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Inspirada nos Radlers, Sierra Nevada lança “cerveja-refrigerante” puro malte nos EUA

Pode-se dizer que o Radler é um drink feito com cerveja. Uma mistura meio a meio, em geral, de cerveja (o estilo varia) e suco de laranja ou limão. É muito refrescante e o teor alcoólico cai pela metade. Mas nesse caso há uma diluição do sabor da cerveja. Para resolver esse problema — e pegar carona na tendência de moderação no consumo de álcool — a Sierra Nevada lançou na segunda quinzena de agosto nos Estados Unidos três novos sabores da Shred, uma “beer soda”, segundo a própria cervejaria, sediada em Chico, na Califórnia. Ou, em bom português, uma “cerveja-refrigerante”.

Com sabor de toranja (grapefruit), a primeira Shred foi lançada em junho deste ano exclusivamente nas lojas da Sierra Nevada em Chico, na Califórnia, e Mills River, na Carolina do Norte. A marca agora expande a linha e a distribuição, com os sabores limão-siciliano, laranja e limão com gengibre, além de uma caixa de 12 latas variadas.

O produto ainda não é comercializado no Brasil.

Cerveja ou refrigerante?

Mas não se engane pelo nome da “categoria” do produto. É realmente uma cerveja, que tem 4,5% de álcool e é feita apenas com as quatro matérias-primas básicas: malte, lúpulo, água e levedura. Não leva refrigerante na receita. Ou seja, aqui no Brasil, seria até considerada uma cerveja puro malte.

A diferença é que se trata de uma cerveja altamente carbonatada (com muito gás carbônico) e de um sabor cítrico adocicado, fazendo com que pareça um refrigerante. Segundo a própria Sierra Nevada, essa experiência semelhante ao produto não alcoólico é que acaba trazendo o nome de “cerveja-refrigerante” à tona.

“Não, nada de refrigerante. O nome vem da experiência de degustação semelhante à de um refrigerante, bem diferente da cerveja tradicional. Como a maioria das cervejas, a Shred contém apenas água, malte, lúpulo e levedura, além de um toque cítrico”, explica o blog oficial da cervejaria.

Como é feita a “cerveja-refrigerante” da Sierra Nevada

Mas como é possível fazer um produto assim sem diluir com um suco, como no caso do Radler, e com pleno sabor da cerveja? Uma resposta fácil seria: com saborizantes, como extratos e essências. Mas a tecnologia da Shred vai um pouco além disso. Ela usa um tipo de levedura especial.

“Graças a alguns testes minuciosos realizados pela nossa equipe de Inovação na cervejaria, descobrimos que, quando essa levedura é combinada com o açúcar certo, podemos criar uma cerveja com carbonatação semelhante à de refrigerante e um sabor mais vibrante e adocicado do que as cervejas tradicionais. Adicione um toque cítrico e pronto — você tem a Shred”, descreve o blog oficial.

Acompanhando as tendências

A Sierra Nevada é uma das cervejarias norte-americanas que estão apostando em linhas de produtos diferentes da cerveja convencional. Algumas delas escolheram bebidas prontas para beber (RTDs, na sigla em inglês), outras optaram por cervejas fora do convencional, como a Shred. No caso da empresa californiana, esses produtos são marcados com a etiqueta “Crafted By Sierra Nevada”. E  refletem a resposta da empresa aos novos caminhos do mercado.

Tanto os Estados Unidos quanto o Brasil vivem uma tendência de moderação ou de, pelo menos, um maior controle sobre o consumo de álcool. Um dos reflexos disso na indústria é a explosão de cervejas sem álcool, além do consumo do tipo “listra de zebra”, alternando cervejas alcoólicas e não alcoólicas.

No exterior, bebidas de baixo teor alcoólico têm crescido. E essa categoria já começa a dar sinais aqui no Brasil também. Apesar de não se encaixar nos termos da legislação brasileira como uma cerveja de baixo teor alcoólico (entre 0,5% e 2%), o lançamento da nova Heineken Ultimate pode ser considerado um passo em direção a isso. Com 3,5%, o produto tem 30% menos álcool que a versão regular da Heineken (5%), além de 30% menos calorias.

Os drinks de cerveja com sucos ou refrigerantes não são muito comuns no Brasil, mas Radlers, Shandys e outras misturas também têm crescido na Europa, segundo o site The Drinks Business. “Radler” em alemão significa ciclista. A origem do nome se dá porque teria sido servido inicialmente nos bares próximos às trilhas dos Alpes da região de Munique, no Sul da Alemanha, um passeio tradicionalmente feito de bicicleta pelos alemães. Há histórias que dizem que, num dia quente, teria faltado cerveja em um desses estabelecimentos, que misturou suco de laranja na bebida para fazer render o estoque.

Independentemente do tipo de tradição ou tendência vinculada, o exemplo da Sierra Nevada abre novas possibilidades para a indústria cervejeira se inspirar e, quem sabe, lançar produtos parecidos. Essas novas possibilidades podem atender os mesmos clientes em novas situações de consumo ou trazer um público diferente para o setor.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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