Não lembro exatamente quando foi a primeira vez que fui no Torneira Bar, atualmente Torneira Boteco, mas sei exatamente como me senti: bem. É um ambiente acolhedor que fica na Vila Madalena, região boêmia da Zona Oeste de São Paulo —, mas longe o bastante do fervo para as pessoas poderem ter uma boa conversa enquanto degustam boas cervejas. Duas coisas chamam a atenção desde o início: a arquitetura, já que o desenho do espaço é um prolongamento da rua; e a política de diversidade. Toda a equipe era composta mulheres e pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, especialmente trans, grupo que está entre os mais excluídos do mercado formal de trabalho.
Ao chegar lá hoje você pode se surpreender pelo fato de não haver porta, e sim uma entrada “vazada”, um grande pórtico que marca, mas não divide fora e dentro, abraçando o espaço público. Há mesas, cadeiras, bancos, como todo o bar, porém o piso é uma continuação do “petit pavé” da calçada, as paredes têm lambe-lambe e há plantas por todos os lados, como num jardim. O balcão de bar está lá, mas é de concreto, e as torneiras de chope que dão nome ao bar tem decoração com aquele estilo de registos metálicos de água da entrada das casas.
Ou pode estranhar o fato que naquele balcão o chope artesanal divide espaço com cervejas mainstream, lado a lado e sem problema nenhum. Mas nem por isso o bar perdeu sua essência. Continua aberto a todos, democrático, e mantém as políticas de inclusão que fazem parte da sua personalidade.
E muito provavelmente vai encontrar Danielle Lira atrás daquele balcão. Mulher, negra de cabelos orgulhosamente crespos e volumosos, prestes a completar 35 anos agora em março, ela é a mente por trás do Torneira Boteco. “A diversidade sempre foi parte da identidade e dos valores do Torneira. Não como discurso, mas como prática e ações diárias e afirmativas”, conta.
Uma história de competência
Mas, não se preocupe. Essa não é só mais uma história de superação, daquelas que se tornaram quase um clichê no jornalismo ultimamente. A trajetória da Dani é marcada pela competência acima de tudo, o que se torna ainda mais especial por ela ser quem é e vir de onde veio.
Foi criada na Zona Norte de São Paulo em uma família de origem periférica. Nasceu quando sua mãe tinha apenas 14 anos — hoje cozinheira e parte da comunidade LGBTQIAPN+. “Sempre me incentivou a estudar, a buscar crescimento, a ter autonomia. Ela é uma das minhas maiores referências de coragem e autenticidade”.
Cresceu no caminho do estudo e do trabalho. Conta que sempre foi inquieta, “com personalidade forte”, e gostava de liderar grupos. “Nunca tive medo de falar e ocupar espaços”. Um comportamento ótimo para empreendedores.
Começou a trabalhar com 16 anos em uma rede de fast-food, foi para a área de atendimento e construiu uma carreia de dez anos na área de finanças em instituição financeira. “Foi ali que desenvolvi visão estratégica, capacidade de gestão, negociação e planejamento”.
O convite
Essas habilidades foram essenciais para que fosse convidada para uma sociedade, para estruturar um negócio. A cerveja artesanal já fazia parte dos seus interesses. Ela estudava e conhecia o mercado, promovendo até degustações entre amigos.
“Mas, ao mesmo tempo, eu observava um mercado muito fechado, direcionado a um público bastante específico, principalmente masculino. Eu não me sentia pertencente e incluída ali e percebia que outras pessoas também não se sentiam, especialmente mulheres e pessoas da comunidade LGBTQIAPN+”.
Então aquela oportunidade deixou de ser apenas um negócio e se tornou a construção de um espaço. Formada em Marketing e pós-graduada em ESG, com especialização em Diversidade e Inclusão, Dani sempre teve essa bandeira, que passou a ser um pilar central do empreendimento.
A segunda coluna de sustentação foi uma certa “desgourmetização” da cerveja artesanal, mantendo qualidade, mas sem distanciamento. “A proposta nunca foi apenas abrir um bar. Foi criar um espaço onde as pessoas pudessem conhecer a cultura da cerveja artesanal de forma descomplicada e se sentirem confortáveis, sem julgamentos”.
De Torneira Bar para Torneira Boteco

Outro equívoco é achar que a Dani é idealista, daquele tipo que tem a cabeça nas nuvens. É o oposto. Sim, há nela um senso de propósito claro, e ela frisa que a formação não é apenas acadêmica, “mas prática aplicada na minha trajetória”. Porém, a empreendedora sempre teve os pés no chão.
Abriu o bar há cinco anos. Já enfrentou Pandemia de Covid-19, a sazonalidade do mercado cervejeiro, a formação de novos territórios boêmios e mudanças no comportamento de consumo. “O mercado de cerveja artesanal vive um momento de ajuste. O poder de compra mudou, o perfil de consumo mudou. Isso exigiu decisões estratégicas. Eu precisei amadurecer como gestora”, conta.
Tudo isso pediu mudanças no negócio. E elas vieram. Recentemente, o Torneira Bar se tornou Torneira Boteco. Ela fez ajustes estratégicos no sentido de ampliar o público e democratizar ainda mais o espaço, sem abandonar a cerveja artesanal.
“A escolha de incluir marcas mais populares, como a Amstel, do Grupo Heineken, veio da necessidade de uma parceria forte, estruturada e alinhada aos valores do Torneira, que ajudasse na sustentabilidade do negócio. E essa parceria tem sido incrível, com resultados muito positivos”, conta.
Mudar sem perder a essência
As artesanais continuam presentes. Mas hoje a casa oferece diferentes opções de experiências e preços. Houve ajustes também no cardápio, para entrar mais na proposta de boteco. Mas o compromisso e as políticas de inclusão seguem de pé. “Não romantizo essa escolha. Mas, dentro da minha possibilidade de pequena empreendedora, eu escolho olhar para quem muitas vezes não é olhado e/ou escolhido”.
É verdade, o mercado de cervejas artesanais mudou. Está mais desafiador. E Dani tem clareza disso. “Na minha visão, atualmente a cerveja artesanal é consumida de forma mais pontual, mais experiência do que recorrência. E assim, permanece quem tem identidade clara e gestão consciente”.
Hoje, conta, se sente mais madura como empreendedora, entendendo que propósito sustentabilidade precisam caminhar juntos. “Empreender sendo mulher negra no Brasil é construir todos os dias. É desafiador, é cansativo, mas também é transformador e vem me transformando como gestora e mulher”.
O Torneira Boteco segue com suas bases fortes, mostrando soluções para os negócios cervejeiros e representando a inclusão no mercado artesanal. E a Dani é exemplo, não só pela sua história de superação, mas principalmente pela sua visão empreendedora.
“Sou grata pelo que construí até aqui e pelo legado que o Torneira vem plantando. Mais do que um bar, ele trouxe reflexão sobre inclusão e diversidade dentro do setor cervejeiro. E esse sempre foi o meu maior objetivo”.
Mais pé no chão que isso, impossível.



Querida Dani,
Ao ler sobre você, seus pensamentos e propósitos, tenho a convicção de que tudo acontece no tempo certo para transformar e aprimorar o estado de coisas. Temos quase vinte anos de diferença, o que me faz irresistivelmente voltar um pouco no tempo. Naquele contexto em que cervejas e corpos objetificados (e negligenciados) eram mensagens largamente comunicadas, seria impensável um modelo de negócio como Torneira Boteco. Não tão menos desafiadora sua tarefa de garantir viabilidade ao negócio, mantendo firme propósito social, em tempos atuais. Sabe-se bem onde moram os vespeiros. Ainda assim, sua coragem e tenacidade são estimáveis. Espero que a comunidade cervejeira brasileira saiba valorizar e cuidar de pessoas e negócios valiosos como você e o Torneira Boteco. Muito obrigada pelo movimento inclusivo e transgressivo.
Cilene Saorin
Cilene,
Que mensagem forte. De verdade.
Ler isso vindo de você tem um significado muito grande pra mim. Sei do caminho que você trilhou e da importância que tem dentro do setor. Se hoje conseguimos propor novos formatos e tensionar estruturas, é porque outras mulheres sustentaram presença antes, como você.
Não é simples manter propósito e viabilidade caminhando juntos, mas é uma escolha consciente. E sigo fazendo essa escolha todos os dias.
Obrigada pela generosidade e pelo reconhecimento. Seguimos construindo.
Com respeito e admiração,
Dani