Em agosto deste ano, o World Beer Awards (WBA) — um dos maiores concursos de cerveja do planeta — anunciou os vencedores de sua etapa regional, que serve como seletiva para o título mundial de cada estilo. O Chile conquistou 11 títulos de Country Winner entre 33 medalhas na etapa nacional; a Colômbia, 7 entre 9; o Equador, 3 entre 4. É um desempenho que desmente qualquer ideia de que a cerveja artesanal na América do Sul seja coadjuvante no cenário internacional. O Brasil, para registro, chegou a 48 Country Winners e 121 medalhas. Mesmo a Argentina, que amargou apenas um título no WBA, já tinha feito história meses antes: em abril, na World Beer Cup (WBC), conquistou três medalhas — a melhor campanha já registrada pelo país na competição.
O contraste começa aí. Nenhuma dessas conquistas nasceu de um ambiente fácil. Em abril, à margem da IV Copa Sul-Americana de Cerveja, durante a 16ª Envase Brasil, em Bento Gonçalves (RS), uma mesa-redonda reuniu cervejeiros da Argentina, do Chile, da Colômbia e do Equador — vozes que raramente dividem o mesmo palco — para discutir a realidade de seus mercados. O que emergiu dali foi um retrato bem distante do otimismo que também marcou 2026 na diplomacia regional, ano em que o Mercosul comemorou 35 anos do Tratado de Assunção e viu entrar em vigor seu histórico acordo com a União Europeia: mesmo produzindo cerveja artesanal boa o suficiente para vencer lá fora, cervejeiros independentes desses quatro países seguem tropeçando, em casa, em assimetrias regulatórias, tributação punitiva e barreiras logísticas que nenhum tratado — nem nenhuma medalha — resolve sozinho.
As falas mostram que a realidade operacional do setor é bem diferente do reconhecimento internacional recém-conquistado, com dificuldades que vão da infraestrutura à burocracia — e que dizem respeito, sobretudo, à forma como cada país trata (ou não) suas microcervejarias.
O paradoxo da cerveja artesanal argentina

O caso da Argentina exemplifica o paradoxo entre maturidade técnica e instabilidade — o mesmo dilema que rendeu ao país, meses depois, sua melhor campanha histórica na World Beer Cup. Após forte expansão a partir de 2015, o setor sofreu com a pandemia. Segundo Gabriel Monteiro, gerente industrial da La Paloma, o consumo concentrava-se em bares e growlers de 2 litros. A fiscalização flexível impulsionou microcervejarias, que alcançaram 25% de mercado em cidades como Mar del Plata. Contudo, a ausência de envase próprio provocou o fechamento de diversas fábricas na crise sanitária, gerando alta oferta de equipamentos usados.
“A pandemia foi um ponto de quebra, como aqui no Brasil também. Eu acho que veio baixando muito o consumo da cerveja artesanal, com a mudança de hábitos também. Mas, economicamente, a pandemia foi muito impactante pra maioria das cervejarias”, diz Gabriel.
O abastecimento de insumos tem sido crítico. Apesar de ser o segundo maior produtor de malte da região, o país sofre com escassez de tipos especiais (caramelizados e torrados) devido a barreiras não tarifárias e instabilidade política. Além disso, a peletização do lúpulo patagônico superaquece a flor e gera pellets duros, prejudicando o dry hopping. Diante da perda de qualidade do lúpulo norte-americano no transporte, produtores recorrem ao Brasil, beneficiando-se da distância e da tecnologia superior de pellets dos lúpulos nacionais do país vizinho.
Para atender à demanda por opções sem glúten sob uma legislação que proíbe enzimas químicas na cerveja, as fábricas adotaram cereais naturalmente isentos, como o milhete (miro). Já há maltarias especializadas. A técnica exige estrutura separada para evitar contaminação cruzada, mas garante produtos de alta qualidade.
Chile: qualidade que não paga as contas
O mercado chileno opera sob uma lógica distinta. Também houve um bom crescimento da cerveja artesanal, atingindo o pico em 2021. Hoje, ele passa por estagnação e fechamento de fábricas, castigadas por sua geografia continental e por uma estrutura de pagamentos perversa, explica Verônica Carrasco, cervejeira há 11 anos na capital Santiago — o mesmo país que, meses depois dessa conversa, liderou o desempenho da América do Sul no World Beer Awards.
O desenho geográfico do Chile faz com que a cerveja precise viajar de 2 mil a 3 mil quilômetros para distribuição. O frete e a logística são proibitivos para pequenas fábricas, obrigando os produtores a focarem em vendas diretas e microidentidades locais para sobreviver, conta a cervejeira.
Mas a “asfixia silenciosa” do fluxo de caixa é o maior inimigo do produtor local. Com faturas pagas por bares e restaurantes em prazos de 30 a 90 dias, o microcervejeiro se vê sem capital de giro. “Você praticamente entrega seu produto de graça, enquanto precisa comprar seus insumos à vista e pagar salários, aluguel e comida na hora. É extremamente difícil depender 100% de intermediários, como bares e restaurantes”, relata.
No Chile, as importações já foram bastante dominantes no setor da cerveja, respondendo por 10% a 15% do mercado. Mas com a melhoria dos produtos locais, os apreciadores têm trocado IPAs cansadas por versões frescas nacionais. Verônica também menciona que o consumo das Sours (cervejas ácidas) vem crescendo, que há um movimento para desmistificar o consumo de cerveja como bebida barata e existe forte investimento no segmento sem álcool.
A violência regulatória colombiana
No mercado colombiano, o setor artesanal enfrenta o que podemos chamar de violência regulatória — nem de longe compatível com a taxa de conversão quase perfeita que suas cervejarias tiveram no World Beer Awards.
Apesar de um consumo per capita robusto de 52 litros, a participação das microcervejarias na Colômbia está estagnada em ínfimos 0,45%, conta o cervejeiro Sebastian Villamil. São cerca de 200 cervejarias concentradas em Bogotá, Medellín e plantas maiores em Cali. O movimento começou em 2008 com a Tres Cordilleras e a Bogotá Beer Company, adquirida em 2016 pela AB InBev.
O motivo do freio é estrutural: o governo trata microempresas com o mesmo rigor documental e burocrático exigido de grandes corporações industriais, o que obriga centenas de marcas artesanais novas a ficarem na informalidade com medo da fiscalização e impossibilitadas de expandir comercialmente, segundo Sebastian.
Para contornar os altos custos — exacerbados pela ausência de produção nacional de malte em escala —, produtores organizaram consórcios para importação direta da Alemanha e Rússia. Mas segundo o cervejeiro, o Brasil poderia ser um parceiro ideal para reduzir custos de produção da Colômbia. Há interesse em importar leveduras líquidas brasileiras, malte, lúpulo e até frutas para a produção de cerveja artesanal.
Equador: taxado para não crescer
No mercado equatoriano, a cerveja é alvo de uma política governamental de desestímulo ao álcool que se traduz em barreiras financeiras punitivas.
A cerveja artesanal equatoriana representa apenas 1% do mercado, diz Kenneth Sócola, cervejeiro, diretor regional da Associação Equatoriana de Cervejarias Artesanais e proprietário da Wizard Cerveza Artesanal. As fábricas são, em grande maioria, muito pequenas, com média de 500 litros mensais — o volume total estimado do setor nacional é de 200 mil litros/mês.
A política de desestímulo ao álcool do governo se desdobra em várias áreas. No âmbito financeiro, um dos problemas é o acesso ao crédito público, já que as cervejarias operam com juros bancários de até 24% ao ano. No âmbito sanitário, para cada notificação de novo estilo de cerveja a ser produzido, os órgãos reguladores cobram US$ 900. Além disso, a legislação ambígua gera multas pesadas de até US$ 4 mil.
Isso tudo gera uma grande desvantagem de preço na venda das artesanais ao consumidor. “Nossa garrafa artesanal de 330 ml custa, em média, US$ 3,75 por conta de custos e fretes logísticos altíssimos, enquanto uma cerveja industrial importada chega ao varejo equatoriano por US$ 1,90. Para piorar, o governo reformulou os impostos e inseriu uma taxa sobre o consumo que chega a 75% sobre o valor caso a cerveja passe de um determinado teor alcoólico”, explica Kenneth.
Chicha como ferramenta
Tanto na Colômbia quanto no Equador há pelo menos uma boa notícia: o resgate da chicha, fermentado à base de milho, tradicional entre os povos originários andinos. Segundo Sebastian, essa revitalização tem acontecido não só como uma bebida à parte, mas também como meio para viabilizar a produção cervejeira local.
Ele defende que usar fontes locais de amido ligadas à tradição da chicha é a melhor alternativa para as cervejarias. “Precisamos valorizar o nosso território, dar o devido reconhecimento ao milho, à quinoa, à batata e às frutas nativas. Trata-se de usar nossa rica biodiversidade para baixar custos reais de produção, deixando de copiar cegamente modelos importados que simplesmente nos engessam em padrões prontos”.
Kenneth confirma que a chicha já é uma realidade prática e bem-sucedida nas panelas equatorianas. Em meio ao crescimento de cervejas de estilo Lager no Equador, as cervejarias locais estão desenvolvendo receitas com frutas nativas e milho. Nesse contexto, a chicha acaba sendo usada como uma ferramenta para transformar categorias tradicionais de cerveja em produtos com alto valor agregado e forte identidade local.
O World Beer Awards mediu a qualidade técnica que essas cervejarias já têm. A chicha aposta em outra coisa: que a soberania sobre o insumo — e não o selo internacional — é o que vai sustentar essa qualidade no longo prazo.


