A cerveja artesanal também é produzida, servida e pensada a partir das periferias brasileiras. Em alguns casos, o território está no próprio endereço das marcas ou das cervejarias periféricas. Em outros, aparece na história de quem criou o negócio, nas causas que representa ou nos espaços culturais que passou a ocupar.
Os seis projetos desta lista nasceram em contextos diferentes. Há marcas que tiveram fábrica própria e mudaram de modelo, bares que se tornaram pontos de cultura, uma cerveja que entrou até no roteiro turístico de uma das maiores favelas do país e outra que nasceu dentro de uma escola de gastronomia.
Em comum, ajudam a ampliar o mapa da cultura cervejeira brasileira e mostram diferentes relações entre cerveja, território, identidade e empreendedorismo.
Graja Beer: cerveja com raízes no extremo sul de São Paulo
Grajaú, São Paulo (SP) | Instagram: @grajabeeroficial

A história da Graja Beer começou em 2016, quando um grupo de educadores, professores e artistas conversava numa mesa de bar no Grajaú, extremo sul de São Paulo, sobre uma questão bem concreta: por que o dinheiro gasto em cerveja no bairro seguia para fora daquele território?
Foram quase dois anos de pesquisa até o lançamento oficial, em 25 de janeiro de 2018, no Centro Cultural Grajaú. Vieram depois três bares da marca ao longo dos anos, cada um maior que o anterior, além de eventos, parcerias e uma relação cada vez mais próxima com samba, hip-hop, futebol de várzea e educação.
Há dois anos, o bar mais recente fechou as portas. Não por ter fracassado: pressionado por dívidas acumuladas e pelo desgaste do pós-pandemia, o fundador Leandro Sequelle decidiu pausar a operação física antes de comprometer a própria saúde mental. Daí em diante, a marca passou a operar sem endereço fixo, com o que Sequelle chama de “raízes e asas”: uma rede autônoma dentro da comunidade, somada a parcerias com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de São Paulo para a realização de eventos.
Em 2026, ao completar dez anos desde sua concepção, a Graja lançou Origens, colaboração com Edi Rock, dos Racionais MC’s, e a Cervejaria Tarantino. A parceria marcou o retorno de um rótulo próprio do rapper, que já havia lançado cerveja em nome próprio anos antes, e resume um caminho que a Graja vem construindo desde o início: aproximar a produção cervejeira de referências culturais que já faziam parte da vida do bairro.
Para Sequelle, a cerveja nunca foi o objetivo em si, mas uma ferramenta de emancipação econômica de pessoas pretas, periféricas, mulheres e LGBTs. Entre os planos de longo prazo que ele contou ao Guia da Cerveja está a criação de uma escola de educação infantil voltada para crianças da periferia.
Pokazideia: cerveja que nasce dentro de uma escola de gastronomia periférica
Capão Redondo, São Paulo (SP) | Instagram: @gastronomiaperiferica

A Pokazideia é a cerveja desenvolvida dentro do projeto Gastronomia Periférica, criado em 2012 pelo chef Edson Leite, no Capão Redondo, ao voltar de uma temporada na Europa. O projeto se consolidou como um negócio social com a missão de transformar vidas através da alimentação e da formação, unindo uma escola de gastronomia que profissionaliza moradores da região.
O nome vem de uma gíria da periferia que significa abreviar ou encerrar uma conversa ou afirmar algo. A ideia central, segundo Leite, é transformar o morador da periferia, muitas vezes operando maquinário em grandes fábricas, em protagonista, produtor e consumidor de cerveja de qualidade.
A receita usa a azedinha (Rumex acetosa), uma Panc (Planta Alimentícia Não Convencional) cultivada no sítio Nossa Vida, em Parelheiros, que gera renda para o pequeno produtor responsável pelo cultivo. Desenvolvida por Leite em parceria com Rafael Orlandi e refinada com o mestre-cervejeiro Frank Skwirut, da Cervejaria Tria, o resultado é uma Lager leve, de 4,5% de teor alcoólico, com final seco e sabor cítrico e umami da erva.
O alcance foi além do circuito cervejeiro artesanal: a linha pasteurizada é vendida há três anos na rede Carrefour em São Paulo, somando mais de 30 mil litros produzidos, e uma versão exclusiva e de produção limitada foi desenvolvida para o hotel cinco estrelas Pullman Ibirapuera.
Apesar do sucesso comercial, o foco do projeto segue sendo a formação e o domínio da técnica cervejeira como ferramenta de mudança econômica e cultural para quem vive na periferia. Como resumiu o próprio Leite ao Guia da Cerveja: “Resistir não é atacar, é pensar para que aquilo se perpetue.”
Sobe Aê!: cerveja dentro da rota da Rocinha
Rocinha, Rio de Janeiro (RJ) | Instagram: @sobeaecerveja | Projeto: @nafavelaturismo
A Sobe Aê! nasceu dentro do circuito de turismo da Rocinha, a partir da ideia de criar uma cerveja que também carregasse a identidade do território.
A marca foi criada por Renan Monteiro, idealizador do Mirante Rocinha e do Na Favela Turismo. Lançada em dezembro de 2025, começou sendo produzida pela Cervejaria Pontal, em Nova Friburgo. Desde o lançamento, o projeto fala na possibilidade de futuramente levar também a fabricação para dentro da comunidade.
A ligação com a Rocinha aparece principalmente na maneira como a cerveja circula. A Sobe Aê! passou a ser comercializada em bares da Rocinha, do Vidigal e de comunidades vizinhas e foi integrada às experiências do turismo comunitário da região.
No passeio Rocinha a Pé, organizado pelo Na Favela Turismo, a cerveja aparece no próprio roteiro. Depois de passar por mirantes, becos e projetos culturais, o visitante chega ao Samba na Favela, onde conhece artesanato local e pode tomar uma Sobe Aê!. O percurso segue depois pelo Largo do Boiadeiro e pela Via Ápia, um dos principais eixos comerciais, gastronômicos e boêmios da comunidade.
A cerveja também aparece inserida nessa cena de bares e restaurantes da Rocinha, caso do Nordestino da Rocinha, na Estrada da Gávea, casa conhecida por eventos gastronômicos e culturais que recebe moradores e turistas.
Dentro desse circuito, a cerveja vira parte da experiência de conhecer a Rocinha por quem vive, trabalha e empreende ali.
Corisca: cerveja artesanal feita na quebrada
Taboão da Serra, Grande São Paulo | Instagram: @cervejacorisca
A Corisca começou sua trajetória em 2017, ainda como Cerveja Benedita. O projeto é comandado por Melissa Miranda e Eneide Gama e nasceu na periferia de São Paulo com uma identidade ligada ao protagonismo de mulheres, lésbicas e periféricas.
A própria origem da marca dialoga com o acesso. A ideia era produzir cerveja artesanal também para consumidores que estavam longe dos bairros e circuitos onde esse mercado inicialmente se concentrou.
Com sede em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, a marca já colocou em linha estilos como Lager, Witbier, APA e IPA. Ao longo dos anos, também aproximou a produção cervejeira de temas como feminismo, diversidade LGBTQIA+, economia solidária e empreendedorismo periférico.
A Corisca já apareceu no Guia da Cerveja justamente por esse trabalho. A marca integra um movimento em que representatividade passa também por quem produz, administra e transforma a cerveja em negócio.
Implicantes: a fábrica mudou, a história continuou
Cidade Baixa, Porto Alegre (RS) | Instagram: @cervejariaimplicantes

Criada em Porto Alegre (RS) em 2018, a Implicantes ficou conhecida como a primeira fábrica cervejeira negra do Brasil. A marca construiu sua identidade aproximando cerveja artesanal, cultura negra e representatividade.
Os próprios rótulos ajudavam a contar essa história, com homenagens a personagens como Luiz Gama, Ruth de Souza, Leônidas da Silva e Maria Firmina dos Reis.
A pandemia e os anos seguintes mudaram o modelo do negócio. A estrutura própria de produção foi vendida, enquanto as receitas permaneceram com a Implicantes e passaram a ser feitas por cervejarias parceiras.
Em 2023 surgiu o Mocambo, na Rua Joaquim Nabuco, na Cidade Baixa. O bar manteve as cervejas e ampliou a presença cultural do projeto. Nas paredes, na programação e nos encontros aparecem referências à história negra, música, arte e atividades da comunidade. Em 2026, o espaço seguia ativo nessa proposta.
É um caso que mostra como uma marca cervejeira pode mudar radicalmente de estrutura sem abandonar a identidade construída desde a origem.
2BlackBeer: cerveja e cultura sob o Viaduto Santa Tereza
Viaduto Santa Tereza, Belo Horizonte | Instagram: @2blackbeer
A 2BlackBeer nasceu em 2019 em um dos territórios mais conhecidos da cultura urbana de Belo Horizonte (MG): a região sob o Viaduto Santa Tereza.
O projeto foi criado com foco no fortalecimento da representatividade preta e na inclusão dentro da cultura cervejeira. O espaço passou a reunir cerveja artesanal, música, arte, esporte e manifestações que já faziam parte da história do viaduto.
Entre as cervejas ligadas ao projeto está O Viaduto Nunca Mais Foi o Mesmo, uma Haze Session IPA com adição de goiaba e nome diretamente inspirado no lugar onde a 2BlackBeer se desenvolveu.
A programação cultural continua sendo parte importante da casa. Em setembro de 2026, o espaço recebeu a mostra 2Black Cultural – A Rua Vive, com gastronomia afro-diaspórica, artes visuais e discotecagens de música preta, realizada com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.
Embora esteja numa área central de Belo Horizonte, a 2BlackBeer mantém uma relação direta com a cultura negra e periférica. O endereço, a cerveja e a programação acabaram crescendo juntos.
Diferentes caminhos para chegar ao copo
Graja Beer, Pokazideia, Sobe Aê!, Corisca, Implicantes e 2BlackBeer chegaram à cerveja por caminhos diferentes. Também sustentam modelos de negócio variados, como produção terceirizada, colaborações com outras cervejarias, parceria com grandes redes de varejo, bar, turismo, eventos e programação cultural. Mas o fato é um só: conhecer esses projetos ajuda a enxergar como a cerveja artesanal brasileira também se desenvolve a partir de outros territórios, referências e experiências, e como, em cada um deles, o que chega ao copo pode carregar um pouco da história do lugar de onde veio.


