A Groenlândia ganhou destaque nos noticiários recentemente por ser alvo das ambições do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A maior ilha do mundo é estratégica pela sua localização e riqueza de recursos minerais. Mas além de tudo isso, tem cerveja na Groenlândia? A resposta é sim. O território semi-autônomo da Dinamarca tem Lager dinamarquesa importada, país que foi uma das origens desse tipo de fermentação. Além disso, tem uma tradição de cervejas caseiras inuítes — que já foram chamados de esquimós, hoje um termo pejorativo — e até três cervejarias artesanais que movimentam a cena por lá.
Donald Trump tem feito pressão para ter a ilha. Quer comprar o território da Dinamarca, mas já disse que opções militares também seriam possíveis. No capítulo mais recente dessa novela — que não vem de hoje! — disse ter chegado a um acordo com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), mas os envolvidos não especificaram em que termos ainda.
Para entender o imbróglio e a cerveja da Goenlândia é preciso percorrer um pouco do mesmo percurso histórico dessa que é a maior ilha do mundo, mas que tem a menor densidade demográfica do planeta: 0,026 habitantes por km2 considerando o território todo. Aproximadamente 85% dele é inabitado, sendo 410 km2 inabitáveis, segundo a Statistics Greenland. A população hoje é de 56,7 mil pessoas, sendo cerca de 90% de descendência inuíte ou mestiços, 7% dinamarquesa e o restante de outras origens.
O que a Groenlândia tem?
Os primeiros habitantes da ilha foram de diferentes vertentes da população inuíte. Mas os primeiros europeus a chegarem por lá foram os vikings. O explorador norueguês Erik, o Vermelho, foi exilado da Islândia e chegou à ilha no ano 982 d.C. A população cresceu, chegou a 5 mil habitantes, estimam especialistas, mas desapareceu no século 15 sem deixar nenhum vínculo com a ilha. Especula-se que o houve uma pequena Era do Felo na época, expulsando os colonos. Ou seja, qualquer tradição viking hoje está mais no campo do imaginário.
Os noruegueses votaram à ilha em 1721 e o território foi deles até a separação dos reinos da Noruega e Dinamarca, quando passou para os atuais detentores do título. Com a ocupação da Dinamarca pela Alemanha Nazista na Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos assumiram a proteção da ilha, estabelecendo bases militares.
Ela muda de status, deixando de ser colônia para se tornar província dinamarquesa em 1953. Com o passar do tempo, a Groenlândia foi ganhando mais e mais independência, sendo hoje um território autônomo.
Por conta do aquecimento global, o degelo fez do Mar do Norte uma rota navegável, o que aumentou o interesse norte-americano na ilha. Com a diminuição do manto de gelo, maior parte do solo começou a se mostrar, no qual estão terras raras, petróleo e gás natural. Donald Trump quer a ilha para evitar que seja da China ou Rússia, que podem explorar os mesmos recursos. Ele também alega que a Dinamarca não pode protegê-la de uma investida, caso seja necessário, colocando a segurança dos Estados Unidos em risco.
Cerveja dinamarquesa
Até 1950, a Dinamarca menteve a ilha fechada para importações. O que se bebia por lá era o imiaq, um tipo de cerveja caseira feita pelos inuítes com açúcar e malte. Ela entrou em declínio nessa mesma época por conta da liberação de importação de cervejas e outras bebidas, segundo pesquisa do professor da Universidade do Sul da Dinamarca, Peter Bjerregaarda.
As importações eram de marcas de cerveja dinamarquesas, considerada uma das terras das Lagers. Foi lá que Jacob Christian Jacobsen desenvolveu suas Lagers — técnica que ele aprendeu na Alemanha com Gabriel Sedlmayr II, da Spaten. Ele fundou a Carlsberg em 1847, hoje sétima maior cervejaria do mundo. E foi no laboratório dessa cervejaria que o cientista dinamarquês Emil Christian Hansen isolou a própria levedura Lager em 1883 — o nome científico original dela era saccharomyces carlsbergensis em referência a isso.
A cerveja era totalmente importada até 1988, quando foi fundada a Nuuk Imeq, empresa de bebidas criada por uma parceria entre o Governo Autônomo da Groenlândia e a Carlsberg. Ela monopolizou a produção e distribuição de cervejas por ser a única com garrafas de vidro reutilizáveis processadas localmente — uma exigência do governo por conta da proteção ambiental. A partir daí as cervejas Carlsberg e Tuborg, que também pertence ao grupo Carlsberg, passaram a ser produzidas localmente. O governo reviu a lei em 2004, permitindo a abertura de microcervejarias e a importação novamente.
Cerveja artesanal com ingredientes locais

Por muito tempo, com a cerveja caseira inuíte praticamente extinta, a própria Groenlândia se tornou uma extensão da cultura das Lagers dinamarquesa. Até os anos 2006, quando surgiu a cervejaria Godthåb Bryghus, primeira artesanal local. Ela ficou conhecida por ousar na produção, fazendo cervejas com gelo de geleiras ou com a erva Angélica, muito usada na gastronomia por lá. Uma das principais criações, no entanto, é a Erik, o Vermelho, uma Red Ale batizada em homenagem ao explorador viking. Em 2025 trocou de nome para Greenland Brewhouse. Ela fica na capital Nuruk, no Sudoeste da ilha, cidade já foi conhecida no passado como Godthåb.
Atualmente são três cervejarias artesanais da ilha. Pode parecer pouco, mas na conta isso dá uma para cerca de 20 mil habitantes. O estado brasileiro com maior concentração de cervejarias por habitante, o Rio Grande do Sul, tem uma cervejaria para cada 32 mil. No Brasil todo há uma cervejaria para cada 100 mil habitantes, segundo o Anuário da Cerveja 2025 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
A Qajaq Brewery, que fica em Narsaq, também no Sudoeste, é uma das mais ativas. Foi fundada em 2015, sendo lembrada também por usar ingredientes locais, como musgo de caribu. Já a IceCap Brewery é uma cervejaria cigana que ficou conhecida por usar água de icebergs e focar na sustentabilidade. Ela fica em Ilulissat, 200 quilômetros ao norte do Circulo Polar Ártico, na costa ocidental da ilha.


