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Belgas encontram US$ 10 milhões em ouro no complexo de antiga cervejaria

Operários que trabalhavam em uma reforma descobriram a fortuna dentro de uma parede de uma antiga adega da mansão que ficava no mesmo terreno da fábrica. O ouro será mantido sob custódia do Estado por 5 anos 

O que deveria ser apenas mais um dia de trabalho rotineiro em uma reforma transformou-se em uma das maiores descobertas de tesouros da história recente da Bélgica. Operários da construção civil que realizavam escavações nas fundações de uma mansão histórica tombada, conhecida como Brouwershuis (Casa dos Cervejeiros), encontraram uma fortuna em ouro avaliada em cerca de 10 milhões de dólares (9 milhões de euros). O detalhe mais fascinante: o casarão pertenceu a uma rica dinastia cervejeira do século passado que ficava no mesmo terreno da fábrica.

A notícia foi publicada na semana passada em sites jornalísticos dos Estados Unidos, como o New York Times, e da Europa, como The Guardian e BBC.

A descoberta ocorreu em Sint-Gillis-Dendermonde, uma comunidade de língua flamenca com cerca de 47 mil habitantes, situada a aproximadamente 30 quilômetros a noroeste de Bruxelas. Durante a escavação de valas para a instalação de um novo sistema de escoamento e tubulações de esgoto no subsolo da mansão, a equipe de trabalhadores deparou-se com algo reluzente no fundo da trincheira.

Kobe, um estudante de 18 anos que realizava um trabalho temporário de verão na obra, foi o responsável pelo primeiro contato visual. “No início, pensei que fossem moedas de 1 euro. Começamos a cavar e, então, vimos uma barra de ouro”.

À medida que as brocas de perfuração avançavam pelas paredes de tijolos de uma adega desativada no porão, o tesouro começou a se revelar por completo. O ouro estava deliberadamente emparedado — “tijolado”, nas palavras do próprio Kobe — dentro de uma parede dupla de tijolos, escondido dentro de uma sacola.

O legado de Theophilus Van Assche

Para além do valor financeiro, a descoberta resgata um capítulo dourado da história do mercado de cerveja belga. A imponente mansão foi construída na década de 1900 para servir de residência a Theophilus Van Assche, um influente e abastado proprietário da Cervejaria Van Assche.

Ele ergueu a casa no mesmo terreno, exatamente ao lado da fábrica, construída e inaugurada um ano antes, em 1899, na então recém-aberta rua Van Langenhovestraat (avenida importante na cidade hoje). A produção de cerveja no local perdurou por mais de sete décadas, encerrando suas atividades industriais em 1970. O edifício da cervejaria foi demolido anos depois, sendo mantidos apenas a residência e os estábulos.

O casarão é agora um patrimônio histórico tombado pelo poder público. Até hoje, os imponentes portões de ferro forjado que cercam a entrada da propriedade ostentam orgulhosamente as iniciais “VA”, uma marca física da passagem da família Van Assche pelo local.

Segundo Piet Buyse, ex-prefeito de Dendermonde e profundo conhecedor da história local, a fortuna da tradicional família cervejeira permaneceu na linhagem familiar por gerações. “Não me surpreenderia em nada se eles tivessem decidido converter pelo menos uma parte de seus bens em ouro e escondê-lo em um local seguro”, afirmou Buyse à imprensa belga.

O inventário da fortuna

O espólio ocultado na adega revela o tamanho do patrimônio acumulado pela cervejaria no auge de sua operação no século passado. O inventário detalhado do tesouro registrou 49 barras de ouro numeradas (lingotes), mais de 4 mil moedas de ouro e algumas pepitas de ouro bruto. O valor estimado de mercado gira em torno de 9 milhões de euros.

O anúncio do achado provocou tanto espanto quanto dor de cabeça para as autoridades locais. Patrick Feys, chefe da polícia de Dendermonde, admitiu ter achado que se tratava de um trote quando foi interrompido em uma reunião de trabalho. “Pensei que fosse piada, porque coisas assim normalmente não acontecem na vida real”, declarou.

A delegacia local viveu momentos de forte tensão devido ao risco de segurança que a presença do ouro representava. Uma equipe de quatro policiais realizou a contagem minuciosa sob as lentes das câmeras de vigilância. O chefe policial confidenciou que só conseguiu respirar aliviado após a escolta e transferência do tesouro para uma instalação federal de custódia na capital, Bruxelas.

Quem fica com o ouro?

Atualmente, a propriedade pertence ao Centro de Apoio Social de Flandres Oriental uma organização de assistência social que está promovendo uma ampla reforma de revitalização no prédio. O projeto prevê a preservação das paredes externas históricas, mas o interior está sendo totalmente remodelado para abrigar novos escritórios administrativos e moradias de transição para acolhimento de pessoas sem-teto.

O diretor da instituição, Geert Hillaert, expressou assombro com o caso e afirmou torcer para que parte dos recursos possa ser revertida para as causas assistenciais da entidade.

No entanto, o destino desse tesouro cervejeiro é um quebra-cabeça jurídico que pode levar anos para ser solucionado. Pela lei civil belga, as barras e moedas devem permanecer sob custódia do Estado por cinco anos. Esse período é reservado para que herdeiros legítimos — como os descendentes diretos da família cervejeira Van Assche — possam reivindicar a propriedade do ouro.

No entanto, a promotoria pública de Flandres Oriental abriu uma investigação para garantir que o ouro não seja fruto de roubos ou atividades criminosas do passado.

Caso nenhum herdeiro comprove a propriedade após o prazo e a investigação criminal descarte a origem ilícita, a lei belga determina uma divisão igualitária: 50% do valor será destinado aos descobridores (os operários e a construtora responsável pela obra) e metade do valor caberá ao proprietário do imóvel.

Enquanto o relógio dos 1.823 dias corre, a polícia local já emitiu avisos rigorosos para que curiosos e “caçadores de tesouros” evitem o canteiro de obras, assegurando que o prédio foi minuciosamente revirado e que não resta mais ouro na antiga cervejaria.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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