Balcão da Maria Bravura: A cerveja na construção do mundo

Balcão da Maria Bravura: A cerveja na construção do mundo

Quase todo mundo aqui concorda que cerveja é boa pra tomar, produzir, pensar, interagir, filosofar, descontrair, discutir, elevar o espírito e se abrir à vida. É material de fartura para pesquisas, viagens, gastronomia, escritos e eventos. Existem pesquisas que apontam também o quanto a cerveja pode ser benéfica para a saúde mental e corporal, se consumida de forma moderada e consciente. O que poucos sabem é o quanto esta bebida tão aclamada foi um grande pilar para a construção deste mundão aqui onde hoje vivemos.

Ela foi protagonista na Revolução Agrícola; motivação para o surgimento da escrita; suporte na construção das pirâmides; salvadora genuína da Europa Medieval; colaboradora na colonização dos EUA; foi ponto de apoio para a Revolução nos EUA; fomentadora da refrigeração; impulsionadora do processo de pasteurização; auxiliadora da medicina moderna e grande incitadora da invenção da indústria moderna. Você pode achar que estou delirando ou inventando coisas, mas a história nos mostra que a cerveja esteve sempre na linha de frente ou nos bastidores do palco da civilização.

Leia também: Balcão da Maria Bravura – O tabu do álcool

Revolução agrícola
O ser humano pré-histórico abandonou a vida nômade de caçador-coletor quando descobriu a possibilidade de cultivar grãos, desobrigando-se de se locomover constantemente em busca de alimento. Por anos, especialistas afirmaram que a Revolução Agrícola se irrompeu por conta do pão, mas há outra teoria muito bem fundamentada que alega que a produção de cerveja surgiu há mais de 3.000 anos antes da produção do pão. Teria sido a necessidade em produzir pão e cerveja que fixou o homem na terra e o transformou para sempre. O processo de fabricação da cerveja foi descoberto por acaso há aproximadamente 10 mil anos na antiga Mesopotâmia (hoje Iraque). Uma vez que começaram a produzir toda essa comida, não era possível carregá-la no lombo. Surgiu a necessidade de transporte e, assim, vieram as carroças.

Escrita
A título de curiosidade, existem diversos símbolos da cerveja como mercadoria e moeda de troca tanto na Mesopotâmia quanto no Egito antes mesmo do surgimento da escrita e da invenção da roda. Mas, de todas essas invenções, a maior, sem dúvida, foi a escrita. A escrita foi de fundamental importância para a humanidade, a comunicação, o registro da história, dentre outros. Mas ela surgiu por conta da matemática, a qual também apareceu por causa da cerveja. Mais cultivo de grãos = mais fazendas. Isso motivou os povos daquela época a estudar como dividir as fronteiras dos campos, o que os levou à matemática e aos cálculos. Assim, apareceu a contabilidade e, posteriormente, a escrita! Era preciso gravar em algum lugar a produção e a distribuição de commodities. Foi o comércio de cerveja que criou esses registros: símbolos em tábuas de barro que evoluíram para a escrita. A primeira língua escrita surgida no mundo, a cuneiforme, já possuía em seu dicionário 160 palavras relacionadas à palavra “cerveja”. O hieróglifo que significa ‘comida’ é composto dos símbolos ‘pão’ e ‘cerveja’.

Pirâmides
Em 3.000 A.C. a civilização já estava a todo vapor, graças à cerveja. Das civilizações antigas a egípcia é a maior e ela provavelmente não existiria se não fosse a cerveja. Até mesmo os faraós escolhiam quantos jarros de cerveja gostariam de receber na outra vida e isso ficava grafado em sua tumba. Não existia ninguém no Egito que não pudesse consumir cerveja e até mesmo os trabalhadores das pirâmides foram pagos com ela. Para eles, cerveja era dinheiro e eles recebiam cerca de 4 L por dia de trabalho. Imagine o quanto de cerveja foi feita para construir a pirâmide de Guiza. A cerveja antiga era fonte vital de nutrição, um de seus alimentos mais básicos e até crianças e estudantes se levantavam pela manhã e tomavam uma cerveja para encarar o dia. Tratavam a cerveja como pão líquido.

Leia também: Sangue, cerveja, embriaguez na biga – As fantásticas histórias egípcias da Hator

Antibióticos
A cerveja foi usada para tratar de muitas enfermidades. Em ossos mumificados, detectou-se traços de tetraciclina, uma droga moderna em ossos de 3.000 anos de idade. Essa substância é um antibiótico que só foi oficialmente descoberto em 1928, mas estava tão presente nos ossos das múmias que presumiram que ele era consumido através da dieta dos egípcios. A resposta, após muita pesquisa, é que eles estavam recebendo tetraciclina através da cerveja.  A cerveja ganhou da medicina moderna em 3.000 anos!

Europa Medieval
A vida na Idade Média era miserável e assustadoramente curta. Com os rios contaminados e imundos, a água era considerada mortal na Europa Medieval. Muitas igrejas da época, principais produtoras de cerveja, disseminavam a ideia de que a cerveja seria a bebida mais segura a se consumir. Acreditavam que algum milagre divino transformava a água mortal em um líquido purificado, porém era a brassagem que removia os microorganismos – as bactérias que faziam as pessoas adoecerem -, tornando a bebida potável. A cerveja salvou milhões de vida na Europa Medieval e até o século XVI cada indivíduo consumia 300 L por ano – cada homem, mulher e criança. Isso é 6 vezes mais do que bebemos hoje!

Colonização dos EUA
Dizem que a América foi construída pela cerveja, a qual é considerada parte de uma história secreta dos EUA. George Washington, Thomas Jefferson e Sam Adams, todos eram cervejeiros. Benjamin Franklin dizia que “cerveja é a prova de que Deus nos ama e nos quer ver felizes”. Sem cerveja, talvez os colonizadores não teriam chegado a bordo do Mayflower, pois a água estragava no barco, enquanto a cerveja não. Foi a cerveja que manteve os colonizadores vivos durante a viagem e não só os hidratou como determinou o local da colônia fundadora: ao invés de atracarem em Virgínia, desembarcaram em Plymouth porque ficaram sem cerveja.

Revolução nos EUA
A cerveja estabeleceu uma rede de comunicação extraordinária. Antes do Orkut, Google, Twitter, Facebook, veio a Taverna, que era o centro de comércio e de distribuição da comunicação; o lugar onde se passavam as informações e onde as atividades revolucionárias eram discutidas, debatidas, conspiradas e planejadas. Foram as Tavernas que, com suas cervejas, inspiraram um dos grandes eventos da história da humanidade: a luta dos “filhos da liberdade” contra os ingleses – a revolução norte-americana. Não é à toa que o hino nacional dos EUA foi emprestado de uma música sobre cerveja do século XVIII.

Refrigeração
No século XIX o calor fazia com que os alimentos apodrecessem, dentre outras mazelas. Os primeiros sistemas viáveis de refrigeração foram construídos por causa da indústria da cerveja e financiados por ela. Tudo porque nessa época surgiu um estilo novo de cerveja: a Lager, que deveria ser fermentada a frio. Isso proporcionou aos consumidores a apreciação deste tipo de cerveja o ano todo e não só no inverno, quando tinha gelo para os barris; além disso, trouxe à humanidade a possibilidade de armazenar alimentos, manufaturar e armazenar medicamentos e transportar órgãos vivos para transplantes, dentre tantas outras coisas.

Pasteurização
Em 1850, o cientista Louis Pasteur inventou a pasteurização e todos ligam essa descoberta ao leite, mas na verdade Louis estava estudando a cerveja que foi a primeira bebida a ser pasteurizada. Ele começou sua pesquisa tentando responder por que a cerveja às vezes estraga. Descobriu então que cerveja é viva e, com isso, chegou à existência das bactérias, um ser vivo ainda desconhecido até então.

Medicina moderna
Com a descoberta das bactérias, Louis se fez outra pergunta: se bactérias estragam cervejas, podem adoecer pessoas? E foi por conta da cerveja que foi construída a teoria dos germes, a base da medicina moderna. Antes disso, ninguém lavava as mãos, nem mesmo os médicos! Foi por isso que surgiram as vacinas que erradicaram tantas doenças.

Indústria moderna
Século XXI e a produção em massa traz um alto padrão de vida à população. Tudo graças às fábricas. Todos pensam que elas foram inventadas por Henry Ford e seus carros. Mas existe a teoria de que não foram os carros que fomentaram a indústria moderna, e sim a cerveja. A indústria cervejeira se deparava com a necessidade de automatizar suas linhas de produção, criando uma máquina que fazia garrafas de cerveja em 1904, dez anos antes de Henry fabricar seu primeiro carro, transformando o cenário econômico para sempre. A produção de cerveja foi um fator crítico no desenvolvimento da economia, foi a grande pioneira na criação da troca, comércio, bancos, finanças; ou seja, o capitalismo moderno surgiu por conta da cerveja.

Impressionante, não? Então, antes de tomar sua cerveja, agradeça a ela e à ousadia de todos os cervejeiros (as) por terem preservado, transmitido e valorizado um dos personagens principais da história da humanidade! Não deixe de assistir “Como a Cerveja Salvou o Mundo”, no Youtube.

Um brinde à liberdade, ao respeito e aos direitos conquistados! Saúde!


Fernanda Pernitza é fundadora e sócia-proprietária da Maria Bravura Cervejas Especiais, beer sommelier e psicóloga

0 Comentários

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Login

Welcome! Login in to your account

Remember me Lost your password?

Lost Password