Com a divulgação na terça-feira (5) do Anuário da Cerveja 2025, publicação do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) que compila os dados do setor cervejeiros de 2024, muitos dados do setor passaram a ser conhecidos. Foi revelado, por exemplo, que houve crescimento de 5,5% no número total de estabelecimentos registrados e que chegamos a 1.949 fábricas no país. Mas também há números curiosos. A pequena cidade de Linha Nova, na encosta da Serra Gaúcha, ainda na Região Metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, mantém desde 2022 o título de município com maior número de cervejarias por habitante do Brasil. Ela tem duas cervejarias que abastecem seus 1.720 habitantes. Ou seja, uma para cada 860 pessoas.
>>> Leia mais:
O destaque acaba acontecendo, é claro, não por conta do grande número de plantas fabris, mas pela população reduzida. Sua emancipação é relativamente recente. Foi parte da colônia de São Leopoldo, depois de São Sebastião do Caí até 1959 e do município de Feliz até 20 de março de 1992, quando se tornou independente. Lá ficava um dos mais antigos povoados de imigrantes alemães do país conhecido pelo nome alemão “Neuschneiss” (Picada Nova em português), fundado em 1840. No entanto, essa explicação rápida não faz jus, e acaba escondendo, um dos grandes valores dessa cidade: a grande relevância na história da cerveja brasileira. É de lá a cervejaria mais antiga do Rio Grande do Sul e uma das mais antigas do país, que pertencia ao imigrante alemão Georg Heinrich Ritter.

Linha Nova: o berço da cerveja no Rio Grande do Sul
Ritter aprendeu o ofício ainda na Alemanha, mas ao chegar no Brasil foi agricultor. Após se estabelecer em Picada Nova, montou um pequeno comércio com salão de baile e fazia cerveja para família e amigos. Em 1864, começou a também vender a bebida, mostram documentos históricos. Por isso, a população da cidade tem duas datas para a fundação da cervejaria Ritter: 1846, quando se estabelece o comércio, e 1864, quando há documentos que comprovam a venda de cervejas.

O prédio onde ficava a cervejaria pode ser visitado hoje. Após um tempo sem uso, foi restaurado e reinaugurado em 2018. Hoje é parte de um centro de cultura cervejeira da cidade, que fica no Parque Municipal, no centro de Linha Nova (Rua Henrique Spier, 2420).
Estive lá em 2024 e pude visitar as instalações reformadas, uma casa de pedra — provavelmente para manter a temperatura mais baixa para produção da bebida. Na antiga casa de madeira, ao lado, onde ficava o comércio, pude visitar inclusive o porão, aonde provavelmente parte do trabalho de fabricação se dava (principalmente antes da construção da outra edificação). Lá também e eram mantidas as garrafas das cervejas prontas para venda, por ter temperatura mais amena.

A cervejaria Ritter de Linha Nova é conhecida como berço da cerveja no Rio Grande do Sul não só por ser a mais antiga a se tornar fábrica, de fato — há alguns comércios que faziam cerveja com datas anteriores, como o de Ignácio Rasch, datado de 1824 na colônia de São Leopoldo. Mas também porque partiram de lá as raízes para outras cervejarias, que se tornaram grandes empreendimentos do século 19 e início do século 20 no estado.
Carlos Ritter, Um dos filhos de Georg Heinrich Ritter, fundou uma cervejaria em Pelotas; outro, Henrique Ritter, fundou sua fábrica em Porto Alegre. A de Henrique acabou dando origem à Cervejaria Continental em 1924 ao se fundir com duas concorrentes, Cervejaria Bopp e Cervejaria Sassen. E assim se tornou uma das maiores do Rio Grande do Sul e do país até ser comprada pela Brahma em 1946.
Luís Celso Jr. é Diretor de Conteúdo e editor do Guia da Cerveja. Viajou para Linha Nova em 2024 como parte da pesquisa para escrever um livro sobre a história da cerveja no Brasil. Projeto foi contemplado pela 1ª edição do Edital Fermenta! — Incentivo a Projetos de Cultura Cervejeira, da Academia da Cerveja, da Ambev. Livro ainda será publicado.


