Falar de tendências é sempre um exercício de futurologia — e a chance de errar é maior do que de acertar. Mas vale a aposta. Quem chega antes nelas pode garantir uma vantagem competitiva e, muitas vezes, com risco baixo. Mas como saber o que vai ser tendência? Steve Jobs dizia que para prever o futuro “é preciso olhar para as bordas”. Então, para ajudar você a pensar sobre o assunto, o Guia da Cerveja focou nesses movimentos marginais dos principais nichos do mercado cervejeiro e trouxe seis entre as muitas possíveis tendências de consumo para 2026.
Cervejas funcionais vão crescer ainda mais
Aposta: cervejas sem açúcar
Na era do Ozempic e do Mounjaro, quem não prestar atenção na onda de saudabilidade corre sérios riscos de perder boas oportunidades. Já faz algum tempo que o consumidor busca uma melhor saúde e bem-estar e vem bebendo “com o lado esquerdo do cérebro”, priorizando escolhas mais racionais e equilibradas entre lazer e saúde. E nada indica que isso vá mudar esse ano.
Somente o segmento de cerveja sem glúten cresceu mais de 130% em 2024, segundo o Anuário da Cerveja do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Por isso, novos produtos com mais funções não param de pipocar por aí, propondo soluções para diferentes questões dos consumidores. Uma aposta recente vem acontecendo com as cervejas sem açúcar — que nada mais são que o extremo das versões de baixa caloria (low carb). Logo antes do Carnaval, a Ambev lançou a Skol zero zero, sem álcool e sem açúcar. No exterior, se fala e se pesquisa sobre cervejas com proteína e para a saúde intestinal, com fibras ou probióticas. Mas para quem quer se aventurar nessas, melhor consultar o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) antes.
Moderação vai impulsionar cervejas sem álcool
Aposta: cervejas de baixo teor alcoólico
Falar que cerveja sem álcool é uma das tendências de consumo já é algo que ficou velho. Na verdade, esse segmento se tornou um nicho de mercado super relevante com o crescimento de mais de 300% em 2024. E o motivo vai além da saudabilidade hoje. “Pegar leve” já não tem a ver só com bem-estar físico, mas envolve também questões sociais e psicológicas. Dá para dizer que a moderação virou uma tendência à parte.
A questão é que elas podem ganhar companhia das cervejas de baixo teor alcoólico, também conhecidas como de teor alcoólico reduzido. Basta olhar como o público vem usando as cervejas sem álcool para controlar melhor o consumo. Muitos vem “fazendo a zebra”, ou seja, alternando as zero com as comuns. Na conta, seria o mesmo que cortar pela metade o teor alcoólico. A Carslberg está apostando nisso na Dinamarca. E anunciou no começo do ano sua nova linha de produtos Session.
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Aqui no Brasil já existe até um espaço na legislação para isso, no qual as cervejas devem ter entre 0,5% e 2,0%. Mas para o consumidor, essa limitação não importa muito — desde que seja mais “leve” do que a cerveja normal.
Premium como remédio para queda de volume
Aposta: cervejas saborizadas
No difícil equilíbrio entre preço, volume e margem de lucro, as empresas acabam tendo que compensar um com outro algumas vezes. Com venda em menor quantidade no último ano, o valor a mais pago nas cervejas premium acaba equilibrando a conta. É o que mostram os balanços de 2025 da Heineken e Ambev divulgados na semana passada. Por isso, as cervejas premium devem continuar sendo uma das tendências de consumo em 2026.
Como a classificação premium é uma questão de preço — em geral, 20% a mais do que a cerveja mainstream —, uma das questões é como ampliar a oferta de produtos. E é aí que entram as cervejas saborizadas.
O público continua atento e curioso com novos aromas e sabores. Mas talvez não queira desembolsar o valor de uma cerveja artesanal para isso. São cervejas com botânicos, como a Heinken Lager Spritz, ou com limão, como a Flying Fish, que tem um diferencial claro de sabor no líquido, custam um pouco mais, mas cabem no bolso.
Produção de outras bebidas
Aposta: coquetéis prontos e águas lupuladas
Apertem os cintos: o consumidor sumiu. É assim que se sentem muitos empresários do meio cervejeiro com as mudanças do mercado nos últimos anos. Se antes tudo vendia, agora parece que o público desapareceu. Quem quer continuar no negócio, ou procura meios de encontrá-lo — e aí vem a crescente importância do marketing no setor —, ou atrai outros perfis.
Aproveitar a estrutura já existente para explorar outras bebidas é um passo lógico. Coquetéis prontos para beber, kombuchas, sidras e o que mais tiver demanda podem ser, sim, boas ideais, desde que bem trabalhadas.
Essas outras bebidas atingem um público novo ou atendem ocasiões de consumo que a cerveja não consegue entrar. É o caso das as águas lupuladas, uma aposta nos Estados Unidos, como mostra reportagem do New York Times de dezembro. Elas não são novidade. Já existiram outras tentativas sem muito sucesso. Mas talvez dessa vez acabem sendo melhor aceitas como nesse novo momento do mercado.
Eficiência e volta ao básico
Aposta: estilos clássicos para o dia-a-dia e embalagens menores
Todas as mudanças recentes do mercado cervejeiro exigem das cervejarias artesanais uma boa capacidade de adaptação. Não há fórmula mágica. É preciso testar, errar — de preferência com baixo custo — e ajustar rápido. Até achar algo que funcione com o seu público.
Em termos de estilos, parece que o consumidor está cansando de cervejas com excessos sensoriais, pelo menos nos Estados Unidos. Por lá, uma das saídas está sendo a consolidação da tendência das Lagers artesanais, que já vem acontecendo há uns anos.
Aqui no Brasil, é bastante claro que o mercado está num momento no qual a eficiência conta muito. Manter os custos baixos e melhorar as margens é uma necessidade. Apostar em cervejas “carro-chefe” é uma das maiores recomendações de especialistas. Mas, nesse contexto, uma boa aposta poderia ser a volta ao básico, fazendo estilos clássicos que tem recorrência de consumo em vez lançamentos que o cliente vai comprar uma vez só. É mais fácil e barato vender uma segunda vez para um cliente que já é seu do que atrair um novo.
Outra das tendências de consumo que vem aparecendo forte nos Estados Unidos são as embalagens menores, que diminuíam a percepção de preço nas gôndolas. Recentemente a Sierra Nevada lançou latas de 250 ml.
Cervejaria como varejo
Aposta: melhores experiências e hospitalidade
Saindo de “o que” se consome para o “como”, a venda direta ao consumidor tem se mostrado uma das melhores soluções para as pequenas cervejarias. E é um ganha-ganha com o consumidor. Cortar intermediários garante mais margem para o produtor e um preço melhor para o cliente.
Mas isso também exige novas competências. A indústria tem que ser cada vez mais varejo e precisa aprender a lidar diretamente com esse consumidor. Um espaço adequado, limpo e com bom serviço é o mínimo. É preciso ser super-premium também na hospitalidade.
O diferencial vai estar na experiência que você oferece — que deve ser memorável, e não algo que o consumidor possa ter em casa —, na autenticidade da sua marca e na conexão com essa comunidade. Ser só mais uma cervejaria ou ter só mais um taproom com decoração industrial não é um diferencial. As pessoas precisam de um motivo para sair do conforto do seu lar.


