Balcão da Maria Bravura: A aventura da cervejaria cigana

Balcão da Maria Bravura: A aventura da cervejaria cigana

É bastante expressivo o número de pessoas que nestes últimos tempos manifestaram interesse em lançar uma marca de cervejas, terceirizando a produção – modelo de negócio cervejeiro conhecido como cigana. Em junho deste ano, o Brasil registrou sua fábrica de número 1.000, o que revela a clara expansão das cervejas artesanais no país! Para você ter uma ideia, há 10 anos atrás, tínhamos apenas 255 cervejarias (dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). Quanto às ciganas, no Brasil elas já somam mais de 2.000 (segundo a Associação Brasileira de Cerveja Artesanal, dados de agosto de 2019). 

E o interesse da cigana vira desejo, e o desejo se torna sonho… Sonhar e fazer planos é muito comum ao final de cada ano. É nesta época, geralmente, que fazemos um balanço daquilo que vivemos no ano presente, traçando metas e expectativas pro futuro próximo, que está logo ali, nos aguardando pra mais um ciclo de cervejas, conquistas, batalhas, descobertas, mas também amargas desilusões (e não falo do amargor gostoso dos lúpulos). É, ninguém quer se iludir, se enganar e nem perder tempo e/ou dinheiro, mas sem clareza e coragem pra encarar, para além de toda alegria e prazer, todas as dificuldades e desgostos inimagináveis que se espreitam pelo caminho que nos leva até nossos sonhos, corremos grandes riscos, muitos deles, desnecessários.

Quando decidi ser cigana, não encontrei muita literatura com orientações acerca deste assunto específico que me conscientizasse daquilo que me aguardava, mas sim informações muito escassas na internet. Mesmo assim, decidi me arriscar e, na maior parte do tempo, não me arrependo. Por isso, meu propósito neste texto é falar sobre o viver de cigana, ou melhor, sobre a experiência em abrir e trabalhar com uma cervejaria cigana, esclarecendo alguns pontos e desromantizando outros, baseando em minha própria vivência com a Maria Bravura Cervejas Especiais e também na formação cervejeira que obtive até aqui.

Quando nos adentramos a este universo das artesanais, seja tomando, estudando, participando de eventos, nos relacionando com colegas cervejeiros e entusiastas e/ou produzindo, é comum sermos invadidos por uma sensação amigável, onde tudo é possível e nos vermos rodeados e tomados por um crescente interesse pela bebida e deslumbrados pelo brilho cintilante da infinidade de possibilidades que esse mercado parece oferecer pra quem se aventura nele. Quando você se propõe a fazer cervejas e realmente se dá bem no ofício, agradar apreciadores, de início, não parece ser tarefa tão difícil, afinal você se sente criativo e apto a surpreender sua mais nova turma: a cervejeira. Sua cabeça começa a trovejar ideias deliciosamente sedutoras que lhe prometem um futuro promissor de felicidade lupulada.

Você também pode passar a sentir que este é o setor mais divertido e descolado que você já viu na vida, afinal, pra começar, todos tomam cerveja – não importa o horário; todo mundo parece brindar com todo mundo e encontrar alguém sem tatuagem é uma raridade! “Opa, cabe eu aí também nessa farra”, você pensa. Quando menos você espera…Pá! Já foi capturado por dezenas de fantasias e projeções a respeito desse meio e, mesmo que momentaneamente, se deixou levar por ideias um tanto distorcidas sobre a realidade deste setor.

“É o boom das artesanais no Brasil”; “Nunca se falou tanto de cervejas artesanais como hoje”; “É o melhor momento pra se investir neste mercado”; “Está todo mundo atrás de novidades”; “A galera cervejeira torce um pelo outro”; “Você é muito bom/boa nisso, tem que abrir seu próprio negócio”; “Nunca tomei uma cerveja tão boa quanto a sua”; “Sua ideia é revolucionária, ninguém deve ter pensado nisso ainda”, eles dizem. Calma lá. Muita calma nessa hora. Algumas destas sentenças carecem ponderação e jorram generalizações. Pra começo de conversa, amigos e parentes não são boas referências de qualidade de cerveja. É uma delicinha vê-los saborear nossas crias, mas não é o suficiente pra abrir um negócio. Antes de mais nada, procure sommeliers para uma opinião técnica e ‘neutra’ sobre suas cervejas. Pesquise sobre o sommelier/sommelière antes para não acabar caindo nas mãos de um daqueles antiéticos que publicam pareceres-insultos sobre cervejas na internet, caso contrário, a sua pode ser o próximo alvo.

O modelo e o negócio
A cervejaria cigana é uma opção que se tornou o sonho de muitos empreendedores e cervejeiros caseiros, ou, no meu caso, de gente querendo respirar ares completamente diferentes de sua profissão de origem. Reza a lenda que é uma alternativa de baixo investimento inicial pra quem quer produzir e vender cervejas. Quando comparamos este investimento inicial de abertura da cigana com o de abertura de uma micro-cervejaria, por exemplo, sim, faz sentido. Mas não é só isso. Ter grana, boa vontade e certo talento pra “bancar” este negócio, meu amigo/a, não são suficientes, nem de longe.

Sim, há muitas vantagens neste modelo, como por exemplo: a burocracia é absurdamente menor; você tem a chance de ‘testar’ e entender o mercado, até mesmo verificar como você se sente nele (e o quanto ele pode render pra você), antes de abrir uma planta própria; você tem a cervejaria-mãe (chamemos assim) com todos os equipamentos necessários e, dependendo do tipo de contrato, todos os insumos e materiais para as suas produções já inclusos no valor por litro; o CNPJ do cigano se enquadra no Simples Nacional; o risco é menor quando comparado a uma cervejaria de maior porte e, mesmo que você ‘quebre’, fechar uma marca é menos dispendioso do que fechar uma fábrica.

Cada detalhe importa e na hora da ansiedade, talvez você não dê a devida atenção.  Ao procurar por uma cervejaria-mãe que te “abrigue”, que pode ser uma micro-cervejaria ou maior, saiba que cada passo dado pesará mais a frente. É importante fazer uma visita em cada uma das cervejarias que lhe interessarem, averiguar os valores cobrados por litro de cada estilo de cerveja + garrafas + tampinhas + caixas + impostos + frete de transportadora (se você não puder buscar seus lotes), mas o mais importante é não se deixar seduzir pelos preços, pois nem sempre isso compensa. Há cervejarias vendendo o litro por preços baixos com a qualidade tão baixa quanto. É importante conhecer a fábrica pra saber como ela é, se é limpa, organizada, se é experiente no mercado, se tem chances de fechar a qualquer momento, se dará conta de seus lotes, em quanto tempo tem a capacidade de entregar seus lotes prontos, como é a rotatividade dos ciganos nos tanques, etc.

É de suma importância verificar se a cervejaria-mãe é experiente no mercado específico das artesanais, pois se ela é experiente em produzir pilsen, pro caso do cigano, ela não serve bem ao propósito. Atente para o fato de que alguns estilos são mais populares e vendem mais que outros, sendo fundamental que a cervejaria-mãe tenha estrutura flexível para a produção em diferentes escalas. É ela quem vai produzir suas receitas, obter o registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) pra cada um de seus rótulos, envasar e rotular seu lote, dentre outras funções, dependendo do tipo de contrato.

Você mesmo pode ir lá e produzir suas receitas; ou você pode comprar da cervejaria receitas disponíveis e criadas por ela; ou, ainda, pode pedir pra que reproduzam suas receitas caseiras a nível industrial. Cada uma das opções de produção tem um custo pessoal: por exemplo, se você escolher produzir por conta própria, vai, além de entrar na fila e marcar uma data nem sempre ideal, encarar todo aquele arsenal de equipamentos e dispor de muitas horas do seu dia (às vezes, o dia todo), as quais poderiam estar sendo aproveitadas para divulgar sua marca, capturar clientes, conquistar a confiança de grandes revendedores, organizar uma rede de distribuição, estudar estratégias de venda e marketing e muitos eticéteras. Sim, você vai precisar saber fazer tudo isso e muito mais, a não ser que, além da grana de abertura da cigana, você também tenha cacife pra contratar uma equipe ou tenha bons sócios pra dividir essa chuva de funções e gastos (de tempo e de dinheiro). E isso, dá pano pra manga pra outro texto.

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Já vi gente falando que ser cigano é um hobby. Eu discordo totalmente! Ter outra profissão e ser cigano/a pode ser insustentável, pelo menos, foi pra mim. Bati de porta em porta durante muito tempo pra vender meus lotes: fazia uma lista de bares e restaurantes pela região, lotava o carro e zarpava. Spoiler: tem a chance de você não curtir o rolê! Muitos proprietários vão pedir amostras grátis, afinal, “quem é você na fila do pão?”. Muitos vão fazer um interrogatório, pedir desconto, opções de pagamentos mais facilitadas (pra eles, claro) e depois comprar meia dúzia e nunca mais ligar de volta. Você vai precisar fazer muita coisa que nem imaginava pra poder se fortalecer no mercado e ganhar notoriedade, vai perceber que o mercado quer sempre novidade e que fica impossível fazer tantos rótulos pra agradar a demanda. Mas, calma, muita gente vai gostar dos seus produtos/trabalho e muita gente vai te impulsionar também. Com persistência, garra e altas doses de humildade (não perca isso, senão perderá tudo), você ganhará força e expertise, definindo de forma mais realista o destino de sua marca e aparando arestas.

Se escolher comprar da cervejaria as receitas disponíveis e criadas por ela, é muito provável que tenha que lidar com uma possível falta de domínio seu a respeito daquela receita, pois não é simples falar de algo que não saiu de nossas próprias mãos, o que ficará explícito nos eventos cervejeiros ou em suas excursões de vendas, onde você mais encontrará leigos e ‘cervejochatos’ cheirando copos e perguntando: “quais lúpulos foram usados aqui?”; “em que temperatura foi fermentada?”, “fez dry hopping em qual etapa?” e, ao mesmo tempo e por causa disso , precisará encarar seu ego, pois pode ficar muito confusa dentro de você essa história de ter uma marca, mas não ter colocado a mão, em nenhum momento, no processo de produção de suas cervejas.

E por fim, se escolher solicitar a reprodução de suas receitas caseiras a nível industrial, é importante que você more próximo à cervejaria-mãe pra acompanhar o processo ou que sinta a falta de necessidade de controle, confiando totalmente no mestre cervejeiro que as reproduzirá. Não pense que isso é simples. Nenhuma das alternativas anteriores é a mais correta ou a melhor, pois dependem de uma variável enorme de fatores para que você as escolha. Mas uma coisa é certa: nenhuma delas lhe garante sucesso e em todas você pagará algum preço. Não permita que ninguém te julgue pela decisão que você tomar. Tudo depende de suas atuais possibilidades e de quanta energia está disposto/a a investir neste ‘sonho’. Segundo spoiler: você pode descobrir que não era bem com isso que sonhava.

Você vai trabalhar muito, mas muito mesmo, se quiser fazer isso dar certo e não ter prejuízo. Vai passar muitas horas investindo em cursos que nem imaginava que teria que fazer (até mesmo de gestão de negócios…imagina eu, psicóloga). Vai lidar com concorrência desleal, com mais e mais ciganas pipocando a cada dia e vai descobrir que aquela sua ideia revolucionária é só mais uma em meio a centenas de outras (e por vezes, de muito maior potência de alcance que a sua). Você vai enfrentar o fato de, mesmo sendo um cervejeiro/a muito promissor/a, inovador/a, talentoso/a, existir uma abundância de profissionais incríveis nesta área, por vezes, mais experientes, mais conhecidos e mais estabelecidos no mercado. Mas, por outro lado, vai ter a honra e o prazer de poder trocar figurinha e dividir a fatia desta ‘pizza’ com gente realmente preparada, fabulosa e que entende do negócio e do assunto.

Você vai aprender muito! Já prepare seu caderno ou seu drive pra jogar lá tudo quanto é texto, receitas, estudos e informações. Não podemos confundir o desejo de ser bem-sucedido com aptidão nata em lidar com toda essa enxurrada de pormenores e inconvenientes que um novo negócio (novo pra você e pro país, talvez pro mundo) nos impõe. Se diante de todos os fatos, o desejo de seguir com seu negócio se mantém, a aptidão virá com a experiência, acredite.

Ah, não subestime a importância do nome da sua marca e também da logo e nem a ideia de registrá-la no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) pra protegê-la e obter exclusividade sobre ela (eu teria tido problemas com minha marca, se não a tivesse registrado – minha advogada Nayara Morais Oliveira que o diga). Você também precisará de rótulos e, se você não manja de artes gráficas, vai precisar de um designer e, depois, imprimir seus rótulos em uma gráfica. Aí, é a etapa de cotar preços, contatar profissionais e conhecer gráficas. Uma dica é entrar em fóruns e grupos de WhatsApp cervejeiros ou perguntar para colegas sobre designers, gráficas, souvenirs e afins. Isso demanda tempo e paciência para mandar e-mail, telefonar ou visitar esses locais para verificar valores, tempo de produção e qualidade dos materiais. É importante você contribuir em ideias para as artes, combiná-las com a proposta de cada estilo de cerveja (ou não), enfim, dar asas a sua imaginação e, principalmente, dar a sua identidade. Você só vende aquilo que acredita! É hora também de escolher a garrafa para decidir o tamanho e o formato dos rótulos.

Na ponta do lápis
Tudo isso, parceiro/a, custa dinheiro! Bota aí na ponta do lápis. Não quero falar muito em valores, porque teria que fazer um levantamento de todas as minhas cotações e creio que ficaria muito extenso o texto (talvez eu faça um E-Book sobre isso mais detalhadamente). Mas, só pra você ter uma ideia, é comum as cervejarias-mães exigirem uma ‘litragem’ mínima de 500 L/estilo e cobrarem em média R$ 9,00 o L, fora os impostos. Suponhamos que você decida começar por 3 estilos. Isso daria 1.500 L x 9,00 = R$ 13.500,00. Mas não é só isso: contabilize ainda o desenvolvimento de sua identidade visual, o design dos rótulos, criação de souvenirs, transportadora (se for o caso), um veículo adequado para o transporte (caso não tenha e caso não vá utilizar transportadora), compras de barris para maturar/armazenar a cerveja, câmera fria pra armazenamento dos barris, local de armazenamento das garrafas (não pode bater sol e deve ser fresco), marketing, dentre outros que, pode ter certeza, aparecerão no caminho. Percorrendo vários artigos sobre a especulação do investimento necessário para se abrir uma cigana, calcula-se que você deva dispor cerca de R$ 100 mil. E para fechar a conta no final do mês, meu amigo/a, tem que vender pra caralha!

Converse com cervejeiros ciganos (pode ser por grupos de WhatsApp , fóruns, canais de Youtube, associações ou mesmo pessoas aí pertinho de você), sobre todos os aspectos do negócio, antes de tomar a decisão final de abrir uma cigana e aproxime-se de pessoas, dispositivos e ambientes que possam te ajudar na profissionalização do seu negócio. Muitas novas ciganas nascem da ilusão de ganhar dinheiro fácil. Haha! Isso é tão ingênuo…mas só dou risada hoje porque já caí nesse conto da carochinha e já superei, ufa! Ser cervejeiro/a cigano/a tem um propósito para além do dinheiro e este é a conseqüência de tudo!

Por isso, organize-se muito, faça um planejamento comercial, financeiro e se entupa de conhecimento do processo de fabricação, de dados estatísticos e previsões importantes do mercado. Nunca, nunca mesmo se perca da qualidade do produto, que deve ser o objetivo principal. Dito isso, economizar nos insumos não é um bom caminho, ok? E se você fizer as contas de forma inteligente, verá que nem mesmo compensa. Tenha ciência de que você está engrossando o coro da cultura cervejeira na sua região e país, preste um belo papel e não um desserviço! Não pense só no dinheiro, pois assim vai precisar descer o nível de suas alquimias tão belas e tão poéticas e acabar passando a imagem errada do que é cerveja artesanal. No mais, se ainda persistir o desejo, prepare-se pra viver uma etapa maravilhosa de sua vida.

Vou deixar o link da cervejaria-mãe, onde produzo minhas crias pra você já ter uma carta na manga na hora de fazer suas pesquisas.

Para saber mais sobre a aventura cigana:

  1. MODELO OPERACIONAL PARA UMA MICROCERVEJARIA CIGANA, de Raphael Athos dos Santos, Luciana Emirena dos Santos Carneiro e Lucas Maia dos Santos
  2. NÃO ABRA ‘MAIS UMA’ CIGANA!, de Advogado Cervejeiro
  3. CIGANOS: COMO AS CERVEJARIAS PODEM ATENDÊ-LO MELHOR, de Label Sonic
  4. O QUE SÃO E COMO FUNCIONAM CERVEJARIAS CIGANAS, de Andrea Torrente

Um brinde à liberdade, ao respeito e aos direitos conquistados! Saúde!


Fernanda Pernitza é fundadora e sócia-proprietária da Maria Bravura Cervejas Especiais, beer sommelier e psicóloga

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