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Cerveja de mulher não existe; cerveja não tem gênero

Fui ao supermercado comprar uma cerveja e uns ingredientes para fazer uma harmonização para a Páscoa e deixar de dica para você, caro leitor e leitora. Contudo, fui atravessada por uma fala altamente machista: “cerveja de mulher”. E isso em pleno mês de março, época do ano que intensifica a luta pela vida das mulheres. Tomada por uma raiva súbita, devolvi ao interlocutor que sequer eu conhecia a informação de que ele precisava para despatriarcar o pensamento.

“Cerveja de mulher”

Tudo começou quando um senhor me abordou ao ver um rótulo de uma cerveja artesanal em minhas mãos e emitiu uma opinião que eu não havia solicitado: “Essa cerveja é forte. Mulher toma cerveja fraca”.

Expliquei a ele, de forma bem tranquila e didática, que a cerveja não tem gênero, que é uma bebida com muitos sabores, alguns com poucas e outros com bastante complexidade, e todos têm o seu valor. Que há cervejas cujo teor alcoólico é mais suave, outras mais intensas. E que eu gosto desde aquelas zero álcool até as que têm seus robustos 11% de teor alcoólico, por exemplo. E eu sou uma mulher.

Ele tentou contra-argumentar dizendo que sua namorada gostava de cerveja fraca. Pontuei que não existem cervejas fracas. Mas sim estilos com teor alcoólico não tão elevado, como German Pils e Witbiers, por exemplo. Há estilos de que gosto muito, de teor alcoólico na casa dos 10%, como Belgian Quadrupel. Uma das minhas preferidas é La Trappe, uma cerveja trapista que se encaixa nessa faixa e é um verdadeiro deleite.

Demonstrei brevemente que nem todas as mulheres gostam de cervejas menos intensas. E se algumas gostam, essa não deve ser a régua definidora do que é cerveja de mulher. Até porque cerveja é cerveja, e ponto.

Ainda, pontuei que a cerveja tem a sua origem no continente africano e que foram as mulheres que começaram a produzi-las. Logo, qualquer cerveja é cerveja de mulher. E cerveja é de quem gosta de degustar uma excelente bebida.

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Hoje não tem harmonização

No fim, acabei voltando para casa sem a cerveja e sem os ingredientes para executar o pareamento. Sendo assim, deixarei para vocês, meus caros e minhas caras, a escolha da harmonização. Espero na próxima coluna, em maio, trazer um prato bem saboroso e uma cerveja bem incrível para vocês executarem para suas mães.

Em tempo: homens, conversem com seus amigos e combatam o machismo, a misoginia, que ainda insiste em contaminar todos os ambientes.

Para aquelas pessoas que continuam com um pensamento arcaico, é bom lembrar que não importa o estilo. A cerveja foi feita para todos os paladares. Cerveja é de quem quiser degustar.


Sara Araujo é sommelière de cervejas e palestrante sobre relações raciais; consultora, formada em Direito (ITE de Bauru/2012) e em Ciências Sociais (UEM/2022), é também especialista em História da África e da Diáspora Atlântica (Instituto Pretos Novos/2025), além de mestranda em Ciências Sociais pela UEM.


* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.

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