Em outubro de 2013, numa coluna sobre as sazonais do mês no jornal em que eu trabalhava, escrevi que a Pumpkin Ale, a cerveja de abóbora e especiarias que os americanos associam ao Halloween, ainda tinha poucos exemplares no Brasil. E arrisquei um palpite: “isso não deve demorar para mudar”. Acertei, por um tempo. Nos anos seguintes, outubro ganhou sua safrinha de cervejas de abóbora nas lojas e nas torneiras.
De lá para cá se passaram treze anos. E elas foram sumindo, uma a uma. Uma busca pelas lojas virtuais nesta semana acha menos de dez rótulos, e só um punhado à venda pela internet. Como é Halloween, podemos até dizer que parece obra de um assassino em série. Então, vesti minha fantasia de Sherlock — apesar de estar mais para Ed Mort! — e fui investigar o caso como o detetive de um filme de suspense: levantar o histórico das vítimas, procurar crimes parecidos, ouvir as testemunhas e, no fim, apontar os culpados.
Uma das que eu mais gostava era a Bier Hoff Jerimoon, de Curitiba (PR). A última vez que a vi foi em 2017. Âmbar, com aroma intenso de abóbora e condimentos, lembrava doce de abóbora, com cravo, canela e gengibre destacados, além de um final seco, como anotei na época. Era uma das pumpkins mais premiadas do país. Neste ano, não foi produzida. Mas é um bom ponto de partida.
Os antecedentes da Pumpkin Ale

Toda investigação começa pela ficha das vítimas, e todas são parentes. Pumpkin Beer é o nome de um grupo de cervejas feitas com abóbora. Quase sempre chegam junto as especiarias da torta americana: canela, noz-moscada, cravo, gengibre e pimenta-da-jamaica. A forma mais comum é a Pumpkin Ale, de alta fermentação.
A abóbora entrou na cerveja por necessidade no passado. Sem cevada suficiente, os colonos da América do Norte usavam o que a terra dava de sobra para obter açúcar e substituir parte do malte de cevada, relata a Smithsonian Magazine. Há registros desde 1771 e ela cresceu em popularidade com a Guerra da Independência dos Estados Unidos, já que os principais fornecedores de malte eram justamente os ingleses, deixando a matéria-prima cara e escassa.
A versão comercial moderna é obra de Bill Owens, dono do Buffalo Bill’s, um dos primeiros brewpubs dos Estados Unidos, aberto em 1983 em Hayward, na Califórnia. Owens dizia ter se inspirado numa cerveja de abóbora de George Washington, mas documentos primários sugerem o contrário, aponta a revista Hop Culture. Essa era uma pista falsa.
O que aconteceu de fato está no site The Hustle: a tentativa inicial tinha gosto de legume, e Owens a salvou com uma lata de pumpkin pie spice, o tempero pronto de torta, comprada no mercado em frente. Em 1986, a cerveja chegava às lojas. Em 1995, Sam Calagione lançou a Punkin Ale da Dogfish Head, uma Brown Ale de 7% com polpa de abóbora de verdade, segundo a própria cervejaria. E ela foi uma das grandes responsáveis por popularizar esse estilo. Guarde esse nome, porque ele volta mais adiante.
Uma onda de crimes contra a cerveja de abóbora nos EUA

Lá, os desaparecimentos começaram antes. As pumpkins de distribuição ampla saltaram de cerca de 25 em 2010 para 65 em 2013, com dados da Nielsen citados pelo The Hustle. Em 2015, a produção passou do ponto: fardos encalharam até depois do Ano-Novo e só saíram com desconto.
Em 2016, Samuel Adams, Southern Tier e Shipyard cortaram a produção, e outras cervejarias abandonaram o estilo. Anos depois, Phil Markowski, da cervejaria Two Roads (Stratford, no estado de Connecticut), disse à revista Hop Culture que o segmento “encolheu para alguns poucos players dominantes” (tradução minha). Mesmo assim, várias sobreviveram na prateleira. A Dogfish Head, por exemplo, aumentou a produção em 2016 e ainda era vendida nos 50 estados em 2024.
O que contam as testemunhas
A primeira testemunha que procurei foi Jacir Cavalheiro, sócio e mestre-cervejeiro da Bier Hoff e pai da Jerimoon. A cerveja nasceu de um pedido: Mario Neto, sócio-fundador da cervejaria, queria uma bebida especial para a festa de Halloween da escola dos filhos. Jacir conseguiu quatro pumpkins americanas para estudar. “A que mais me agradou foi a da Dogfish. Entretanto, achei que poderíamos criar algo mais complexo e intenso”, conta. A resposta veio da infância na roça, nas chimias de abóbora da mãe, o doce pastoso de frutas ou legumes, de herança alemã, típico do Sul do Brasil.
A estreia foi um lote de 1,5 mil litros, o mínimo da fábrica, dos quais a festa deu conta de uns 500. O resto ganhou um banner na porta da loja do Shopping Estação, a cerca de metade do preço do chope Pilsen, e acabou rápido. Vieram outro lote, a garrafa e as medalhas no Concurso Brasileiro de Cervejas: bronze em 2013, prata em 2014, ouro em 2017 e prata em 2018. Até a pandemia fechar a fábrica por um longo período. Desde então, a Jerimoon sai só em pequenos lotes, para os pubs da Bier Hoff, e Jacir não a dá por morta: “Quando produzimos, vendemos.”

Em Santos (SP), Adriano Andrea, sócio da Manube, faz desde 2021 a Fantasma do Paquetá, batizada com uma antiga lenda santista, a de uma mulher de véu que chorava na porta do cemitério. A cerveja é sazonal, “mas faz parte fixa do portfólio”, diz ele, e a produção aumentou para durar até dezembro. Leva “um doce de abóbora caseiro, como aqueles de vó”, e virou atração regional: “outras cervejarias e bares sempre pedem um barril de Pumpkin para celebrar a data”.
Na Penha, Zona Leste de São Paulo, Markus Honório serve no Armazém 77 a Aloha From Hell, que voltou às torneiras no início de outubro, anunciada como “a sazonal mais esperada do ano”. A cerveja “lembra um doce de abóbora da vovó, mas com 7% vol.”, descreve ele. E sai bem: “Aqui temos um ótimo giro dessa receita.”
Na Serra da Mantiqueira, Fabrício Faria Almeida, cofundador da Zalaz, faz pumpkin quando a horta manda, na Fazenda Santa Terezinha, em Paraisópolis (MG). São duas: a Brumas Pumpkin Ale, defumada com abóbora assada na brasa, e a Alegria da Bruxa, uma Lager leve. “As novas sementes de abóbora já foram plantadas e assim que a colheita surgir, surgem as cervejas”, diz.
Também na Mantiqueira, em Gonçalves (MG), a Cervejaria Rural 3 Orelhas foi mais longe e tirou a Abróba do calendário de Halloween: ela fica no cardápio o ano todo, contou o fundador Bruno Faria ao Estado de Minas em 2024. A receita nasceu da fartura de abóboras da cidade, que vão para o fogo a lenha, e soma bronze em 2020 e prata em 2021 e em 2026 no Concurso Brasileiro de Cervejas.
A pista mais fresca vem de Campinas (SP). Neste sábado (31), a RuERA lança no bar da marca, em Barão Geraldo, uma Pumpkin Ale feita com 15 quilos de abóbora cabotiá, durante o Halloween do Beco. Segundo a cervejaria, a receita sobre base de Bock traz “uma lembrança delicada de doce de abóbora” e foi pensada para não ficar enjoativa.
Ao longo dos anos, provei as pumpkins da Manube, da 77 e Brumas da Zalaz e, somados os depoimentos, anotei duas pistas. Quase todas as sobreviventes moram no balcão de quem as faz, longe da prateleira dos mercados ou mesmo dos e-commerces. E lembram o mesmo doce de abóbora.
Quem matou as Pumpkin Ales?
Com os depoimentos na mesa, a tese do assassino em série cai por terra: não foi um culpado só, foram vários. Fabrício aponta o primeiro: o ponto de venda (PDV), que deixou de esperar cerveja que tem giro mais lento nos dias de hoje. “O PDV tem menos margem para errar no pedido de compra e não quer que uma cerveja demore mais tempo para venda, precisa de giro mais rápido”, diz. É o mesmo encalhe que derrubou as pumpkins americanas em 2015.
Markus põe na lista o gosto do público, fiel a poucos estilos. A pumpkin “é diferente e com condimentos, a galera prefere beber receitas mais clássicas como IPA e Lager”, afirma. Adriano põe na conta bares e cervejarias: “O mercado explora muito pouco o estilo, e isso contribui para sua baixa presença”.
Jacir aponta a pandemia. Para ele, as cervejarias pararam, as artesanais perderam espaço nas gôndolas e o consumidor voltou às grandes marcas, com menos dinheiro no bolso. E lembra o trabalho que a abóbora dá: cada brassagem de Jerimoon exige três dias, mais uns 30 de fermentação e maturação. Fabrício acrescenta um suspeito incômodo, as próprias cervejas: muitas recebem ingredientes demais, intensos demais, e ficam enjoativas depois do primeiro gole.
O veredito de Fabrício resume a investigação: “Não há um único culpado, é uma série de fatores que levaram a isso.”
Ainda há sobreviventes
Nem todas as Pumpkin Beers, porém, morreram. No Concurso Brasileiro de Cervejas deste ano, três cervejas de abóbora subiram ao pódio, com ouro para a Doçuras ou Travessuras?, da Dona Cevada, de Blumenau (SC), num ano em que os estilos nacionais dominaram a premiação. E elas deixaram a pista que fecha o caso: não imitam a torta de Bill Owens, e sim o doce de abóbora da vó, a chimia, a abóbora assada na lenha. Jacir diz isso com todas as letras: achou “bastante artificial” o preparo das pumpkins americanas que viu em vídeo.
Nosso país estaria ensaiando um jeito próprio de fazer Pumpking Beers?
Elas também começam a fugir de outubro. Para Adriano, a pumpkin ficou presa à data porque “as pessoas associam diretamente ao Halloween, uma festa americana e não brasileira”. Mas ele defende que o estilo não precisa ser sazonal: “Aqui, temos abóbora o ano todo, o que abre espaço para explorar mais o estilo”. A Abróba já é fixa, e a Bier Hoff fez no ano passado um lote de Jerimoon para o Dia dos Pais, que Jacir descreve como “um sucesso”.
Caso encerrado. Existem sobreviventes. A maioria anda meio escondida em bares, brewpubs e taprooms (os bares das próprias fábricas), protegida por um público fiel, ainda que pequeno. E quase todas têm um traço em comum: a semelhança com o doce de abóbora. Quem procurar bem vai encontrar uma Pumpkin Ale neste sábado de Halloween.


