen. Este ano, entre 6 e 7 milhões de visitantes são esperados na cidade, que abre oficialmente a festa com a cerimônia em que o prefeito de Munique perfura o primeiro barril.

Diferente do que o nome dá a entender, a Oktoberfest tradicionalmente começa em setembro para aproveitar os últimos dias do verão antes da chegada do frio do outono no hemisfério norte.

Por trás da caneca, uma disputa por antitruste

Se o preço já é motivo de manchete, quem tem o direito de vender essa cerveja dentro dos portões da Oktoberfest também virou disputa jurídica — segundo reportagem do The Wall Street Journal republicada pela InvestNews. Há décadas, apenas seis cervejarias, todas sediadas em Munique e obrigadas a seguir uma lei de pureza que remonta a 1487 (usar apenas cevada, lúpulo e água extraída de um poço dentro dos limites da cidade), têm autorização para fornecer bebida ao festival. Até o príncipe Luitpold da Baviera, herdeiro da família que fundou a Oktoberfest em 1810, foi barrado nos anos 1980 e perdeu na Justiça, em 1990, uma ação alegando cartel e monopólio.

Agora é Steffen Marx, fundador da cervejaria Giesinger Bräu, quem tenta furar o bloqueio: ele já reuniu 21 mil das 35 mil assinaturas necessárias para forçar um referendo municipal que poderia abrir uma vaga para sua marca em 2027, depois de investir €12,4 milhões (cerca de R$ 73,7 milhões) para perfurar um poço próprio dentro das regras exigidas.

A disputa se estendeu este ano também à administração das tendas do festival — o restaurante Münchner Stubn processou a cidade depois de perder licitações para operar as maiores delas. O Tribunal Superior da Baviera (Bayerisches Oberstes Landesgericht, BayObLG), mais alta instância cível do estado, ouviu o caso em 11 de setembro e sinalizou ceticismo quanto ao argumento do dono do Münchner Stubn, Alexander Egger, de que a lei europeia de licitações públicas deveria valer para a disputa das tendas. Segundo o portal jurídico alemão LTO, o próprio tribunal afirmou que “uma decisão ainda não foi tomada” e marcou o veredito final para 16 de outubro.

Em junho, a mesma corte já havia rejeitado um pedido de liminar de Egger para suspender a alocação das tendas Paulaner e Schottenhamel antes da edição deste ano — mas só por falta de tempo até a abertura do festival, sem entrar no mérito da disputa sobre a lei de licitações.

Advogados especializados em concorrência na Alemanha discordam sobre se o arranjo configura de fato um cartel — um deles nota que o próprio estado da Baviera é dono de uma das seis cervejarias autorizadas. Para Marx, o dilema é outro: se a Giesinger conseguir entrar na Oktoberfest, corre o risco de perder justamente a identidade de marca rebelde que a tornou popular. “Talvez as pessoas deixem de gostar de nós”, disse ele.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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