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A crise de identidade da cerveja

O colunista Eduardo Sena explica como a cerveja com proteína expõe a crise de identidade da cerveja em nosso tempo. E pergunta: até onde uma cerveja pode mudar sem deixar de ser cerveja?

Cada vez que o mercado de cerveja lança uma inovação, eu penso: “daqui a pouco vão colocar whey na cerveja”. Era só uma piada. Aí colocaram.

Tão rápido quanto muita gente correu para elogiar o lançamento da cerveja com proteína, outra parte da internet não botou tanta fé. Teve quem dissesse que agora dá para bater a meta de proteína no boteco. Outros lembraram que a única proteína aceitável perto de uma cerveja gelada continua sendo aquela servida ao ponto e bem acebolada.

O marketing que me perdoe, mas os memes são um ótimo termômetro do nosso tempo. Só que, dessa vez, acho que eles olharam para o lado errado.

A novidade não é a cerveja com proteína, mas que — queira você ou não — ela faz sentido em 2026. Nos últimos anos, a cerveja mudou demais: tiraram o glúten, as calorias, o álcool, o açúcar e, segundo alguns, a própria razão dela existir. A Gen Z bebe menos; o consumo mundial caiu; as cervejarias leiloam a própria dignidade pra tentar ser relevantes. Ou seja, aquela brejinha que sempre esteve no mesmo lugar na nossa vida precisou procurar novos espaços no nosso dia a dia. 

A cerveja parece que vive uma crise de identidade.

Antes o jogo estava ganho. Bastava ser boa e chegar gelada. Agora, a cerveja precisa ser saudável, funcional, compatível com a academia, com a corrida noturna, com a dieta, não reagir com os remédios de emagrecimento, ficar bonita na foto do Instagram e fazer sentido em uma rotina que não gira mais em torno do happy hour. 

Percebe como a conversa mudou?

A cerveja não briga mais com outras cervejas. A disputa agora é com suplementos, cafés especiais, energéticos, refrigerantes, água saborizada e qualquer coisa que prometa acompanhar o nosso estilo de vida e ainda render um bom post.

Talvez seja por isso que enfiaram proteína na cerveja. O que não tem a ver com reinventar a lei da pureza alemã, mas com um consumidor que não é mais o mesmo e com a eterna tentativa da indústria de acompanhar as tendências.

O ponto é: até onde uma cerveja pode mudar sem deixar de ser cerveja?

Não pergunto isso como purista, pelo contrário. E como alguém que trabalha com comunicação e marketing, entendo o drama da indústria e a necessidade de inovar.

O que me intriga é que, em algum momento, toda marca corre o risco de tentar agradar tanta gente que perde o próprio rumo. Na cultura pop, isso é conhecido como “fan service”, quando a direção e os roteiristas começam a guiar a história pelo termômetro das redes sociais, da fan base ou pela vontade de chocar a audiência. Isso acaba quebrando a lógica interna da série e dos personagens, como rolou em “Game of Thrones”, “Lost” e outras séries.

Talvez isso nunca aconteça com a cerveja e essa coisa de “beer protein” vire moda, vire categoria, vire barrinha sabor calabresa, pernil e medalhão de frango com bacon. O pessoal é criativo.

Ou talvez, daqui a alguns anos, a gente descubra que sempre subestimou os memes.

Enquanto a resposta não chega, continuo achando que a proteína vai muito bem com cerveja. Desde que venha no rechaud, rodeada de cebola dourada, maionese da casa e rodelas de pão francês que montam um combo de assustar qualquer Gen Z fã de balada de cafeteria. Mas é só a minha opinião. Qual é a sua? 


Eduardo Sena é publicitário, entusiasta cervejeiro, podcaster e agitador etílico-cultural. Com mais de 20 anos de experiência como criativo, é diretor de conteúdo do Hora do Gole HUB — plataforma que conecta cerveja, cultura, equidade e criatividade. Também colabora como estrategista e criativo para outras marcas.


* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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