O resultado da Ambev no terceiro trimestre de 2026 mostra o brasileiro trocando a cerveja comum por rótulos mais caros e mais leves. No balanço divulgado nesta quinta-feira (29), a Michelob Ultra, cerveja de baixa caloria, registra alta de 478% em volume no país, e as cervejas premium, a faixa de preço mais alto, avançam 19%. Já as marcas de preço médio e grande escala, que o setor chama de mainstream, recuaram. Ou seja, a empresa fatura mais vendendo praticamente a mesma quantidade de cerveja.
É a lógica do carrinho de supermercado. A quantidade de itens não muda, mas a conta sai mais alta porque alguns produtos trocaram de prateleira. Entre julho e setembro, cada litro vendido no Brasil rendeu em média R$ 4,68 de receita líquida, 19 centavos a mais que um ano antes. Receita líquida é o que fica com a empresa depois dos impostos sobre a venda. O cálculo é do Guia: o balanço informa a receita por hectolitro (100 litros), que passou de R$ 448,90 para R$ 467,80.
Considerando os dez países das Américas onde opera, a companhia teve receita líquida de R$ 21,6 bilhões no trimestre, alta de 7,6% no critério orgânico. Esse critério desconta o efeito do câmbio, da compra e venda de operações e de outros ajustes, para comparar o negócio com ele mesmo. No trimestre anterior, essa alta tinha sido de 6,1%.
No resultado da Ambev, o lucro pede uma explicação à parte. O lucro líquido ajustado, que tira da conta os eventos que não se repetem, chegou a R$ 4,4 bilhões, alta de 14,3%. O contábil, sem esse filtro, caiu 10,2%, de R$ 4,9 bilhões para praticamente os mesmos R$ 4,4 bilhões. A diferença está no ano passado, que teve efeitos tributários pontuais, ligados em parte à saída da operação em Barbados. É como comparar o salário deste mês com o de um mês em que entrou um bônus.
Menos cerveja comum, litro mais caro
A troca se vê nas duas pontas do portfólio no Brasil. Enquanto as premium cresceram 19% em volume, o mainstream caiu na casa de um dígito, segundo o balanço, que não dá o número exato. Na prática, o retrato é de um consumidor subindo um degrau na prateleira.
Na leitura da empresa, o desempenho vem da variedade de marcas. “Como líderes da categoria, construímos o que acreditamos ser nosso portfólio mais completo até hoje”, escreveu o diretor financeiro da Ambev, Guilherme Fleury, no material distribuído à imprensa.
Não é um fenômeno só da Ambev. A Heineken, que divulgou seus números na véspera, viu suas cervejas premium crescerem no mundo quase cinco vezes mais que as de preço médio.
No resultado da Ambev, o volume total quase não se mexeu. A cervejaria vendeu 0,5% mais cerveja no Brasil no trimestre. O mercado cresceu cerca de 4%, com o empurrão da Copa, segundo a Nielsen, consultoria de pesquisa citada no próprio balanço. A companhia argumenta que, somando abril a setembro para diluir o efeito do torneio, cresceu 2,7%, contra 1,3% da indústria.
Michelob Ultra puxa a fila das cervejas mais leves
O crescimento mais vistoso do resultado da Ambev está no portfólio que a cervejaria chama de Wellness, de bem-estar: cervejas sem glúten, com menos calorias ou com pouco ou nenhum álcool. O grupo cresceu 157% em volume no trimestre.
A Michelob Ultra, uma Light Lager (cerveja clara e leve) que a Ambev lançou no país em 2021, foi a estrela do grupo. Alta de 478% significa vender quase seis vezes o volume de um ano antes.
Vale frisar: a Michelob Ultra parte de uma base pequena, e a Ambev não divulga quantos litros cada rótulo vende. O percentual mostra velocidade, não tamanho. Ainda assim, a marca já briga por espaço na prateleira das cervejas com menos calorias.
Logo atrás vem a Stella Pure Gold, sem glúten e com menos calorias, que cresceu 195%. Criada no Brasil, ela já foi levada pela Ambev a outros países da América do Sul, e em março ganhou garrafa de 600 ml, o tamanho clássico da mesa de bar.
As cervejas sem álcool também cresceram: 43% no período.
Quanto custa a troca no resultado da Ambev
Vender cerveja mais cara não sai de graça. Para convencer o consumidor a trocar de rótulo, a Ambev aumentou em 9,2% os gastos com vendas, marketing e distribuição no negócio de cerveja no Brasil. Ao mesmo tempo, o custo para produzir cada litro subiu 5,4%, pressionado por commodities, matérias-primas com preço definido no mercado internacional, e pelo próprio mix: rótulos mais caros também custam mais para produzir.
O efeito aparece no lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês). Depreciação e amortização são o desgaste de máquinas, fábricas e outros bens registrado na contabilidade. Grosso modo, o Ebitda é quanto rende o negócio de fazer e vender bebida.
No negócio de cerveja no Brasil, esse indicador cresceu só 1% no critério orgânico. A margem, que indica quanto sobra de cada R$ 100 faturados, recuou 1,3 ponto percentual.
Somadas todas as operações, o resultado da Ambev fechou melhor. O Ebitda ajustado subiu 8,9% no critério orgânico, para R$ 7,3 bilhões, com ajuda das operações em outros países da América Latina. E o lucro ganhou fôlego extra com a queda das despesas financeiras líquidas, o saldo entre o que a empresa paga e recebe em juros e em operações de proteção contra a variação do câmbio.


