Com uma única cerveja inscrita, a Cervejaria Landel, de Campinas (SP), venceu o título de Melhor IPA do Mundo no World Beer Awards (WBA) 2026 — um aproveitamento perfeito, raro até para cervejarias grandes. O feito não é acaso. Desde 2025, uma parceria entre o WBA e o Concurso Brasileiro de Cerveja (CBC) de Blumenau (SC) vem desmontando barreiras que afastavam o produtor brasileiro do circuito internacional — o preço e a logística de exportação.
Rene Aduan Junior, coordenador do WBA no Brasil, acompanhou essa transformação de perto. Nesta entrevista, ele explica como descontos, pontos de coleta com cadeia fria e um sistema de seletiva nacional que acontece desde 2015 passaram a levar cervejas artesanais frescas até o julgamento final no Reino Unido. E os prêmios provam que pequenas marcas brasileiras podem competir de igual para igual com os gigantes do mercado global.
Rene, você coordena o WBA no Brasil desde 2015. Como era o processo de participação das cervejarias brasileiras no início e o que mudou de lá para cá?

No início, o campeonato era sediado apenas no Reino Unido. As cervejarias precisavam enviar as amostras diretamente para lá. Isso desestimulava muito a participação porque o processo de exportação era caro e burocrático, inviável para cervejarias pequenas e demorado até para as grandes. Tínhamos apenas cerca de 20 a 30 amostras brasileiras por ano. A partir de 2015 e 2016, propusemos trazer o julgamento e a seleção para o Brasil. Fomos pioneiros nisso. A ideia sempre foi facilitar o acesso, olhando pela perspectiva do cervejeiro brasileiro e resolvendo suas “dores” logísticas. Depois do Brasil, esse modelo de ponto de coleta e julgamentos locais foi adotado no Canadá, na Alemanha, no Chile e no Japão.
Como funciona, na prática, a parceria atual entre o Concurso Brasileiro de Cerveja (CBC) e o World Beer Awards?
A parceria com o CBC de Blumenau funciona como uma ponte direta. Quem participa do CBC já ganha um desconto para o WBA. Os medalhistas (ouro, prata ou bronze) ganham descontos ainda maiores, e as melhores cervejas (1º, 2º e 3º lugares) recebem inscrições gratuitas — o que é um excelente prêmio, já que a inscrição em libras é cara. Isso estimula o cervejeiro que se destacou nacionalmente a testar seu produto no mundial. Além disso, nós cuidamos de toda a parte burocrática: transporte, notas fiscais e embalagem. O cervejeiro só precisa entregar o produto em nosso ponto de coleta e esperar o resultado.
Qual é a importância de realizar a primeira etapa de julgamento diretamente no Brasil?
O grande benefício é o frescor. Cervejas muito lupuladas ou delicadas sofrem com variações de temperatura, tempo e oxidação no transporte internacional. No Brasil, nós temos ponto de coleta com estrutura de cadeia fria e seca. Fazemos uma curadoria rigorosa e enviamos as cervejas selecionadas para o Reino Unido em um prazo curtíssimo. No máximo, de um mês a um mês e meio entre a entrega e a final. Isso garante que a cerveja brasileira seja avaliada em seu potencial máximo de qualidade, competindo de igual para igual com os maiores títulos do mundo.
O caso da Cervejaria Landel, que venceu como Melhor IPA do Mundo com uma única inscrição vinda da parceria com o CBC, é comum no campeonato?
É algo raríssimo, que eu acredito que nunca tenha acontecido antes no campeonato, certamente não com o Brasil. Ter uma única inscrição que ganhe como Country Winner (etapa nacional), depois vença a categoria de estilo (World’s Best Milkshake/New England IPA) e, por fim, leve o prêmio máximo de Melhor IPA do Mundo (World’s Best IPA) é um feito impecável. A categoria de IPA é a mais disputada do concurso, equivalente às American Light Lagers. Todo mundo faz IPA e manda o seu melhor. Ver uma cervejaria pequena, que opera de forma cigana [sem fábrica própria, produzindo por contrato em outras plantas fabris], conquistar o maior ícone cervejeiro do mundo é fantástico e mostra exatamente o que o modelo do WBA permite.
Esse resultado reflete uma mudança no perfil dos vencedores dos grandes concursos internacionais?
Com certeza. O mercado mudou e o campeonato reflete isso. As grandes cervejarias tradicionais, que sempre foram referências ou criadoras de estilos, estão abrindo espaço para novos players altamente criativos, que trazem uma pegada mais contemporânea. O WBA confronta cervejas do mundo inteiro e permite que um “patinho feio” — no sentido de ser uma cervejaria estreante e desconhecida internacionalmente, como a Landel — desbanque gigantes. Nosso foco hoje está voltado para o craft brasileiro e para as pequenas cervejarias. Queremos estimular o pequeno produtor a perceber que, se ele tem qualidade para ganhar uma medalha no CBC, ele tem plenas condições de disputar e vencer o campeonato mundial.


