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“Circularidade tem dimensão econômica e estratégica”, diz nova presidente da Abralatas

Depois de quase duas décadas atuando no setor de embalagens metálicas, Thais Fagury iniciou em setembro um novo capítulo da carreira. A executiva assumiu a presidência da Associação Brasileira da Lata de Alumínio (Abralatas), sucedendo Cátilo Cândido, que esteve à frente da entidade por seis anos.

A mudança coloca Thais diante de uma indústria diretamente ligada aos movimentos do mercado de bebidas e que tenta ampliar a presença da lata em novas categorias, ao mesmo tempo em que acompanha discussões sobre tributação, logística reversa, descarbonização e competitividade.

A cerveja ocupa lugar importante nesse cenário. Além da presença consolidada entre as grandes marcas, a lata avançou nos últimos anos entre cervejarias artesanais e produtos de maior valor agregado, enquanto antigas percepções sobre a embalagem começaram a perder espaço.

A seguir, Thais detalha o que leva da experiência no setor de embalagens de aço para a nova função, as possibilidades de crescimento no mercado cervejeiro e o peso da reciclagem em uma cadeia exposta às oscilações do alumínio, câmbio, energia e cenário internacional.

Você chega à Abralatas depois de quase duas décadas atuando no setor de embalagens metálicas, inclusive à frente da Abeaço e da Prolata. O que dessa experiência você traz para a indústria de latas de alumínio e quais devem ser as prioridades da sua gestão neste primeiro ciclo?

Minha trajetória profissional sempre esteve muito ligada à indústria de embalagens, à economia circular e à construção de políticas públicas. Uma das principais lições que trago de quase duas décadas nesse setor é que sustentabilidade e competitividade industrial precisam caminhar juntas. E que nenhuma transformação acontece de forma isolada: é preciso conectar indústria, poder público, cadeia de reciclagem e sociedade, sempre com transparência, dados estruturados e resultados concretos.

Chego à Abralatas com muita disposição para ouvir as empresas associadas e toda a cadeia, e para contribuir para consolidar ainda mais a entidade como uma voz técnica e estratégica do setor. Neste primeiro ciclo, nossas prioridades passam por fortalecer a circularidade como instrumento de descarbonização, defender um ambiente regulatório e tributário que reconheça o desempenho ambiental efetivamente entregue pelas diferentes embalagens, ampliar a inteligência de mercado e apoiar o crescimento competitivo das diferentes categorias de bebidas envasadas em alumínio.

Você construiu sua trajetória no setor de embalagens de aço e agora passa a representar a indústria de latas de alumínio. O que muda nessa transição? E quais desafios são específicos da lata para bebidas?

Existe uma base importante em comum entre os dois setores. Estamos falando de embalagens metálicas, materiais 100% e infinitamente recicláveis, e cadeias que têm como lastros a circularidade, a inovação e a articulação entre diferentes elos. São aprendizados que certamente contribuem para a minha atuação agora na Abralatas.

Ao mesmo tempo, cada segmento tem sua própria dinâmica. A lata de alumínio para bebidas está inserida em uma cadeia extremamente ágil, diretamente conectada à indústria de bebidas e às mudanças no comportamento do consumidor. E temos no Brasil uma cadeia de reciclagem bastante madura: há mais de 15 anos o índice de reciclagem das latas se mantém acima de 95% e, em 2024, ultrapassou os 97%. Uma lata usada pode retornar como uma nova lata em cerca de 60 dias.

O desafio é continuar evoluindo e acompanhar a velocidade das transformações do mercado. O consumidor busca cada vez mais praticidade, conveniência e responsabilidade ambiental, e a indústria precisa ter capacidade produtiva, inovação e previsibilidade para acompanhar essas novas demandas.

Energéticos, cervejas sem álcool, sucos e águas cresceram cerca de 30% em latas no primeiro semestre e chegaram, juntos, a 1 bilhão de unidades. O que essa diversificação representa para o setor? E onde fica a cerveja nesse novo mercado?

Chegar a 1 bilhão de unidades em apenas seis meses nessas categorias mostra uma mudança importante no mercado de bebidas e também na relação do consumidor com as embalagens. Temos novas ocasiões de consumo, novos produtos e uma busca crescente por conveniência, praticidade e formatos adequados a diferentes momentos. A lata consegue acompanhar muito bem essa transformação.

A cerveja continua sendo fundamental para o nosso setor e mantém uma relação histórica com a lata. A diversificação não significa perda de espaço para a cerveja. Pelo contrário: fortalece todo o ecossistema, amplia as ocasiões de consumo, estimula novos formatos e mostra para consumidores e marcas a versatilidade da embalagem. Hoje vemos a lata também avançando em energéticos, cervejas sem álcool, sucos e águas, ao mesmo tempo em que segue muito presente no mercado cervejeiro.

A lata avançou entre cervejas artesanais e produtos de maior valor agregado, mas ainda convive com outras embalagens e diferentes percepções de consumo. Onde ela pode ganhar mais espaço no mercado cervejeiro brasileiro?

Há espaço principalmente onde inovação, conveniência, sustentabilidade e experiência de consumo caminham juntas. O avanço da lata entre cervejas artesanais e produtos de maior valor agregado mostra justamente que a embalagem pode estar presente em diferentes posicionamentos, ocasiões e faixas de mercado.

Do ponto de vista técnico, o alumínio oferece atributos importantes para a cerveja: bloqueia a entrada de luz, reduz a exposição ao oxigênio, resfria rapidamente e ajuda a preservar as características do produto. Soma-se a isso a facilidade de transporte, as possibilidades de design e diferenciação, segurança e uma cadeia de reciclagem consolidada.

Ainda existe um trabalho de informação a ser feito para superar algumas percepções históricas sobre a embalagem. Não se trata de estabelecer uma disputa entre materiais, mas de mostrar de maneira objetiva os atributos da lata e permitir que cervejarias e consumidores façam suas escolhas com mais informação. A própria presença crescente da lata entre cervejas artesanais e premium mostra como essa percepção já vem mudando.

A Abralatas defende que a sustentabilidade das embalagens seja considerada nas discussões regulatórias e tributárias. Na prática, quais critérios deveriam diferenciar os impactos ambientais de cada embalagem?

Defendemos um princípio bastante objetivo: os impactos ambientais devem ser analisados a partir de resultados concretos, e não apenas do potencial de uma solução. Quando políticas públicas e instrumentos regulatórios ou tributários incorporam critérios ambientais, é importante que existam parâmetros públicos, objetivos, verificáveis e isonômicos.

Na prática, isso significa considerar indicadores como os resultados efetivamente alcançados em reciclagem, a capacidade de reinserção dos materiais em novos ciclos produtivos, a eficiência dos sistemas de logística reversa e os impactos econômicos e sociais associados a essas atividades.

Câmbio, energia, preço do alumínio, frete e tensões geopolíticas pressionam uma cadeia global como a de latas. Em um cenário internacional mais instável, quais são hoje os principais riscos e oportunidades para a indústria brasileira?

Somos uma indústria inserida em uma cadeia global e, naturalmente, exposta à volatilidade do preço do alumínio, câmbio, energia, logística, barreiras comerciais e tensões geopolíticas. Esse ambiente exige cada vez mais planejamento e previsibilidade.

Ao mesmo tempo, o Brasil possui um ativo muito importante: uma cadeia de reciclagem extremamente desenvolvida. Quando conseguimos manter o alumínio circulando na economia, reduzimos a necessidade de utilização de matéria-prima primária e aproveitamos um material que já está disponível no país. A reciclagem do alumínio pode representar economia de até 95% de energia em relação à produção do metal primário.

Por isso, a circularidade não é apenas uma agenda ambiental. Ela tem uma dimensão econômica e estratégica. O Brasil tem indústria instalada, capacidade produtiva, escala de consumo e um sistema de reciclagem consolidado. Temos a oportunidade de usar esses atributos para fortalecer nossa competitividade e nos posicionar cada vez mais como referência em uma indústria de baixo carbono.

Marcelo Tárraga
Marcelo Tárraga
Marcelo Tárraga é jornalista, comunicador e estrategista de content marketing B2B. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, tem MBA em Gestão de Marketing Digital e formação em empreendedorismo e Startup Education pelo Founder Institute. Ao longo da carreira, atuou em jornalismo, agências e empresas de tecnologia, em organizações como TV Globo, VML/Y&R e Meta. É Diretor de Marketing Digital do Guia da Cerveja.
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